Criada a partir de um projeto de disciplina, iniciativa estudantil do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) transformou a engenharia aplicada à saúde em uma missão: ouvir profissionais, identificar problemas e desenvolver soluções acessíveis para o Sistema Único de Saúde (SUS)
Uma prótese mioelétrica criada por estudantes durante uma disciplina de introdução à engenharia poderia ter sido apenas mais um projeto acadêmico. Mas os alunos decidiram continuar. O que começou como um exercício de sala de aula tornou-se o ITARobio, iniciativa estudantil do ITA dedicada ao desenvolvimento de soluções de bioengenharia para problemas reais da saúde pública brasileira.
Criada em 2022, o ITARobio nasceu com um desafio ambicioso: desenvolver uma prótese mioelétrica acessível. A proposta reunia diferentes áreas do conhecimento: aquisição de sinais biológicos, eletrônica, mecânica e controle, permitindo que os alunos experimentassem uma aplicação da engenharia pouco presente em sua formação tradicional.
“Mais do que a complexidade técnica, havia outro elemento que motivava a equipe: o potencial de impacto. É um dispositivo que muda concretamente a vida de uma pessoa”, explica Pedro Nagamine de Lima (T28), presidente do ITARobio.
O projeto, entretanto, ganhou novos rumos dois anos depois.
Em 2024, os então calouros da T28, Pedro Nagamine e Vinícius Moreira, questionaram se a iniciativa estava, de fato, produzindo impacto. A resposta levou à uma mudança fundamental na forma de trabalhar.
Em vez de iniciar pela tecnologia, o ITARobio passou a começar pelo problema.
Ouvir antes de construir
Sem experiência significativa em engenharia, e menos ainda em medicina, os estudantes decidiram procurar quem vivenciava os desafios diariamente. Foram a hospitais, eventos e centros de atendimento e começaram a conversar com médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde.
A pergunta era simples: “Quais problemas você enfrenta todos os dias?”
A partir dessas conversas, a iniciativa passou a identificar demandas concretas e desenvolver soluções em parceria com os profissionais que utilizariam os dispositivos. O processo também mudou a própria definição de sucesso dos projetos.

“Quando você pergunta a um gestor ou a uma equipe de enfermagem o que mais atrapalha o trabalho deles, a resposta quase nunca é ‘falta um dispositivo de alta complexidade’. São problemas de rotina (listados abaixo)”, resume Diego Bertolo, vice-presidente do ITARobio.
🏥um soro que termina sem que ninguém perceba;
🏥um equipamento que precisa ser localizado entre diferentes setores;
🏥situações aparentemente simples, mas que consomem tempo da equipe de saúde e podem afetar o atendimento ao paciente.
A mudança também levou a uma nova compreensão sobre o que significa desenvolver engenharia para um hospital. Na bancada, um protótipo que funciona pode ser considerado concluído. No ambiente hospitalar, é apenas o começo.
O equipamento precisa funcionar diante de uma rotina intensa, ser confiável, resistir aos procedimentos de limpeza e não gerar alarmes falsos que façam com que os profissionais deixem de confiar nele. A sofisticação tecnológica deixa, portanto, de ser o principal critério.
A prioridade passa a ser a confiabilidade.

“Quando você chega com uma ideia embaixo do braço, ouve só o que confirma a sua ideia. Por isso, primeiro escutamos”, explica Arthur Smith, diretor de Computação do ITARobio.
Só depois da identificação do problema os estudantes retornam ao ITA para discutir como transformá-lo em uma solução.
O principal aprendizado dessa mudança foi direto: a maior parte do valor da engenharia está na escolha do problema, não na elegância da solução.
Soluções para problemas reais
Essa filosofia está presente em projetos como o NivelaMed e o GPSUS, desenvolvidos em parceria com a Santa Casa de São Paulo.
O NivelaMed monitora a aplicação de soro fisiológico em enfermarias e alerta a equipe em situações como o término da bolsa ou uma obstrução. A proposta é reduzir a necessidade de verificações manuais constantes e permitir uma resposta mais rápida da enfermagem.
Já o GPSUS busca solucionar outro problema cotidiano: a localização de equipamentos hospitalares. Ao permitir o acompanhamento do posicionamento dos materiais, o sistema pode reduzir o tempo gasto pelas equipes na procura por equipamentos deslocados entre diferentes setores.
Nos dois casos, a demanda parte do hospital, enquanto o ITARobio desenvolve a solução. O trabalho é realizado sem cobrança para a instituição.

Entre os projetos atuais, o NivelaMed é apontado pela equipe como aquele que reúne maior potencial de impacto. O motivo está justamente na combinação de três características: um problema relevante, baixo custo e pouca alteração na rotina dos profissionais que utilizarão a solução.
A própria avaliação do impacto, porém, ainda está em evolução. Atualmente, a equipe utiliza principalmente o retorno qualitativo dos profissionais dos hospitais, mas trabalha na criação de indicadores objetivos, como taxa de detecção correta, ocorrência de alarmes falsos e tempo entre o evento e a resposta da enfermagem.
Quando o passado encontra um novo desafio
Embora a prótese mioelétrica tenha deixado de ser o foco principal do ITARobio, a experiência acumulada nesse projeto continuou sendo importante para a equipe.
Isso ficou evidente no BioChallenge 2024, competição voltada à engenharia biomédica. O desafio proposto era construir uma garra mecânica funcional. Para os alunos, a competição representava uma oportunidade de estabelecer metas, prazos e requisitos concretos para o desenvolvimento de um projeto.
Durante a definição do método de controle, surgiu a ideia de utilizar sinais de eletromiografia (EMG) para comandar a garra. A tecnologia não era exigida pela competição, mas permitia recuperar parte da experiência adquirida com o projeto da prótese mioelétrica.
A proposta era simples no papel: utilizar dois sinais e alternar entre os motores. Na prática, exigiu uma série de testes e ajustes.
O desenvolvimento envolveu problemas de interferência, qualidade na aquisição do sinal e processamento. A equipe precisou trabalhar com protoboard, osciloscópio, sensores e Arduino até conseguir fazer o sistema funcionar como previsto.
Havia ainda uma característica especial naquele time: grande parte dos integrantes era formada por calouros.
O aprendizado foi acelerado e, em alguns momentos, estressante. Mas o processo demonstrou algo que se tornou parte importante da cultura da iniciativa estudantil: alunos que estavam começando a graduação eram capazes de desenvolver uma solução competitiva em nível nacional.
O ITARobio conquistou o primeiro lugar nacional na categoria Motora.
Para a equipe, entretanto, o diferencial não esteve apenas na tecnologia. A abordagem humana do projeto teve papel decisivo. Enquanto outras soluções apresentavam recursos tecnológicos avançados, o ITARobio procurou demonstrar como os sinais musculares poderiam ser utilizados para recuperar movimentos de uma pessoa que perdeu um membro.
O resultado foi mais do que um troféu. A experiência consolidou conhecimentos em processamento de sinais biológicos e, principalmente, reforçou a confiança dos novos integrantes na capacidade de desenvolver projetos de engenharia com impacto.
Engenharia que também forma engenheiros
A experiência no ITARobio amplia a formação dos estudantes em diferentes frentes. Eletrônica embarcada, firmware, projeto mecânico, CAD, impressão 3D, aquisição e processamento de sinais biológicos, software e integração de sistemas fazem parte do cotidiano dos projetos.
Mas a equipe considera que existe uma habilidade ainda mais importante: transformar o relato de um problema real em uma especificação técnica.
Esse processo exige competências que vão além do conteúdo aprendido em sala de aula. Escuta, curiosidade, criatividade e resiliência fazem parte da formação.
Os estudantes precisam aprender a lidar com críticas e com soluções que não funcionam na primeira tentativa. Também precisam assumir a responsabilidade de desenvolver tecnologias que poderão afetar pessoas.
“Uma solução ruim não invalida um problema bom”, aponta Ian Lotufo, diretor de Eletrônica do ITARobio.
O contato com o ambiente hospitalar também provoca uma mudança de perspectiva. No início da graduação, os estudantes estão acostumados a problemas bem definidos em disciplinas como Física, Química e Cálculo. No hospital, o assunto chega de outra forma: por meio do relato de uma pessoa que enfrenta uma dificuldade no cotidiano.
Cabe ao engenheiro entender o contexto, formular o problema e só então pensar na solução.
Uma rede de apoio
Para funcionar, uma iniciativa como a ITARobio depende de uma rede que reúne academia, estudantes e profissionais de saúde.
O ITA e o Laboratório de Bioengenharia fornecem infraestrutura e respaldo técnico. As instituições de saúde oferecem acesso aos problemas reais e aos ambientes onde as soluções precisam ser validadas. A parceria com a Faculdade de Ciências Médicas de São José dos Campos – Humanitas, por exemplo, aproximou os estudantes das ciências médicas e permitiu o contato com conteúdos de anatomia do membro superior.
Para a equipe, essa interação também ajuda a aproximar duas formas diferentes de enxergar um mesmo problema.
E há ainda o apoio da ITAEx, apontado como fundamental para a continuidade da iniciativa, e que contribui para a aquisição de componentes, prototipagem e participação dos estudantes em competições.
“É ex-aluno financiando aluno para que o hospital público receba a tecnologia que precisa”, define Caua Vanderley, diretor Social do ITARobio.
Do protótipo à adoção
O próximo desafio do ITARobio é transformar protótipos em soluções efetivamente adotadas pelos serviços de saúde.
Para isso, será necessário avançar em validação, medição de impacto e nos processos regulatórios necessários para que dispositivos destinados ao uso em serviços de saúde possam ser utilizados de forma regular e segura.
A equipe também enfrenta um desafio característico das iniciativas estudantis: a renovação constante. Com a formatura dos integrantes, parte do conhecimento adquirido deixa o grupo. Por isso, documentação e treinamento dos novos integrantes são tratados como parte essencial dos projetos.
A prótese mioelétrica, origem do ITARobio, poderá voltar a fazer parte dessa trajetória, mas com outra função.
“Em vez de ser necessariamente um produto final, a prótese poderá se transformar em uma espécie de laboratório de formação interna, reunindo conceitos de aquisição de sinais, controle e integração eletromecânica que podem ser utilizados em outros projetos” – explica o diretor de Mecânica da ITARobio, Vinícius Fernandes (T29).
O símbolo é significativo: aquilo que deu origem à iniciativa pode agora ajudar a formar os estudantes que darão continuidade a ela.
O objetivo para os próximos anos é ambicioso: tornar o ITARobio uma referência nacional em engenharia aplicada à saúde, com dispositivos validados e utilizados regularmente em diferentes hospitais públicos.
E preservar, ao mesmo tempo, aquilo que parece estar no centro da iniciativa desde sua transformação: permitir que um estudante que chega ao ITA sabendo pouco possa, alguns anos depois, entregar uma solução que funcione em um leito de hospital.
“Que não esperem se sentir prontos.” É essa a mensagem que os atuais integrantes do ITARobio deixam para os novos alunos.
A iniciativa começou com estudantes de primeiro ano tentando construir uma prótese.
Cresceu quando outros calouros decidiram sair da sala de aula e perguntar aos profissionais de saúde quais eram seus problemas.
“O conhecimento técnico pode ser aprendido. A disposição para ouvir, aprender rápido e assumir a responsabilidade pelo impacto daquilo que se constrói é o que, para nós, integrantes do ITARobio, transforma engenharia em ação”, finaliza Pedro Nagamine.
Composição da equipe
Além da diretoria, relacionada abaixo, há mais 27 alunos na equipe:
⚙️Presidente: Pedro Nagamine (T28)
⚙️Vice-presidente: Diego Bertolo (T29)
⚙️Diretor de Computação: Arthur Smith (T29)
⚙️Diretor de Eletrônica: Ian Lotufo (T29)
⚙️Diretor Social: Caua Vanderley (T29)
⚙️Diretor de Mecânica: Vinícius Fernandes (T29)
Conecte-se ao ITARobio

Empresas, ex-alunos, profissionais da saúde e instituições interessadas em apoiar a ITARobio podem contribuir com conhecimento, conexões, parcerias e oportunidades para os alunos.
Cada colaboração fortalece a aproximação entre engenharia, saúde e inovação, ajudando a transformar desafios reais em soluções com impacto para a sociedade.



