Projetar, fabricar, testar, certificar e lançar um foguete. No ITA Rocket Design, estudantes do Instituto Tecnológico de Aeronáutica vivenciam, na prática, todas as etapas de desenvolvimento de um sistema aeroespacial, transformando conhecimentos adquiridos em sala de aula em decisões de engenharia, aprendizados e soluções que evoluem a cada geração da equipe.
A experiência começa cedo. A primeira missão dos novos integrantes é construir, com a orientação de um veterano, um mini foguete que é lançado ainda no primeiro bimestre de aulas. Em escala reduzida, os alunos entram em contato desde os primeiros meses com desafios que acompanham um projeto real: concepção, construção, integração, testes e operação.
É o primeiro contato com uma característica que define a experiência no ITA Rocket Design: a engenharia precisa funcionar fora do papel.
Da teoria à prática
A sala de aula no ITA fornece o embasamento teórico necessário para compreender fenômenos e projetar sistemas. Na equipe, porém, os estudantes descobrem o que acontece quando esses conhecimentos precisam se transformar em um componente fabricado, testado e integrado a um foguete.
“Conseguimos desenvolver uma noção muito mais prática, no sentido de saber o que vai funcionar e o que não vai funcionar, graças à experiência com manufatura que adquirimos ao longo dos projetos na equipe”, explica Antônio Vinicios Rodrigues de Souza (T28), presidente do ITA Rocket Design.
Esse aprendizado se estende por todo o processo de desenvolvimento. Cada sistema passa por sucessivas iterações, testes de bancada e validações antes de chegar ao voo.
Atualmente, a equipe trabalha em três projetos. O RDS1 e o RDS3 são foguetes de propulsão sólida, com apogeus previstos de 1 km e 3 km, respectivamente, desenvolvidos para a participação na Latin American Space Challenge (LASC). Já o RDL representa um salto de complexidade: é o projeto de um foguete com propulsão líquida.
Enquanto o RDS1 e o RDS3 têm como principal desafio alcançar confiabilidade e consistência, com apogeus precisos e processos de manufatura bem dominados, o RDL envolve desafios como o desenvolvimento do sistema de propulsão, o manejo de fluidos em altas pressões e o controle e monitoramento eletrônico do motor.
Testar, errar e testar novamente
Antes que um foguete esteja pronto para voar, cada subsistema precisa passar por uma extensa sequência de testes.
No sistema de recuperação, por exemplo, os alunos verificam em bancada e em testes de solo os mecanismos de separação de estágios, abertura do paraquedas e corte da reefing line. Depois, o veículo completo passa por testes de integração para verificar se os diferentes subsistemas funcionam de forma coordenada.
Quando um resultado não sai como esperado, o processo recomeça.

Luiz Eduardo Stolf Nogueira (T29), diretor do RDS3, explica que a equipe analisa as variáveis envolvidas, procura distinguir erros sistemáticos de teste de possíveis falhas de projeto, realiza ajustes e testa novamente: “O ciclo se repete até que o sistema alcance o nível de confiabilidade necessário. É aí que entra a engenharia de verdade!”
Essa cultura de testes também é construída a partir dos erros das gerações anteriores. Em 2023, por exemplo, os estudantes identificaram uma falha na rosca utilizada para prender a tubeira ao motor. O problema levou à adoção de um novo sistema, baseado em parafusos e anéis de vedação, utilizado pela equipe até hoje.
Assim, cada foguete carrega não apenas novas soluções, mas também o conhecimento acumulado por aqueles que vieram antes.
A competição como laboratório
Outra parte importante dessa formação é a competição. Na LASC, os estudantes, além de apresentar um projeto, precisam colocar o foguete em operação em um ambiente que envolve carregamento do motor, integração do veículo, preparação para o lançamento, integração ao trilho e ignição.
É uma experiência difícil de reproduzir dentro do próprio ITA.
A participação na LASC 2025 marcou a estreia da equipe na categoria de apogeu de 1 km. O RDS1 conquistou o segundo lugar, com um foguete desenvolvido pelos novos integrantes e cujo projeto também tinha como objetivo a capacitação técnica da equipe.
O resultado, porém, trouxe um aprendizado que ultrapassou o desempenho do veículo.
Giovanna Zanardi Tavares Andrade Oliveira (T29), diretora do RDS1 e de Marketing, conta que a equipe recebeu penalizações por critérios que não estavam diretamente relacionados ao voo, como as campanhas de marketing realizadas ao longo do projeto. E diz que “a experiência mostrou que uma competição de engenharia exige atenção não apenas ao funcionamento do sistema, mas a todas as dimensões que compõem sua avaliação”.
O aprendizado já foi incorporado ao projeto atual: buscar uma performance completa, considerando todas as possibilidades de pontuação.
Formação que vai além da sala de aula
No ITA Rocket Design, os alunos desenvolvem conhecimentos em projeto, cálculo, manufatura, testes e certificação de componentes. Mas a formação não termina na parte técnica.
Os estudantes assumem responsabilidades crescentes dentro da equipe. Desde o primeiro ano, podem ocupar posições de liderança em subsistemas. Com a evolução, passam a atuar na direção de engenharia e também em áreas como finanças, marketing, gestão e presidência.
Nesse processo, desenvolvem competências relacionadas à gestão de pessoas, gerenciamento de projetos, resolução de conflitos e tomada de decisão.
O diretor de Gestão da ITA Rocket Design, Fabiano Ribeiro da Silva (T26) destaca que os integrantes da equipe também aprendem a conciliar as demandas de um curso de engenharia de alta intensidade com as responsabilidades de um projeto que exige continuidade e comprometimento.
Além das habilidades técnicas de cálculo, projeto e manufatura, o aluno também aprende a lidar com os desafios de trabalhar em equipe, a conciliar as responsabilidades acadêmicas com o compromisso exigido pelo projeto e, principalmente, a ter resiliência para enfrentar todos os percalços que surgem ao longo do ciclo de desenvolvimento de um foguete.
Conhecimento que permanece
Uma equipe estudantil enfrenta um desafio particular: seus integrantes se formam e deixam o projeto. Para evitar que o conhecimento desapareça junto com cada geração, o ITA Rocket Design trabalha com uma progressão de responsabilidades e capacitação.
“Os novos integrantes começam com projetos de menor complexidade e, gradualmente, passam a assumir desafios maiores. Paralelamente, testes, decisões de projeto e aprendizados são documentados para que possam ser consultados pelas próximas gerações”, explica o vice-presidente, João Víctor Albanese Reichert (T29).
A estratégia permite que o conhecimento avance mesmo quando as pessoas mudam. É também o que transforma a equipe em um ambiente contínuo de aprendizado: um estudante entra para construir um pequeno foguete e, ao longo dos anos, pode chegar à liderança de um projeto complexo.
Do projeto acadêmico ao setor espacial
A experiência também aproxima os estudantes da indústria. O ITA Rocket Design mantém contato com empresas do setor aeroespacial, tanto no fornecimento de materiais quanto no compartilhamento de técnicas e conhecimentos de manufatura.
“Para a equipe, essa conexão ajuda a mostrar que os desafios encontrados pelos estudantes são, em muitos casos, problemas reais da indústria espacial”, destaca o diretor de Engenharia, Leandro Martins do Prado Filho (T26).
Essa percepção também aparece nas trajetórias de ex-integrantes que seguiram pelo empreendedorismo no setor.
Observar esses profissionais mostra aos estudantes que o conhecimento desenvolvido dentro da equipe pode ultrapassar os limites da competição e se transformar em produtos, empresas e soluções para o mercado.
O caminho entre o projeto acadêmico e o empreendimento, portanto, pode ser mais curto do que parece.
Um novo desafio no horizonte
O próximo grande passo está no RDL, projeto de propulsão líquida que representa um novo patamar de complexidade para a equipe.
As novas etapas incluem os testes estáticos do motor, a conclusão da base de lançamento móvel e, posteriormente, o primeiro voo do foguete de propulsão líquida.
A meta declarada pela equipe é ambiciosa: tornar o ITA Rocket Design a primeira equipe universitária da América Latina, e possivelmente de todo o Hemisfério Sul, a lançar um foguete com esse tipo de propulsão.
Mais do que alcançar um novo recorde, o desafio representa a própria essência da iniciativa: assumir problemas cada vez mais complexos e criar, geração após geração, as condições para resolvê-los.
O apoio que transforma projeto em engenharia
Para os integrantes do ITA Rocket Design, o apoio da ITAEx está presente em praticamente todo o processo de desenvolvimento da equipe, desde a aquisição de materiais até a participação em competições.
“O suporte da ITAEx nos permite acessar materiais, ferramentas e processos de manufatura com o nível de qualidade e confiabilidade que um projeto de engenharia de verdade exige, e não apenas o que seria viável com recursos puramente acadêmicos”, explica João Eduardo Leniar (T28), diretor Financeiro.
Com esse suporte, a iniciativa consegue avançar para um projeto experimental, com testes, documentação, certificação e validação.
Essa conexão é especialmente importante porque o ITA Rocket Design atua em todas as fases de um projeto aeroespacial: concepção, projeto, manufatura, testes, integração e lançamento. E isso exige recursos e infraestrutura para que o aprendizado saia da teoria e seja colocado à prova.
Um ecossistema que conecta
formação, indústria e legado
A trajetória da ITA Rocket Design não acontece de forma isolada. A iniciativa conta com o apoio de instituições e empresas que ajudam a transformar os projetos dos alunos em experiências concretas de engenharia, como a Força Aérea Brasileira (FAB), a CENIC, a BIZU Space e a Mac Jee.
A presença da FAB tem um significado particular. O ITA é parte integrante do Comando da Aeronáutica e foi criado a partir da visão do Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, que idealizou uma instituição voltada à formação de engenheiros para o desenvolvimento tecnológico e aeroespacial brasileiro. O apoio da FAB, portanto, aproxima a iniciativa estudantil do próprio ambiente que deu origem ao ITA e do setor aeroespacial nacional.
No caso das empresas, a conexão também ultrapassa o fornecimento de recursos e materiais. A CENIC, por exemplo, apoia o ITA Rocket Design e oferece oportunidades de estágio aos estudantes, criando uma ponte entre a formação acadêmica e os projetos desenvolvidos pela indústria.
A Mac Jee também participa desse ecossistema, contando entre seus profissionais com ex-alunos do ITA e antigos integrantes da iniciativa estudantil. A experiência adquirida na equipe acompanha esses profissionais em sua trajetória no setor e, posteriormente, pode retornar à própria comunidade estudantil por meio de apoio, conhecimento e conexões.

A experiência também aproxima os estudantes dos desafios e das práticas do setor aeroespacial. Essa percepção também aparece nas trajetórias de ex-integrantes que seguiram pelo empreendedorismo no setor.
Esse movimento cria um ciclo entre gerações: alunos que passam pela equipe levam essa experiência para o mercado e, posteriormente, podem retornar à comunidade estudantil por meio de apoio, conhecimento e novas oportunidades.
“Observar os veteranos que seguiram o caminho do empreendedorismo nessa área nos mostra, diariamente, que é possível transformar o conhecimento técnico e a experiência adquirida na equipe em negócios concretos e viáveis.” – finaliza o presidente do ITA Rocket Design.

Cada foguete é resultado de cálculos, fabricação, testes, erros, documentação e trabalho coletivo. Mas também é parte de um processo maior: formar engenheiros capazes de transformar conhecimento em tecnologia que funciona.
Liderança ITA Rocket Design
🚀 Antônio Vinicios Rodrigues de Souza (T28) | presidente
🚀 João Víctor Albanese Reichert (T29) | vice-presidente
🚀 Leandro Martins do Prado Filho (T26) | diretor de Engenharia
🚀 Luiz Eduardo Stolf Nogueira (T29) | diretor do RDS3
🚀 Giovanna Zanardi Tavares Andrade Oliveira (T29) | diretora do RDS1 e de Marketing
🚀 João Eduardo Leniar (T28) | diretor Financeiro
🚀 Fabiano Ribeiro da Silva (T26) | diretor de Gestão

Empresas, ex-alunos e profissionais interessados em apoiar o desenvolvimento do ITA Rocket Design podem contribuir com recursos, conhecimento, conexões, materiais e oportunidades para os alunos. Cada parceria fortalece a formação prática dos estudantes e aproxima o ITA do ecossistema aeroespacial, transformando projetos acadêmicos em experiências reais de engenharia.
