Felipe Eudes Pontes Fernandez (T90) conta como a mentoria transformou sua relação com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e reforçou seu compromisso em contribuir para a formação das novas gerações.
O voluntariado é uma das bases que sustentam a atuação da ITAEx. Por meio da dedicação de ex-alunos e profissionais que compartilham tempo, conhecimento e experiência, fortalecemos iniciativas estudantis e ampliamos as oportunidades de desenvolvimento dos estudantes do ITA.
Entre esses voluntários está Felipe Eudes Pontes Fernandez (T90). Com mais de 30 anos de atuação na indústria aeronáutica, ele retornou ao ITA em 2025 para atuar como mentor da equipe Montenegro da AeroDesignITA. Desde então, tem contribuído para aproximar a experiência da engenharia aplicada dos desafios enfrentados pelos alunos, estimulando não apenas soluções técnicas, mas também uma cultura baseada na Disciplina Consciente, na gestão de riscos, na integridade e no trabalho em equipe.
Em homenagem ao Dia Nacional do Voluntariado, compartilhamos, nesta entrevista, o significado de retribuir ao ITA parte do que recebemos ao longo da formação, e uma reflexão sobre o impacto da troca entre diferentes gerações de iteanos.
Acompanhe abaixo a entrevista com o iteano Felipe Eudes Pontes Fernandez (T90).
ITAEx – Depois de tantos anos de formado, como foi retornar ao ambiente do ITA na condição de mentor e voluntário? O que esse reencontro despertou em você? E há quanto tempo atua como voluntário?
Felipe – Retornar ao ITA tem sido uma experiência muito especial. Sou da T90, e pisar novamente naquele ambiente, agora sem a correria e a pressão das provas, mas com a bagagem de mais de 30 anos de indústria, traz um sentimento profundo de gratidão e pertencimento. É como fechar um ciclo.

“Comecei meu voluntariado em 2025, apoiando a equipe Montenegro, e tem sido uma jornada fantástica de reconexão com a engenharia aeronáutica ‘raiz’ que aprendi lá atrás”
ITAEx – Ao conviver com os alunos da equipe Montenegro de AeroDesignITA, você se reconhece neles em algum aspecto? Quais semelhanças e diferenças percebe entre a sua geração e a atual?
Felipe – Consigo reconhecer neles a mesma excelência da formação que tínhamos também na minha época, mas com uma diferença marcante. Sinto uma vontade enorme de estar no lugar deles, pois considero que hoje eles têm uma bagagem técnica várias ordens de grandeza maior do que a que eu tinha na minha época de aluno.
A semelhança mais forte é aquele “brilho no olho” e a vontade de resolver problemas complexos sob pressão, que é a marca registrada de um iteano.
A diferença principal, claro, está nas ferramentas e no acesso rápido a um volume imenso de informações em tempo real e a qualquer hora do dia. Digo isso, porque na minha época a biblioteca do ITA tinha restrições de horário para abrir, não havia internet, muito menos PC acessível para alunos. Não tínhamos o poder e a acessibilidade computacional de agora. Hoje há simuladores de ponta e softwares de CAD incríveis e acessíveis via internet.
O meu papel como mentor engloba tanto orientações práticas com base em uma experiência de anos na indústria, como também – ainda que em menor proporção – contribuições teóricas. Por vezes coloco perguntas e questionamentos que instigam os alunos a respeito das premissas assumidas na modelagem dos protótipos e aeromodelos.
ITAEx – A formação no ITA é reconhecida por excelência e também Disciplina Consciente (DC). Como esses valores marcaram sua trajetória e de que forma você procura reforçar esses conceitos com os alunos?
Felipe – A DC deixou de ser apenas um lema da faculdade e virou a espinha dorsal de toda a minha carreira. Trabalhando por décadas com Ensaios em Voo, Certificação e Gerenciamento de Risco (SMS), a integridade técnica e a disciplina não são apenas teorias; são requisitos que salvam vidas. Tento mostrar aos alunos que a excelência não é só desenhar uma asa que gere mais sustentação, mas ter a disciplina de documentar os processos, gerenciar os riscos e, principalmente, ter a honestidade intelectual de corrigir um erro antes que o avião vá para a pista. Olhar o projeto de forma integrada e buscar a melhor solução para o conjunto também é um desafio, pois muitas vezes há o risco de otimizar apenas uma parte do projeto em detrimento do desempenho global.
ITAEx – Além dos conhecimentos técnicos, quais atitudes ou valores considera importante compartilhar com os alunos durante a mentoria?
Felipe – O foco em gerenciamento de riscos e integridade do produto é essencial. No ambiente acadêmico, a vontade natural é fazer o projeto voar. Na indústria, o foco é fazer voar com segurança, repetibilidade e confiabilidade. Tento passar para eles muita resiliência diante das falhas. Em ensaios em voo, a gente aprende muito mais quando as coisas dão errado. Saber trabalhar em equipe de forma coesa, respeitar as normas de segurança e manter a calma na hora de resolver crises são atitudes que tento transmitir.
ITAEx – Existe algum momento em que você percebeu que sua experiência realmente fez diferença na formação de um estudante?
Felipe – Os melhores momentos acontecem quando o projeto sai do papel e vai para a montagem. Às vezes o aluno traz uma solução teórica perfeita, mas eu procuro mostrar, com a minha vivência em integração de sistemas e campanhas de ensaio, como aquilo vai se comportar lá fora, na operação real (no caso na competição). É aí que a gente vê a chave virando na cabeça deles. Ajudá-los a trocar a intuição por um método estruturado de análise de risco é onde sinto que o impacto é mais profundo.
ITAEx – O voluntariado exige dedicação de tempo e energia. O que faz esse investimento valer a pena, e o que representa para você, pessoal e profissionalmente?
Felipe – No lado pessoal, é uma forma de manter a minha própria chama acesa. Estar no meio de jovens tão brilhantes e motivados me dá uma energia nova. Profissionalmente, é sobre deixar um legado. O conhecimento na aviação é construído com muito suor (e às vezes lágrimas ao longo de décadas na indústria).
“O que faz valer a pena é saber que essa experiência não vai ficar restrita ao meu currículo, mas vai servir de alicerce para a próxima geração de grandes engenheiros do País. Gostaria de ter ainda mais tempo para poder me dedicar à mentoria da equipe. A experiência de ser mentor de alunos brilhantes e motivados é única.”
ITAEx – Que satisfação pessoal você encontra ao acompanhar o crescimento dos alunos e vê-los superar desafios? E, ainda, o que aprende com eles durante esse processo de troca de conhecimentos?
Felipe – A maior satisfação é ver a turma ganhando autonomia. No começo, eles têm muitas dúvidas; com o tempo, passam a defender suas decisões técnicas com base em dados e análises robustas. Dá muito orgulho. E a via é de mão dupla: aprendo demais com eles. A facilidade com que absorvem tecnologias novas e a forma como pensam soluções sem os “vícios” da indústria me desafiam constantemente a pensar fora da caixa.
ITAEx – Na sua visão, qual é o papel da Associação ao aproximar ex-alunos dos estudantes do ITA e criar essa ponte entre diferentes gerações?
Felipe – O ITA sempre teve uma rede forte de ex-alunos, mas a ITAEx organizou isso e transformou boa vontade em resultados práticos. A Associação funciona como um catalisador vital e cria uma ponte real: de um lado, os alunos ganham acesso a um nível de mentoria que o Instituto sozinho não conseguiria oferecer; do outro, nós, ex-alunos, encontramos um canal direto e estruturado para retribuir.
“Quero deixar aqui o reconhecimento a todos os iteanos fundadores da ITAEx. Na minha opinião, a melhor iniciativa para ajudar os alunos e professores do ITA que vi na prática até hoje!”
ITAEx – Por que o voluntariado é tão importante para fortalecer a comunidade do ITA?
Felipe – Porque é honrar uma oportunidade única que tive. O ITA me deu uma formação de elite, bolsa integral e abriu as portas para uma carreira fascinante. Devolver parte disso é, na minha visão, um dever moral.
“O voluntariado é o que mantém vivo o espírito iteano, que transforma ex-alunos em guardiões dos valores da nossa Alma Mater, garantindo que o nível de excelência não só se mantenha, mas evolua pela troca contínua entre as gerações”
ITAEx – Que mensagem deixaria para outros ex-alunos sobre a importância do voluntariado e do compartilhamento de conhecimento?
Felipe – Não guardem suas carreiras nas gavetas é o que recomendo. O que para nós, depois de 30 anos na indústria, parece o básico, para um aluno pode ser o conhecimento revolucionário que poupa meses de trabalho e evita um erro crítico. O tempo que a gente investe é pequeno perto do impacto gigantesco que gera na vida desses jovens. Venham para o voluntariado; vocês vão acabar aprendendo e recebendo muito mais do que doaram.
NOTA DA ITAEx
O trabalho de voluntários como Felipe Eudes Pontes Fernandez demonstra que o compromisso com o ITA não termina na formatura. Ao compartilhar experiências acumuladas ao longo de décadas de atuação profissional, esses ex-alunos ajudam a fortalecer iniciativas estudantis, inspiram novas gerações e mantêm vivo o espírito de colaboração que sempre caracterizou a comunidade iteana.
Agradece ao Felipe e a todos os voluntários da ITAEx que transformam experiência em oportunidade de aprendizado. Ao compartilhar conhecimento, tempo e dedicação, eles fortalecem a rede de ex-alunos, inspiram novas gerações e mantêm vivo o espírito de colaboração que faz parte da história do ITA.
