No Dia da Engenharia da Aeronáutica, celebrado em 28 de outubro, a ITAEx conversa com o professor Ronaldo Vieira Cruz (T93), do Departamento de Projetos da Divisão de Engenharia Aeronáutica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), para explicar essas diferenças e falar sobre os caminhos e as transformações da profissão.
A Engenharia Aeronáutica está diretamente ligada à história do ITA e à formação de profissionais que contribuíram para o desenvolvimento da aviação brasileira. Mas quais são as diferenças entre essa formação e a Engenharia Aeroespacial? O que aproxima as duas áreas e em que ponto seus caminhos começam a se distinguir?
Engenheiro Mecânico-Aeronáutico formado pelo ITA em 1993, Ronaldo Cruz é também Engenheiro de Ensaios em Voo de Helicópteros pelo Instituto de Pesquisa e Ensaios em Voo (IPEV), mestre e doutor em Engenharia Aeronáutica e Mecânica pelo ITA e Coronel Engenheiro da Reserva da Força Aérea Brasileira (FAB).
Sua experiência profissional reúne atuação em manutenção de helicópteros, ensaios em voo, certificação aeronáutica, segurança de aviação e gerenciamento de projetos. Na FAB, esteve à frente da Gerência Técnica do Programa HX-BR, relacionado à aquisição de 50 helicópteros H-225M para as Forças Armadas. Foi ainda, por mais de dez anos, instrutor do IPEV.
Ligado ao ensino no ITA há mais de duas décadas e professor do Departamento de Projetos desde 2018, Ronaldo atualmente leciona Projetos de Helicópteros e Certificação Aeronáutica, além de atuar na pós-graduação de segurança de voo e aeronavegabilidade continuada.
Na entrevista à ITAEx, o professor explica porque as engenharias Aeronáutica e Aeroespacial compartilham conhecimentos fundamentais, mas levam esses conhecimentos a ambientes e aplicações diferentes. Fala também sobre helicópteros, ensaios em voo, novas tecnologias e sobre o que considera essencial na formação das próximas gerações de engenheiros.

Na primeira fila, ainda como militar da ativa, Ronaldo é o terceiro (da esquerda para a direita)
ITAEx – Quando falamos em Engenharia Aeronáutica e Engenharia Aeroespacial, quais são, de fato, as principais diferenças entre essas duas áreas?
Ronaldo Vieira Cruz – O curso de Graduação em Engenharia Aeronáutica forma engenheiros com profundos conhecimentos teóricos e práticos em projeto e construção de aeronaves. Ao longo da formação, o aluno estuda aerodinâmica, estruturas, motores e turbinas, mecânica do voo, além de desenvolver projetos de aviões relacionados a essas áreas.
Já a Graduação em Engenharia Aeroespacial forma engenheiros de concepção com profundos conhecimentos em projeto e construção de sistemas aeroespaciais, como foguetes, veículos lançadores suborbitais, veículos espaciais e satélites.
Dessa maneira, a Engenharia Aeronáutica concentra-se em aeronaves que operam dentro da atmosfera terrestre, enquanto a Engenharia Aeroespacial abrange veículos espaciais e sistemas que operam fora dela.
ITAEx – Existe uma base comum entre as duas formações? E em que momento os conhecimentos começam a se diferenciar?
Ronaldo – Ambas compartilham fundamentos em mecânica dos fluidos, estruturas, materiais e sistemas de controle. A diferenciação ocorre quando se aplicam esses conceitos: na Aeronáutica, para voo atmosférico; na Aeroespacial, para órbita, reentrada e propulsão espacial.
ITAEx – O que torna o projeto e a operação de uma aeronave de asas rotativas particularmente desafiadores para a engenharia?
Ronaldo – Nos aviões, os diversos subconjuntos executam funções bem específicas: a asa fixa é responsável pela sustentação, a propulsão é garantida pelo conjunto motopropulsor e a função de controle é desempenhada pelas superfícies de comando.
Nas asas rotativas, há uma integração de todas essas funções no rotor principal, o que gera desafios adicionais, como assimetria aerodinâmica, vibração, ruído e preocupações com fadiga estrutural.
ITAEx – O senhor atuou por mais de dez anos como instrutor do IPEV. O que os ensaios em voo permitem conhecer que não é possível compreender apenas na etapa de projeto e simulação?
Ronaldo – Os cálculos e as simulações fornecem previsões iniciais a partir de modelos matemáticos que tentam “imitar” o mundo real. Já os ensaios em voo transformam essas previsões em realidade, validando na prática o desempenho, a segurança e a confiabilidade da aeronave e de seus sistemas. É nessa etapa que se comprova se o projeto pode realmente ser operado com segurança.
ITAEx – Entre suas experiências na FAB está a Gerência Técnica do Programa HX-BR. O que um programa dessa dimensão exige de um engenheiro além do conhecimento técnico sobre a aeronave?
Ronaldo – A Gerência Técnica do Programa HX-BR exigiu não apenas conhecimento técnico da aeronave, mas também domínio da certificação, do sistema de garantia da qualidade, das metodologias de recebimento de aeronaves, da mecânica de voo e da verificação de sistemas embarcados. É um trabalho multidisciplinar que envolveu ainda gestão de projetos, análise de riscos, liderança de equipes e negociação internacional.
ITAEx – Sua carreira reúne projeto, ensaios em voo, certificação, segurança de aviação e gerenciamento de projetos. Como essas diferentes áreas se relacionam na prática?
Ronaldo – Projeto, ensaios em voo e certificação são etapas que asseguram que uma aeronave cumpra sua função de voar com segurança. As lições aprendidas com incidentes e acidentes retroalimentam esse processo, criando um ciclo virtuoso de melhoria contínua. O gerenciamento de projetos conecta todas essas fases, garantindo prazos, objetivos e a integração entre as equipes.
ITAEx – O senhor se formou no ITA em 1993 e está ligado ao ensino na instituição há mais de duas décadas. O que mudou no seu olhar sobre a engenharia ao passar da posição de aluno para a de profissional e, depois, professor?
Ronaldo – Foi um processo de amadurecimento. Como aluno, o objetivo era aprender conceitos e superar as provas. Como profissional, aplicar soluções para demandas reais. E, como professor, transmitir não apenas conhecimento, mas também visão crítica e experiência. Esse papel é um retorno à sociedade e aos futuros colegas daquilo que a engenharia me proporcionou.
ITAEx – Desde 2018, o senhor atua como professor do Departamento de Projetos da Divisão de Engenharia Aeronáutica do ITA, lecionando Projetos de Helicópteros e Certificação Aeronáutica. O que procura transmitir aos alunos a partir da experiência acumulada fora da sala de aula?
Ronaldo – Além do conteúdo teórico e do equacionamento matemático, procuro transmitir aos alunos exemplos práticos que vivi ao longo de três décadas na manutenção de helicópteros, nos ensaios em voo, na certificação e na gerência técnica. Acredito que essa vivência complementa a teoria e ajuda a preparar os futuros engenheiros para os desafios reais da profissão.

RONALDO VIEIRA CRUZ é professor no Departamento de Projetos da Divisão de Engenharia Aeronáutica do ITA, e leciona Projetos de Helicópteros e Certificação Aeronáutica
ITAEx – Na sua experiência como engenheiro e professor, quais características fazem diferença na formação de um bom engenheiro aeronáutico, além do domínio técnico?
Ronaldo – Um bom engenheiro precisa de curiosidade para continuar aprendendo, resiliência diante das adversidades, ética e capacidade de trabalhar em equipe. Saber ouvir os mais experientes e respeitar ideias divergentes é fundamental, pois muitas vezes elas trazem pontos que você não havia considerado.
ITAEx – Inteligência artificial, simulação avançada, novos materiais e ferramentas digitais estão transformando a engenharia. Como essas tecnologias estão mudando a maneira de projetar, testar e certificar aeronaves?
Ronaldo – Essas tecnologias estão mudando profundamente a engenharia aeronáutica. Elas permitem projetar com mais precisão, testar com menor custo e certificar com maior confiabilidade. A IA, por exemplo, já é usada na manutenção preditiva e na gestão de tráfego aéreo, otimizando rotas, reduzindo o consumo de combustível e, portanto, diminuindo emissões.

Ronaldo em avaliação de chaff e flare
ITAEx – Olhando para os próximos anos, quais são os principais desafios e oportunidades para a Engenharia Aeronáutica e para a Engenharia Aeroespacial?
Ronaldo – Na Aeronáutica, os principais desafios são a sustentabilidade, a redução de emissões e a mobilidade urbana avançada, com o uso de aeronaves remotamente pilotadas. Na Engenharia Aeroespacial, o foco está em ampliar o acesso ao espaço e viabilizar missões cada vez mais complexas. Em ambos os casos, há grandes oportunidades de inovação tecnológica, desenvolvimento profissional e cooperação internacional.
ITAEx – Para um jovem que hoje está escolhendo sua profissão e pensa em seguir uma carreira ligada à aviação ou ao setor aeroespacial, que conselho o senhor daria?
Ronaldo – Ter paixão pelo que faz, dedicação e resiliência para enfrentar os desafios, além de humildade para aprender continuamente. É uma área exigente, mas também motivadora e recompensadora para quem se entrega de verdade.
ITAEx – Depois de uma carreira que passou pela FAB, pelos ensaios em voo, pela gestão de grandes programas e pelo ensino, o que ainda o motiva na engenharia e, particularmente, no trabalho de formar novos engenheiros no ITA?
Ronaldo – Gosto de pensar que é o fechamento de um ciclo. Depois de tudo que o ITA e a FAB me proporcionaram, vejo como missão transmitir minha experiência e vivência aos futuros engenheiros. É uma forma de retribuir e, ao mesmo tempo, preparar a próxima geração para os desafios da aviação e da engenharia que tanto me motivaram ao longo da carreira.