De um jogo de futebol virtual a uma equipe campeã: a história da criação da ITAndroids

Em 2005, o professor Jackson Paul Matsuura (T95) chegou ao ITA para iniciar sua carreira docente e, quase por acaso, encontrou uma competição de futebol de robôs que transformaria sua trajetória e a de muitos estudantes. Em poucas semanas, uma equipe de apenas quatro integrantes conquistou o título latino-americano de robótica. O que começou como um desafio acadêmico cresceu, ganhou o apoio da comunidade iteana, chegou aos mundiais da RoboCup e ajudou a impulsionar a robótica educacional no Brasil. Esta é a história da criação da ITAndroids.


🤖Do aluno “gerenciador de notas” ao professor do ITA

A história começa antes da ITAndroids. Começa com Jackson como aluno do ITA.
Primeiro colocado de Engenharia de Computação, em 1995, ele lembra de si mesmo como um “aluno gerenciador de notas”. Estudava quando considerava necessário e chegou a algumas provas finais com notas próximas do mínimo para aprovação. A estratégia mudou quando, já no primeiro ano do Profissional, precisou recorrer a algumas “provas chances”. O resultado foi uma mudança de comportamento e, ao final, o primeiro lugar da turma.
A escolha pelo ITA também esteve relacionada às condições financeiras de sua família. Vindo de uma escola pública do interior, Jackson buscou uma instituição militar que oferecesse alojamento e alimentação e, como ele próprio brinca, permitisse “receber para estudar”.
Depois da graduação, passou pelo Centro de Computação da Aeronáutica de São José dos Campos (CCA-SJ) e permaneceu sete anos na organização militar da Força Aérea Brasileira (FAB). Queria, porém, seguir estudando. Deixou a carreira militar para fazer mestrado e doutorado em tempo integral no próprio ITA.
Foi durante o doutorado que surgiu outra oportunidade: um concurso para professor. Aprovado em primeiro lugar para uma vaga no Departamento de Sistemas e Controle, ele retornou ao ITA em 2005.

Com os colegas da T95, em outubro de 2013

A volta tinha um significado especial.

“Poder fazer parte do ITA como professor, para mim, foi uma oportunidade de ‘devolver um pouco’ à instituição que tanto me deu.”


🤖Quando o futebol levou à robótica

A criação da ITAndroids, equipe de robótica do ITA, também nasceu de uma combinação de conhecimento prévio, oportunidade e acaso.
Durante a pós-graduação, entre 2003 e 2006, Jackson cursou uma disciplina de Inteligência Artificial em Controle e Automação com o professor Cairo Lúcio Nascimento Júnior. Como trabalho final, escolheu programar um agente inteligente capaz de jogar uma versão simplificada de futebol, fazendo o caminho até a bola e desviando dos adversários.

Na LARC 2005, em São Luís (MA), ITAndroids foi campeã brasileira e latino-americana na II RoboCup Brasil e da I RoboCup Open Latino-America na categoria RoboCup Soccer Simulation 2D

Um ano depois, já como professor do ITA, teve um artigo de seu doutorado aprovado para apresentação no Simpósio Brasileiro de Automação Inteligente (SBAI), em São Luís (MA). Ao consultar a programação do evento, encontrou uma chamada para a Competição Latino-Americana de Robótica, que incluía uma categoria de simulação de futebol de robôs.

Integrantes pioneiros da ITAndroids na LARC, em São Luís

A conexão foi imediata.Como o próprio Jackson resume, com bom humor: “Tico olhou pro Teco e Teco piscou de volta.”
A experiência que havia desenvolvido para a disciplina poderia ser aproveitada na competição.
Matsuura começou, então, a procurar alunos interessados. Esther Colombini, então mestranda, e os alunos Thomás Cavicchioli Dias (T07), da Engenharia Eletrônica, e Raphael Oliveira Xavier (T07), da Engenharia de Computação, aceitaram o desafio.
Estava criada, em agosto de 2005, a ITAndroids, equipe de competições de robótica do ITA. O nome, à época, era apresentado como o acrônimo de Intensive Trained Artificial Networked Digital Robotic Omnipresent Intelligent Dynamic Simulation.
O objetivo já estava definido desde o começo: competir para vencer.
Um documento apresentado por Jackson no VII Simpósio Brasileiro de Automação Inteligente (SBAI) | II LARS (Latin-American Robotics Symposium) em setembro de 2005, poucos meses depois da criação da equipe, registra a ITAndroids já como um time voltado às competições de robótica. O texto descrevia os primeiros integrantes, as tecnologias utilizadas e os planos para desenvolver uma equipe de futebol simulado com maior cooperação entre os jogadores.
No mesmo documento, ele registrava sua intenção de incentivar a participação de equipes do ITA em competições de robótica e ampliar o interesse de alunos de graduação e pós-graduação por robótica e inteligência artificial.

🤖Em poucas semanas, um título

O início foi pequeno. Mas o resultado veio rapidamente.
Na primeira participação em uma competição oficial, em 2005, a ITAndroids conquistou os títulos brasileiro e latino-americano na categoria Soccer Simulation 2D.
Em novembro de 2005 passaram a integrar a equipe outros dois alunos de pós-graduação e mais 13 alunos de graduação e a equipe iniciou a preparação para participar das eliminatórias para o Campeonato Mundial da RoboCup em quatro categorias: Soccer Simulation 2D, Soccer Simulation 3D, Rescue Simulation Agents e Rescue Simulation Virtual Robots.
Para Matsuura, a velocidade com que os resultados apareceram foi uma surpresa. Mais ainda porque, até poucos meses antes, nenhum dos integrantes tinha como foco a robótica competitiva.

Equipe ITAndroids em 2005 – ainda em busca por patrocínio

O professor não ficou apenas na orientação. Ele próprio programou parte dos códigos utilizados nas competições, inclusive na equipe campeã latino-americana de 2005, na equipe classificada para a RoboCup de 2006 e nos projetos que posteriormente conquistariam resultados internacionais.
No Mundial de 2006, sua atuação também ultrapassou a programação e a orientação técnica. Diante das dificuldades administrativas e da necessidade de garantir a presença dos 12 integrantes classificados, Jackson decidiu deixar de trabalhar diretamente na categoria Soccer Simulation 3D, na qual era um dos principais responsáveis, para concentrar seus esforços na organização da viagem e na participação da equipe completa.

ITAndroids na Robocup 2006

A escolha revela uma característica que marcaria sua relação com a ITAndroids: mais do que buscar um resultado individual, sua prioridade era criar condições para que os estudantes pudessem viver a experiência da competição internacional.
Essa proximidade com os alunos é uma característica que ele destaca ao recordar aqueles anos.

“Eu, mais do que qualquer outra coisa, sempre fui, ou tentei ser, dado as limitações de tempo, um integrante da ITAndroids”

🤖Quando a comunidade iteana entrou em campo

O crescimento da equipe trouxe um novo desafio: captar recursos para equipamentos, viagens e participação nas competições internacionais.
Foi nesse momento que a comunidade iteana teve papel decisivo.
Matsuura destaca a atuação de Pedro John Meinrath (T59). Segundo ele, o entusiasmo, o incentivo e a rede de contatos do ex-aluno foram fundamentais para dar visibilidade à equipe. Foi por meio dessa articulação que a ITAndroids chegou às páginas do Estadão e conseguiu apoio para participar do Mundial da RoboCup de 2006, em Bremen, na Alemanha.

Equipe do Brasil na RoboCup 2006 – rumo à Bremen, Alemanha

Em 2006 e 2007, a equipe recebeu patrocínios e doações de pessoas físicas, por intermédio da Fundação Casimiro Montenegro Filho (FCMF). Entre os doadores identificados nos registros históricos preservados da própria ITAndroids estão João Gomez, Rômulo Villar Furtado e Samuel Konishi (ex-alunos da T61 e integrantes do Hexavirato, que deu origem à ITAEx), além de outros iteanos.

Equipe da ITAndroids no Campeonato Brasileiro de Robótica, em 2006

Naquele período, antes das atuais plataformas digitais de financiamento coletivo, o apoio dependia da mobilização direta de pessoas e das redes de relacionamento da comunidade.
Os recursos ajudaram a viabilizar equipamentos, como um notebook e kits de robôs humanoides, além da participação dos estudantes nas competições nacionais e nos mundiais da RoboCup.
Para Matsuura, sem esse apoio financeiro, a ITAndroids não teria condições de participar dos mundiais da RoboCup.
E a questão do financiamento da robótica continua atual.
Em 2008, em uma entrevista ao Portal SESC-SP, ao falar sobre os desafios para o desenvolvimento da área, resumiu:

“Tanto no governo quanto na indústria, muita gente ainda tem de ser convencida de que vale a pena investir em robótica”

A afirmação ajuda a dimensionar a importância do apoio recebido pela equipe desde seus primeiros anos, especialmente em uma época em que equipamentos, viagens e participação em competições internacionais dependiam diretamente da mobilização de pessoas e instituições.

Equipe ITAndroids (2006)

A participação da ITAndroids no Mundial de 2006 também ajudou a despertar novamente o interesse de outras equipes brasileiras pela RoboCup e contribuiu para o surgimento de novos grupos de competição.


 Em 2006/2007, versões dos robôs da ITAndroids:
RoboMário (acima) e Robogério Ceni (abaixo) 

Foi nesse contexto que Matsuura passou a enxergar a mobilização dos iteanos como algo maior do que o financiamento de um projeto específico.

“Eu gosto de pensar que a ITAndroids talvez tenha sido um primeiro embrião, ou pelo menos um fomentador da ITAEx”

A afirmação é uma leitura pessoal do professor sobre aquela trajetória. A ITAndroids foi criada em 2005, enquanto a ITAEx seria formalizada 11 anos depois, em 2016. O que já existia, porém, era uma comunidade disposta a identificar boas iniciativas e contribuir para que elas pudessem sair do papel.

🤖Dos robôs à formação de uma geração

Os resultados internacionais continuaram.
Vieram participações em mundiais da RoboCup, bons resultados em diferentes categorias e, posteriormente, o título mundial da RoboChamps.
Mas os troféus não são o principal legado da ITAndroids.
Para Matsuura, uma consequência ainda maior foi a criação da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), em 2007.

A organização da primeira edição da OBR, em 2007, exigiu tempo e dedicação que, naquele momento, foram retirados parcialmente da própria equipe

“A OBR 2007 realmente acabou desfalcando a ITAndroids, principalmente de tempo. Mas foi um investimento necessário na base”

Aquela edição da Olimpíada ampliou o acesso à robótica para estudantes dos ensinos fundamental e médio, e ajudou a formar uma geração que posteriormente chegaria às universidades e aos cursos de engenharia e computação. Assim, uma iniciativa criada inicialmente para competir passou a produzir um efeito muito mais amplo: estimular jovens a experimentar ciência, tecnologia e engenharia na prática.

A popularização das competições também aumentou o número de estudantes interessados em integrar equipes de robótica tanto no ITA quanto em outras instituições de ensino brasileiras

 

🤖Aprender fazendo

Para os estudantes, a ITAndroids oferecia algo que as disciplinas tradicionais nem sempre conseguiam proporcionar: a possibilidade de colocar conhecimentos, e também aquilo que ainda não dominavam, diante de um problema real.
🤖O robô precisava funcionar.
🤖O código precisava responder.
🤖A estratégia precisava vencer.
🤖E o resultado seria colocado à prova em uma competição.

Em 2008, o Prof. Matsuura venceu o desafio KIA Urban Challenge da RoboChamp – programando um carro para andar de modo autônomo em uma cidade simulada, com cruzamentos, rotatórias, semáforos e outros carros em movimento. O critério de desempate foi o tempo de desenvolvimento e submissão da solução, e ele enviou sua solução em apenas três dias

Segundo Matsuura, essa experiência é particularmente importante para os estudantes de engenharia porque transforma o conhecimento em ação. Ele identifica, ainda, um papel especial para a robótica nas engenharias eletrônica e de computação.

Em outubro de 2015, ITAndroids participou da Competição Brasileira de Robótica (CBR) e do Concurso Latino-Americano de Robótica (LARC). Os dois eventos foram realizados simultaneamente, em Uberlândia (MG)

🤖O professor que continua sendo aluno

Matsuura está licenciado do ITA desde 2021, e com afastamento previsto até 2027. Atualmente, atua como diretor da Ploomes Sistemas Empresariais S.A.
Mesmo à distância, sua trajetória ajuda a explicar a relação com sua Alma Mater.
Vindo de uma formação escolar pública e com pouca familiaridade com algumas das disciplinas que encontraria pela frente, encontrou no ambiente do ITA as condições para desenvolver uma capacidade que considera fundamental: aprender a aprender.
A ITAndroids foi apenas uma dessas experiências. Depois vieram a OBR, os cursos online, novas metodologias de ensino, os kits de laboratório, a realidade aumentada e a realidade virtual.
Em comum, segundo ele, está a vontade de fazer algo que seja interessante para os alunos, divertido para ele e, ao mesmo tempo, desafiador.

🤖A história continua sendo escrita por novas gerações

Atualmente presidida pelo Prof. Dr. Marcos Maximo (T12), a ITAndroids reúne cerca de 70 alunos de diferentes áreas da Engenharia.
A relação de Maximo com a equipe, porém, começou muito antes de assumir a presidência. Engenheiro de Computação formado pelo ITA com láurea Summa Cum Laude, seu contato com a ITAndroids teve início ainda na iniciação científica, em 2010, sob orientação do Prof. Jackson Matsuura (T95).

Entre 2011 e 2012, Maximo integrou oficialmente a equipe, quando Matsuura era seu mentor. Posteriormente, desenvolveu o Trabalho de Graduação, o Mestrado e o Doutorado em temas relacionados à ITAndroids, com pesquisas especialmente voltadas à robótica humanoide

Hoje, Maximo é professor do ITA, pesquisador nas áreas de robótica móvel, controle de sistemas dinâmicos e inteligência artificial e coordena a equipe de competições de robótica.
A continuidade também se expressa nos resultados. Na RoboCup 2026, realizada em Incheon, na Coreia do Sul, a ITAndroids voltou ao pódio mundial, com o 3º lugar na Small Size League (SSL). A equipe também conquistou o 4º lugar na Soccer 2D, o 7º na Soccer 3D e o 15º na Humanoid Small Size Division.
Os resultados mostram que a equipe criada em 2005 continua enfrentando novos desafios, em um cenário internacional marcado pela transformação da robótica e das próprias competições. Mais do que preservar uma história, as novas gerações da ITAndroids vêm ampliando seus limites.
E há uma conquista que, talvez, sintetize melhor esse legado: a capacidade de uma iniciativa seguir adiante independentemente de quem a iniciou. Como diz Matsuura:

“Uma coisa de que me orgulho é: tanto ITAndroids quanto OBR andam muito bem sem mim.”

A frase revela uma dimensão importante de sua trajetória como professor: criar algo que não dependa de seu criador para continuar existindo, crescendo e formando novas gerações.
Sua história também ajuda a mostrar uma dimensão importante da comunidade iteana: iniciativas que começam pequenas podem ganhar novos caminhos quando encontram pessoas dispostas a acreditar nelas e apoiá-las.
Foi assim com a ITAndroids: uma ideia surgida a partir de um simples jogo de futebol virtual acabou ajudando a colocar a robótica do ITA em competições internacionais e a ampliar o alcance da robótica educacional no Brasil.
Para Matsuura, a conexão entre passado e futuro permanece:

“O ITA, como aluno, me proporcionou a base de ir atrás e vencer os desafios, e como professor, aliado à ITAEx, me deu a oportunidade de fazer uma pequena diferença e contribuir, mesmo que pouco, com a formação de novos iteanos e com a educação no Brasil.”


Nota da ITAEx

Anos antes de a ITAEx existir formalmente, já havia entre iteanos uma disposição de transformar recursos, contatos e experiência em oportunidades para quem estava no ITA.
A história da ITAndroids é um dos exemplos dessa cultura de apoio que, posteriormente, ganharia uma estrutura institucional com a criação da ITAEx.
Hoje, esse vínculo se renova: a ITAndroids integra o conjunto de iniciativas estudantis da ITAEx, fortalecendo uma história que começou há mais de duas décadas e que continua a conectar gerações de iteanos.
Colecionadora de quase 100 títulos em mais de 20 anos, a ITAndroids também evidencia que, quando uma ideia encontra talento, dedicação e apoio, pode ultrapassar seus objetivos iniciais e produzir impactos que chegam muito além do ITA.
A equipe tornou-se referência na formação de engenheiros com competências que extrapolam o currículo acadêmico tradicional. Esse impacto também se reflete na trajetória profissional de seus ex-integrantes, hoje atuantes em empresas como Microsoft, Google, Nubank, Embraer, Visiona e SIATT.
Embora nem todas estejam diretamente ligadas ao setor de robótica, muitas dessas empresas desenvolvem produtos e tecnologias que demandam conhecimentos associados à robótica e à inteligência artificial.
Em um cenário de crescente relevância comercial da robótica e de expansão de empresas do setor no Brasil, a expectativa é que a ITAndroids amplie ainda mais sua contribuição para a formação de profissionais altamente qualificados.
A ITAEx se orgulha de fazer parte dessa história e de contribuir para que ela continue sendo construída pelas novas gerações.
Faça sua doação carimbada à ITAndroids
CHAVE PIX: itandroids@itaex.org.br

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