“Ser professora é ensinar, aprender continuamente
e contribuir para formar pessoas”
– Sarah Negreiros
Professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) desde 2023, Sarah Negreiros de Carvalho Leite atua no ensino, na pesquisa, na extensão e na iniciação científica. Nesse Dia do Professor, ela fala sobre os caminhos da formação de engenheiros e pesquisadores, o papel da orientação e a importância de aproximar o conhecimento de problemas reais da sociedade.
A professora Sarah trabalha no Departamento de Telecomunicações da Divisão de Engenharia Eletrônica, onde ministra disciplinas relacionadas ao processamento digital de sinais, redes neurais e sinais cerebrais.
Sua atuação, porém, vai além da sala de aula. Sarah também coordena o Programa de Iniciação Científica do ITA, coordenou o Encontro de Iniciação Científica (ENCITA) em 2025 e 2026, participa do projeto de extensão Mulheres em STEM2D e é supervisora da iniciativa estudantil ITARobio.
No ensino e na orientação, trabalha com os alunos na investigação de problemas para os quais nem sempre existem respostas prontas, aproximando teoria, pesquisa e aplicações. Para ela, esse processo contribui para desenvolver autonomia, pensamento crítico, criatividade e persistência – competências fundamentais para a formação de um engenheiro.
Neste Dia do Professor, Sarah fala sobre o significado da profissão, a formação pela pesquisa, o acompanhamento dos estudantes e as experiências que espera que seus alunos levem consigo depois de deixar o ITA.
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O que significa ser professora no ITA e participar da formação de futuros engenheiros e pesquisadores?
Sarah Negreiros – Sou professora há 14 anos e exerço atividades de ensino, pesquisa, extensão e administrativas. É a profissão que sonhava quando era criança e me sinto realizada com ela.
Ser professora no ITA significa ter a oportunidade e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de contribuir para a formação de futuros engenheiros, pesquisadores e líderes, que estarão criando tecnologias, desenvolvendo pesquisas e tomando decisões que podem impactar a sociedade.
Em um ambiente como o ITA, com uma forte cultura de excelência e pesquisa, procuro estimular a curiosidade, o pensamento crítico e a capacidade de lidar com problemas para os quais ainda não existem respostas prontas. Nas disciplinas, busco aproximar o conhecimento teórico de problemas reais por meio de projetos.
Na pesquisa, costumo trabalhar em frentes interdisciplinares, na interface entre tecnologia, inteligência artificial, defesa e neuroengenharia.
Acredito também que a engenharia não acontece de forma isolada. Por isso, gosto de participar de projetos de extensão, como o Mulheres em STEM2D e o Ciência no Parque, que leva a ciência e a tecnologia para crianças e desperta nelas esse mesmo encantamento que sempre tive pela área.

Oficina do projeto de extensão Ciência do Parque – Vicentina Aranha (outubro/2026)
Em resumo, ser professora no ITA é, para mim, ensinar, aprender continuamente e contribuir para formar pessoas conscientes, capazes de usar o conhecimento e a tecnologia para fazer a diferença e gerar um impacto positivo na sociedade.
Muitos dos trabalhos que você orienta partem de problemas concretos e chegam a aplicações com potencial de impacto. Como estimular os alunos a transformar uma pergunta acadêmica em uma pesquisa que possa contribuir para a sociedade?
Sarah Negreiros – Sempre converso com os alunos para que escolham um tema pelo qual tenham genuíno interesse, pois esse interesse é o motor do engajamento e da dedicação que um problema difícil exige.
A partir do tema, definimos a pergunta de pesquisa e como investigá-la, buscando conhecer a área, as soluções existentes e suas limitações. Nesse processo, procuramos entender como o trabalho pode contribuir para avançar o conhecimento na área ou solucionar um problema concreto.
Uso essa abordagem tanto com os alunos da graduação, nos projetos das disciplinas, nas pesquisas de iniciação científica e nos trabalhos de graduação, quanto com os da pós-graduação. O princípio é o mesmo; o que muda é o tempo que o aluno tem disponível e a complexidade do trabalho que podemos desenvolver.
Esse método vem dando bons resultados. Vários projetos desenvolvidos durante as disciplinas, trabalhos de iniciação científica (IC) e trabalhos de graduação têm alcançado maturidade para divulgação científica, resultando em publicações em eventos.
No ano passado, também tivemos o registro de um software, fruto de um projeto de uma aluna da T25 de Engenharia Eletrônica, que fez IC e trabalho de graduação comigo e agora segue no mestrado. Esses resultados mostram como uma ideia pode amadurecer ao longo da formação e se transformar em uma contribuição concreta.

Aluno apresentando trabalho no Encita 2026
O que muda na formação de um aluno quando ele deixa de apenas aprender conhecimentos já consolidados e passa a investigar, formular hipóteses, testar soluções e lidar com uma pesquisa?
Sarah Negreiros – Acredito que lidar com problemas reais e sem respostas prontas muda a forma como o aluno pensa. Ele percebe que nem sempre existe uma resposta pronta ou um caminho certo e que soluções que funcionam na teoria nem sempre funcionam na prática, exigindo adaptações e novas abordagens.
Esse processo desenvolve não apenas conhecimento técnico, mas também autonomia, pensamento crítico, criatividade e persistência.
É muito gratificante acompanhar esse amadurecimento e perceber quando o aluno deixa de simplesmente executar uma tarefa e passa a se sentir capaz de propor suas próprias ideias. Para mim, esse é um dos maiores valores da pesquisa científica na formação de um engenheiro.
Qual é a importância de criar, ainda na graduação, espaços para que os estudantes apresentem suas pesquisas, troquem experiências e tenham contato com a comunidade científica?
Sarah Negreiros – Estou à frente do Programa de Iniciação Científica (PAIC) do ITA desde 2024. Fui coordenadora-geral do ENCITA em 2025 e 2026 e também participei da organização do evento em 2024.

Dia de aula ELE T25
Organizar o ENCITA é uma grande responsabilidade que o PAIC e a Pró-Reitoria de Pesquisa assumem com muito empenho. O evento é um espaço de integração e divulgação científica dos estudantes de graduação, que permite conhecer o que está sendo desenvolvido nos laboratórios do ITA e mostrar aos alunos que a engenharia vai muito além do que é visto em sala de aula, envolvendo problemas reais e questões que podem gerar contribuições para a sociedade.
A participação no ENCITA é obrigatória para os alunos que realizam IC no ITA. A pesquisa não termina com a obtenção dos resultados: é fundamental comunicar o conhecimento produzido para que ele possa ser compartilhado, discutido e contribuir para novos avanços.

Encita 2025 – com Alfred Volkmer (T61)e a vice-reitora do ITA Emília Villani
Para participar, os alunos precisam escrever um artigo, preparar um pôster, apresentar o trabalho e responder às perguntas do público e dos avaliadores. Esse processo exige que compreendam bem o tema pesquisado e desenvolvam a capacidade de comunicar suas descobertas e ideias, tanto por escrito quanto oralmente.
Além disso, conhecer as pesquisas dos colegas permite trocar experiências e perceber a diversidade de problemas investigados.
Em 2026, tivemos 115 trabalhos de iniciação científica apresentados e a participação de mais de 150 alunos da pós-graduação, que colaboraram na organização, revisão dos artigos e avaliação dos pôsteres. Essa interação entre graduação e pós-graduação também fortalece a cultura de pesquisa no ITA e aproxima os alunos da comunidade científica.
Na orientação, existe uma dimensão que vai além do conteúdo técnico: acompanhar o desenvolvimento do aluno, ajudá-lo a lidar com dificuldades e, muitas vezes, descobrir novos caminhos. O que é mais gratificante nesse processo?
Sarah Negreiros – Na pesquisa, nem sempre os resultados são aqueles que esperamos. Muitas vezes, uma solução não funciona ou os resultados contrariam nossas hipóteses iniciais. É natural que, num primeiro momento, isso seja frustrante.
Mas refletir sobre o aparente erro permite enxergar o problema sob novas perspectivas e pode revelar uma limitação na nossa compreensão inicial.
Acho especialmente gratificante ver como esse processo transforma o aluno. À medida que ele se aprofunda no objeto de estudo, vai adquirindo não apenas conhecimento, mas também confiança. Ele passa a lidar com os obstáculos de outra maneira, com mais autonomia e menos receio de não ter a resposta esperada.

Recebendo as alunas aconselhadas da T29
Talvez seja esse o momento que melhor sintetize o papel de um professor: quando conseguimos ajudar o aluno a perceber que um resultado inesperado não significa necessariamente que ele falhou, mas que existe algo ali que ainda precisa ser compreendido. E, a partir dessa compreensão, ele consegue enxergar novos caminhos por conta própria.
Neste Dia do Professor, que mensagem deixaria para os alunos que estão começando a se aproximar da pesquisa?
Sarah Negreiros – Uma pesquisa não precisa começar com uma grande ideia ou com a certeza de que vai gerar uma descoberta extraordinária. Muitas vezes, começa com uma dúvida, algo que desperta nosso interesse ou um problema que gostaríamos de compreender melhor.
É importante entender que pesquisar envolve estudo, dificuldades e mudanças de planos. Nem sempre a primeira ideia funciona, e isso faz parte do processo. O importante é ter disposição para aprender, investigar e persistir.
Por isso, minha mensagem é: procurem temas que realmente os motivem, conversem com professores e colegas, visitem laboratórios e participem de eventos científicos, como o ENCITA.
A iniciação científica é justamente uma oportunidade de aprender o método científico para resolver um problema ou aprender mais sobre um assunto pelo qual se tem interesse.
Depois de acompanhar estudantes ao longo de diferentes etapas da formação, o que espera que eles levem consigo ao concluir a graduação?
Sarah Negreiros – Leciono uma disciplina no último semestre da graduação em Engenharia Eletrônica e é uma satisfação participar desse momento tão importante na vida dos alunos. Eles estão concluindo uma etapa, realizando um sonho e se preparando para assumir o papel de engenheiros, diante de um mundo de oportunidades, mas também de novas responsabilidades. É um período de alegria, expectativas e, naturalmente, muitas inseguranças.
É muito gratificante acompanhar esse amadurecimento ao longo da graduação. No último semestre, consigo olhar para aqueles jovens que recebemos no programa de aconselhamento no primeiro ano, ainda inseguros, muitas vezes deixando a casa dos pais pela primeira vez, e perceber o quanto cresceram para encarar os desafios do mercado de trabalho e da vida.
Acredito que cada aluno tem professores que marcaram sua trajetória, seja pelo exemplo, pelo conhecimento, pela personalidade, pelo pensamento crítico, pelo cuidado com os alunos ou pelo carisma.
A formação não acontece apenas nas disciplinas, mas também nas conversas, nas dificuldades superadas e nas experiências compartilhadas com colegas e professores. Espero que meus alunos levem boas lembranças dessa etapa e que encontrem inspiração nos professores que fizeram parte de sua formação.
Procuro transmitir aos alunos a confiança de que são capazes de enfrentar desafios, aprender coisas novas e encontrar seus próprios caminhos. Espero que reconheçam seu potencial para contribuir positivamente para a sociedade, usando o conhecimento e a experiência que construíram ao longo da graduação.
Que sentimento tem em relação à profissão e à importância da celebração do Dia do Professor?
Sarah Negreiros – Ser professora é a profissão que sonhava ter desde criança e me sinto muito realizada com ela.
O Dia do Professor é uma oportunidade de refletir sobre a importância da educação e de reconhecer o trabalho de quem se dedica a ela. Para mim, também é um momento de gratidão: pelos professores que fizeram parte da minha formação e pelos alunos, com quem aprendo todos os dias.
Qual é a importância da ITAEx para os alunos que você leciona e orienta?
Sarah Negreiros – A ITAEx é uma parceira fundamental na formação dos meus alunos, e transforma boas iniciativas em oportunidades concretas.
Em primeiro lugar, a ITAEx colabora de forma rotineira com o ENCITA, que não teria a dimensão que tem hoje sem esse suporte. A Associação também apoia a iniciação científica por meio de bolsas concedidas em parceria com empresas, o que mostra aos alunos a importância da pesquisa para além da área acadêmica.
Dá suporte, ainda, a iniciativas estudantis, em particular a ITARobio, da qual sou supervisora. Com esse apoio, os alunos compram materiais e participam de projetos e competições. A ITAEx também viabiliza mentorias, essenciais para o desenvolvimento e o amadurecimento deles.
Recentemente, os alunos da ITARobio receberam duas premiações em um desafio do Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (CBEB), do qual participaram com recursos da ITAEx.
Além disso, a Associação permite que trabalhos de excelência, desenvolvidos em projetos das minhas disciplinas ou durante a iniciação científica, saiam da sala de aula e do laboratório e cheguem à comunidade científica.
Em 2025, a ITAEx proporcionou a viagem de dois alunos de graduação para apresentarem um artigo, fruto do trabalho de graduação, em um evento internacional promovido pelo Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE) no Rio de Janeiro. Este ano, obtivemos apoio novamente para dois alunos apresentarem um artigo desenvolvido como projeto final de disciplina no CBEB.

Alunos da T25 (COMP e ELE) recebendo o prêmio de melhor apresentação da sessão no 12th International Conference on Soft Computing & Machine Intelligence (ISCMI 2025/IEEE). Com recursos da ITAEx, apresentaram um trabalho desenvolvido durante TG e disciplina da graduação
Para esses estudantes, é uma experiência que marca a vida acadêmica e os motiva. Esses exemplos também servem de motivação e inspiração para os alunos que recebo nas próximas turmas.
