Pai e filha viveram o ITA em momentos muito diferentes. Ele fez parte da primeira turma que recebeu mulheres no Instituto; ela chega quase três décadas depois, ocupando espaços de liderança e ajudando a construir a experiência de uma nova geração de iteanos.
Quando Norberto Maraschin Filho entrou no ITA, em 1996, o Instituto vivia um momento histórico: pela primeira vez, mulheres passavam a fazer parte de seu corpo discente. Integrante da T00, ele acompanhou de perto a chegada das pioneiras e as transformações que aquele novo cenário provocaria na vida do H8.
Vinte e nove anos depois, é sua filha, Isabella Poroniczak Maraschin, da T29, quem vive a experiência de ser iteana.
Aos 19 anos, Isabella ainda está escolhendo sua engenharia. Pretende seguir Computação, mas já encontrou diferentes formas de participar da comunidade.
Entre Norberto e Isabella, o ITA tornou-se um assunto cotidiano. As conversas misturam memórias da T00, desafios atuais da T29, histórias do H8, mudanças na formação e tradições que atravessaram gerações.
Mas existe uma dimensão ainda mais especial nessa conexão: Norberto viu o início de uma transformação na presença feminina no Instituto. Isabella vive, hoje, uma etapa em que as mulheres não apenas ocupam esse espaço, mas também ajudam a liderá-lo e transformá-lo.
Antes do ITA, uma história de superação
A chegada de Norberto ao Instituto foi, por si só, uma conquista extraordinária.
Nascido em Pato Branco, no interior do Paraná, ele estudou em escola pública durante boa parte da vida e não fez um cursinho especializado para o vestibular. Vindo de uma família de poucos recursos, ingressar no ITA representou uma mudança profunda em sua trajetória.
A realidade financeira também marcou seus anos como aluno. Para se manter e ajudar a família, Norberto chegou a dar cerca de 20 horas semanais de aulas em cursinhos e colégios de Ensino Médio.
Foi nesse contexto que viveu a T00, justamente a turma que se tornaria um marco na história do Instituto pela chegada das primeiras mulheres.
“Viver a T00 teve ainda um sabor especial por ter sido o marco zero da presença feminina no Instituto.”
A novidade trazia expectativas sobre como a dinâmica do H8 se transformaria. Para Norberto, porém, a presença das pioneiras rapidamente passou a fazer parte da própria identidade daquela geração.
Mais tarde, essa história seria contada em casa. E, para Isabella, algumas dessas lembranças ajudaram a construir uma imagem do Instituto muito antes de ela decidir prestar o vestibular.

Uma história que começou antes do vestibular
Isabella cresceu ouvindo o pai falar sobre o ITA, suas amizades e os anos que viveu no Instituto. Aos oito anos, chegou a dizer à mãe que queria cursar o ITA. Mas, ao longo da adolescência, a ideia esteve longe de ser linear.
Medicina, Direito, Economia e outras possibilidades passaram por seus planos. A decisão amadureceu somente no Ensino Médio, quando percebeu que sua afinidade com exatas se combinava com o ambiente de desenvolvimento que encontrava no Instituto.
A influência do pai existiu, mas não como uma imposição.
“Existiu como porta de entrada, mas a decisão final foi inteiramente construída por mim.”
Depois de conversas mais profundas sobre a experiência iteana, Isabella passou a enxergar no ITA uma combinação que procurava: excelência, independência e convivência com pessoas capazes de desafiá-la a evoluir continuamente.
Entre as histórias do pai, uma ficou especialmente marcada.
Na T00, telefonar para a família e para a então namorada, hoje mãe de Isabella, não era simples. Os orelhões do antigo CTA tinham filas enormes e nem todos os aparelhos ficavam próximos ao H8. A solução encontrada pela turma foi prática e coletiva: os alunos passaram o cabeamento de telefone por todo o alojamento para facilitar a comunicação com quem estava do lado de fora.
Para Isabella, essa lembrança traduz algo que continua presente décadas depois.
A capacidade de transformar uma dificuldade em solução por meio da união.
Duas gerações, um mesmo H8
Ao chegar ao ITA, Isabella descobriu que muitas coisas haviam mudado, enquanto outras pareciam surpreendentemente familiares.
A T00 e a T29 vivem realidades tecnológicas, acadêmicas e sociais muito diferentes. O ecossistema de oportunidades cresceu, as iniciativas estudantis se multiplicaram e o contato com empreendedorismo, tecnologia e mercado acontece cada vez mais cedo.
Ao mesmo tempo, a intensidade da vida no H8 permanece.
“O ITA é um assunto constante e muito natural nas nossas conversas.”
Pai e filha costumam comparar as experiências e perceber como acontecimentos de uma geração deram origem a costumes que a outra vive hoje.
Para Isabella, a principal mudança está justamente na ampliação das possibilidades para além da sala de aula. As iniciativas estudantis, a diversidade de perfis e a facilidade para explorar empreendedorismo e outras áreas criaram um ambiente mais estruturado para o desenvolvimento pessoal e profissional.
Norberto também percebe essa transformação.
Na época dele, sua rotina era fortemente dividida entre estudar e trabalhar. Hoje, vê a filha tendo a oportunidade de experimentar diferentes áreas ainda durante a graduação. E percebe uma evolução fantástica na formação atual com as iniciativas estudantis.
“Eles já saem do ITA sabendo negociar, gerir pessoas, falar em público e liderar projetos reais. Na minha época, aprendíamos muito disso ‘na raça’, no mercado; a geração da Isabella já desenvolve essas soft skills dentro do H8. Eu fico muito feliz de a Isabella ter a vontade e oportunidade de aproveitar essas iniciativas para errar sem grandes custos, testar liderança na prática e construir uma rede de contatos que vai acompanhá-la pelo resto da vida.”
A diferença de contexto, porém, não impede que pai e filha reconheçam uma mesma essência: o rigor acadêmico, a resiliência, a convivência no H8, a Disciplina Consciente e a capacidade de resolver problemas complexos continuam fazendo parte da experiência.

Da primeira presença feminina ao protagonismo
É nesse ponto que a história dos dois ganha uma dimensão particularmente simbólica.
Norberto fez parte da primeira turma do ITA a receber mulheres. Isabella pertence a uma geração em que a presença feminina já está incorporada ao cotidiano do Instituto, e em que as meninas ocupam espaços de liderança dentro da comunidade.
Para ela, essa mudança representa reconhecimento, coragem e continuidade.
A T29 ainda está distante de uma representatividade feminina ideal em termos numéricos, mas Isabella observa uma participação cada vez mais ativa das alunas na construção da vida iteana.
Ela própria é um exemplo disso.
“Se na T00 a chegada das mulheres representou um marco de pioneirismo e coragem diante do inédito, na T29 nossa presença é ativa, estratégica e protagonista.”
Segundo Isabella, todas as meninas de sua turma ocupam posições de liderança em iniciativas estudantis, participando de decisões e projetos que ultrapassam os limites da sala de aula.
A transformação, para ela, não está apenas nos números. Está na possibilidade de ter voz, influenciar decisões e mostrar a potência técnica e de liderança das mulheres que passam pelo Instituto.
Norberto acompanha essa evolução com orgulho.
“Representa evolução e justiça. Ver que na T00 abrimos as portas e que hoje a Isabella ocupa esse espaço de forma tão natural e protagonista me dá a certeza de que o ITA se tornou um lugar ainda melhor e mais completo.”
A passagem de uma geração para outra, nesse caso, não significa apenas continuidade, mas também transformação.

O ITA que acontece fora da sala de aula
A vida estudantil de Isabella é uma das principais diferenças que ela e o pai percebem entre as duas gerações.
No ano passado, passou pela área de Marketing e Eventos da Comissão de Estágios e Empregos (CEE-ITA), na Gestão de Esportes da Associação Atlética Acadêmica do ITA (AAAITA) e, pela área de Soluções de Tecnologia da ITA Júnior, onde, atualmente, é diretora de Gestão e diretora de Marketing Interno, além de integrar outras frentes da vida estudantil.
Cada experiência acrescentou uma camada diferente à sua formação.
“As iniciativas entregam o que nenhuma prova consegue medir: inteligência emocional, visão sistêmica e capacidade de execução sob pressão.”
Na prática, Isabella aprendeu a lidar com crises, alinhar expectativas, gerenciar processos, trabalhar com pessoas e assumir responsabilidade por resultados reais.
Na ITA Júnior, descobriu também que liderança não significa concentrar decisões e, sim, compreender as características de cada integrante, saber alocar cada pessoa no desafio adequado e criar condições para que o time tenha autonomia.
A responsabilidade é grande: as decisões tomadas por uma liderança estudantil interferem diretamente em uma parcela significativa da experiência dos colegas dentro do ITA.
Esse processo a fez amadurecer como profissional, mas também como pessoa. E trouxe algo que considera ainda mais valioso: a construção de amizades que ultrapassam a relação profissional.

Tecnologia, pessoas e um futuro ainda aberto
A experiência nas iniciativas também ajuda a explicar por que Isabella se interessa por uma combinação entre tecnologia, gestão, comunicação e negócios. O ponto de encontro entre essas áreas é, para ela, justamente onde está o futuro profissional.
A tecnologia cria soluções. A gestão e a comunicação ajudam a transformar essas soluções em impacto.
E, em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial, Isabella acredita que o domínio técnico continuará importante, mas não será suficiente.
“Com a rápida evolução das IAs, o fator humano ganha ainda mais protagonismo.”
Empatia, visão crítica, liderança e capacidade de trabalhar com diferentes pessoas tendem a se tornar cada vez mais importantes. Ao mesmo tempo, compreender profundamente a tecnologia será essencial para utilizá-la com inteligência e propósito.
É também nesse contexto que Isabella se aproxima da Engenharia de Computação.
Desde pequena, sua curiosidade por tecnologia começou diante do computador, inicialmente pelos jogos e, depois, pelo desejo de entender o que acontecia por trás da tela.
Hoje, vê na Computação a possibilidade de unir tecnologia de ponta, inteligência artificial, sistemas complexos, inovação e visão estratégica. Ainda considera outras possibilidades, como Aeronáutica e Aeroespacial, mas a Computação aparece como seu caminho preferencial para a próxima etapa.

O teto de uma geração, o ponto de partida da outra
A carreira de Norberto ajuda a ampliar ainda mais essa perspectiva.
Formado em Engenharia Aeronáutica em 2000, ele construiu uma trajetória profissional que ultrapassou os limites da engenharia tradicional. Há 12 anos, atua como vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia, em Curitiba, transitando por tecnologia, negócios, gestão e estratégia.
Para ele, a formação do ITA não determina uma carreira. Ela oferece uma base para que diferentes caminhos possam ser construídos.
“O ITA não te ensina apenas fórmulas; ele molda sua estrutura cognitiva.”
A capacidade de decompor problemas complexos, trabalhar com incerteza, aprender rapidamente e conectar diferentes áreas foi, segundo Norberto, fundamental para sua transição da engenharia para gestão, estratégia, negócios e tecnologia.
Isabella reconhece essa influência.
Ela admira no pai justamente a coragem de não se limitar ao caminho óbvio e de usar a formação do ITA como uma base para construir uma trajetória própria.
Sua história também é, para ela, um exemplo de resiliência: alguém que saiu de uma cidade pequena, de uma família com poucos recursos, conquistou uma vaga no Instituto e precisou continuar lutando para permanecer ali.
Mas existe uma diferença importante entre admiração e repetição.
Isabella não pretende simplesmente reproduzir a trajetória do pai.
“A história dele é inspiradora (…) e me serve de bússola diária. Contudo, não acredito que vá seguir todos os seus passos necessariamente.”
A referência está presente, mas o caminho será dela.
Norberto resume essa perspectiva de maneira contundente:
“O teto sobre minha cabeça é o piso para ela.”
Um legado que não é uma cobrança
Se existe uma expectativa na família, ela não está relacionada a reproduzir conquistas.
Isabella afirma que sempre teve liberdade para escolher seu próprio caminho. A régua pela qual se mede é a sua própria.
A trajetória do pai em tecnologia e negócios não representa uma sombra a ser superada, mas um exemplo de dedicação, ética e independência.
Para Norberto, essa autonomia é justamente uma das maiores fontes de orgulho.
Ele vê a filha construindo sua própria reputação dentro do Instituto, com personalidade, liderança e mérito.
E, ao olhar para as duas gerações, identifica valores que gostaria de ver preservados: integridade, Disciplina Consciente e espírito de corpo.
Para Isabella, esses princípios também são inegociáveis:
“O ITA nos ensina, logo nos primeiros dias, que ninguém se forma e nem cresce sozinho.”
A confiança no outro, a disposição para ajudar e a capacidade de construir soluções coletivas ganham sentido quando acompanhadas pela responsabilidade individual.
É essa combinação que, para ela, deveria atravessar gerações: excelência sem perder a dimensão humana.
“O segredo é entender que a formação no ITA é uma ferramenta de libertação, não um trilho engessado. O meu orgulho vem de vê-la superando os desafios do Instituto; a liberdade vem de incentivá-la a usar esse diploma para ir exatamente para onde o coração e a ambição dela apontarem, seja na engenharia pura, no mercado corporativo ou no empreendedorismo”, complementa o pai.
Quando a história se encontra novamente
Compartilhar o ITA como pai e filha criou uma conexão que vai além das lembranças ou das comparações entre T00 e T29.
Norberto pode contar a Isabella como era o H8 em uma época em que a comunicação dependia de orelhões, quando a turma precisava criar suas próprias soluções e quando a presença feminina no Instituto ainda era uma novidade histórica.
Isabella, por sua vez, apresenta ao pai um ITA de iniciativas estudantis estruturadas, inteligência artificial, novas formas de integração e uma presença feminina cada vez mais ativa em posições de liderança.
Ela gostaria que ele pudesse experimentar esse ambiente.
Especialmente as iniciativas estudantis, que considera verdadeiras escolas práticas de liderança, inovação e conexão com o mercado.
Para Norberto, acompanhar essa experiência é uma das maiores alegrias que poderia viver.
“Compartilhar isso é um dos maiores privilégios da minha vida.”
Ele já voltou ao H8 com a filha, mostrou o antigo quarto e contou histórias das madrugadas de estudo da T00.
Entre lembranças e novidades, percebe que muita coisa mudou, mas que existe algo essencial que permaneceu.
A capacidade de transformar desafios em aprendizado. A força da convivência. A ética. A confiança entre colegas.
E, agora, uma nova geração de mulheres ocupando plenamente um espaço que um dia foi aberto pelas pioneiras da T00.
A história de Norberto e Isabella não termina em uma geração. Ela continua sendo escrita.
E pode ganhar ainda outro capítulo: Milena, irmã mais nova de Isabella, já está a caminho do ITA.
Norberto alimenta um desejo especial: tornar-se o primeiro pai iteano a ter duas filhas no Instituto.
Se esse sonho se realizar, o círculo iniciado na T00 ganhará uma nova dimensão, e aquilo que um dia foi pioneirismo poderá se tornar, para a família Maraschin, uma tradição construída por três gerações de mulheres e homens ligados ao ITA.
No fundo, é essa a força de um legado: não repetir a história, mas receber o que uma geração construiu e ter liberdade para levá-la ainda mais longe.




