57 anos da Embraer: engenharia, liderança e o futuro da indústria aeroespacial

Em 1969, a Embraer iniciava uma trajetória que transformaria a indústria aeroespacial brasileira. Nascida a partir da visão de Ozires Silva e do conhecimento desenvolvido no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a empresa consolidou-se como uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo, tornando-se referência em inovação, excelência em engenharia e desenvolvimento tecnológico.
Para marcar esses 57 anos, entrevistamos o Dr. Cleiton Diniz Pereira da Silva e Silva (T02), diretor de Tecnologia e Equipamentos Eletrônicos da Embraer, nascido em Campina Grande (PB), graduado em Engenharia Eletrônica pelo ITA com distinção Summa Cum Laude, além de mestre e doutor pela instituição.
Há 20 anos na Embraer, o iteano participou do desenvolvimento de programas como os E-Jets, Phenom 100, Phenom 300, Legacy 500 e C-390, acumulando uma visão privilegiada sobre a evolução da engenharia aeronáutica brasileira.Ao longo da entrevista, Cleiton Diniz compartilha reflexões sobre os desafios do desenvolvimento de aeronaves em um ambiente de alta complexidade. Destaca, ainda, a integração entre universidade e indústria, o papel da inteligência artificial na engenharia, a formação de novas lideranças e os fundamentos que continuarão orientando a profissão em um cenário de rápidas transformações tecnológicas.
Mais do que celebrar os 57 anos da Embraer, esta conversa evidencia como o conhecimento, a colaboração e a formação de excelência continuam sendo os pilares que unem ITA, Embraer e o desenvolvimento da indústria aeroespacial brasileira.

Embraer é referência global na indústria aeronáutica

 

Trajetória dentro da Embraer

ITAEx: A Embraer chega aos 57 anos como uma das principais empresas aeroespaciais do mundo. O senhor construiu uma parte importante de sua trajetória profissional dentro dessa história. Ao olhar para esse percurso, quais experiências mais transformaram sua maneira de compreender e praticar a engenharia e o desenvolvimento de aeronaves?

Cleiton Diniz: Ingressei na Embraer em 2006 e, neste ano, completo 20 anos de empresa. Nesse período, tive o privilégio de participar de programas como os E-Jets E1, Phenom 100, Phenom 300, Legacy 500 e C-390. Cada um deles me ensinou algo diferente sobre engenharia, desenvolvimento de produtos e trabalho em equipe.
No ambiente acadêmico, normalmente somos treinados para resolver problemas já definidos. Na prática da engenharia, aprendi que uma das capacidades mais importantes é formular a pergunta correta e compreender profundamente qual problema realmente precisa ser resolvido.
Existe uma tendência natural de avançar rapidamente para uma solução a partir da primeira descrição do problema. Ao longo da minha trajetória, aprendi a observar o sistema como um todo, ouvir diferentes perspectivas e manter alternativas em paralelo enquanto ampliamos nosso conhecimento sobre requisitos, interfaces e restrições. A melhor solução não é apenas tecnicamente viável, mas aquela que gera mais valor para o produto como um todo.
Também aprendi que a engenharia é um esporte coletivo. Nenhuma pessoa ou disciplina desenvolve um produto isoladamente. Isso exige profundidade técnica, humildade para reconhecer que ninguém possui todas as respostas e disposição para construir soluções em conjunto.

“Talvez essa tenha sido uma das maiores transformações da minha trajetória: deixar de enxergar a engenharia apenas como a solução de problemas técnicos e passar a compreendê-la como um processo coletivo de descoberta, integração e tomada de decisões.”

 

Do ITA para a indústria

ITAEx: O senhor concluiu a graduação no ITA com distinção Summa Cum Laude e posteriormente realizou mestrado e doutorado na instituição. Como foi a transição de uma formação acadêmica profundamente técnica para a realidade do desenvolvimento de produtos aeronáuticos?

Cleiton Diniz: Meus pais e meu irmão são professores universitários e, durante muito tempo, esse também foi o caminho que imaginei para mim. Quando concluía o doutorado, havia poucas oportunidades na carreira acadêmica. Por meio de amigos, soube que a Embraer buscava profissionais para trabalhar com leis de controle, área na qual eu havia começado a me aprofundar ainda na iniciação científica.
Alguns meses depois de ingressar na empresa, meu chefe me perguntou qual diferença eu percebia entre academia e indústria. Respondi que, no ambiente acadêmico, muitas vezes partimos de uma teoria e buscamos problemas bem delimitados para estudá-la. No desenvolvimento de um produto aeronáutico, frequentemente fazemos o movimento inverso: partimos de um problema real, complexo e nem sempre completamente definido e buscamos uma solução tão simples quanto possível, mas robusta e adequada ao contexto.
Na indústria, não basta que uma solução seja matematicamente sofisticada ou tecnicamente elegante. Ela precisa funcionar dentro de um sistema maior, atender aos requisitos de desempenho e segurança, ser certificável e respeitar as restrições do programa.
Ao mesmo tempo, academia e indústria compartilham fundamentos indispensáveis: rigor técnico, compreensão dos fenômenos físicos e base matemática sólida. Tive muita sorte de encontrar profissionais experientes que compartilharam seu conhecimento e me ajudaram nessa transição.

“A academia amplia as fronteiras do conhecimento, enquanto a indústria traz problemas reais, restrições concretas e oportunidades de aplicação. Quando esses dois ambientes trabalham de forma próxima, ambos se fortalecem.”

Cleiton Diniz na celebração dos seus dez anos de Embraer

A transformação do projeto de sistemas

ITAEx: Quando iniciou sua carreira, como eram realizados o projeto, a análise e a integração dos sistemas de uma aeronave? Ao comparar aquela realidade com a engenharia praticada atualmente, quais mudanças mais transformaram sua maneira de trabalhar?

Cleiton Diniz: No meu primeiro trabalho na Embraer, atuei com sistemas de piloto automático. O projeto das leis de controle já utilizava intensamente modelos matemáticos e simulações. Modelávamos a dinâmica da aeronave, sensores, atuadores e barramentos de comunicação. Depois, integrávamos o software e realizávamos testes em laboratórios de sistemas em solo, os rigs, antes de confirmar o comportamento nos ensaios em voo.
Não trabalhei nos programas anteriores, em que uma parcela maior dos ajustes era realizada diretamente em voo, mas tive a oportunidade de aprender com profissionais que viveram essa evolução.
Ao longo dos anos, a modelagem e a simulação se expandiram para mais sistemas e etapas do desenvolvimento. Os modelos se tornaram mais integrados, criando representações virtuais mais completas da aeronave. Também passamos a testar mais cedo, primeiro nos modelos, depois com software in the loop, hardware in the loop e testes de integração de sistemas.
Essa antecipação mudou minha maneira de trabalhar. Em vez de esperar pela integração física para descobrir problemas, procuramos aprender e reduzir incertezas quando ainda existem mais alternativas e o custo das mudanças é menor. A automação, a integração contínua e o uso de aprendizado de máquina na análise de dados ampliaram essa capacidade.
A gestão também evoluiu. Princípios do Lean Product Development, da Teoria das Restrições e da Corrente Crítica ajudaram a direcionar a atenção para o valor, o fluxo do programa e as restrições que realmente determinam seus resultados.

 

Um desafio que marcou sua formação

ITAEx: Ao longo de sua carreira, o senhor participou de programas de elevada complexidade tecnológica. Sem entrar em informações confidenciais, houve algum desafio técnico ou momento de decisão que tenha modificado significativamente sua forma de pensar como engenheiro? Que aprendizado permaneceu dessa experiência?

Cleiton Diniz: Dos meus 20 anos na Embraer, aproximadamente 13 foram dedicados ao C-390. Tive o privilégio de iniciar no programa como engenheiro de leis de controle e, posteriormente, assumir a responsabilidade pela integração técnica do produto, sempre ao lado de equipes de altíssima competência.
O C-390 foi concebido para cumprir missões muito diferentes, como transporte aerologístico, reabastecimento em voo e combate a incêndios florestais. Um dos maiores desafios foi projetar estruturas, sistemas e demais elementos da aeronave para que um mesmo produto atendesse, de forma integrada, aos requisitos dessas diferentes missões.
Essa experiência me ensinou que um produto complexo não depende apenas de boas soluções técnicas isoladas, mas de um desenvolvimento disciplinado, que começa no conceito de operações e avança de forma estruturada até uma aeronave certificada.
Revisões multidisciplinares são fundamentais para validar necessidades, funções, arquiteturas e interfaces, expondo o projeto ao escrutínio técnico coletivo. Aprendi também que não basta executar bem a fase atual. É preciso preparar, em paralelo, as pessoas, os processos, as ferramentas e os ambientes necessários para a fase seguinte, protegendo o fluxo do desenvolvimento.

Segundo a Embraer, o C-390 Millennium, construído e projetado no século XXI, é a aeronave de transporte militar mais moderna de sua classe

“O principal aprendizado que permaneceu foi que a complexidade não é vencida por uma única decisão brilhante. Ela é dominada por meio de um processo disciplinado, de uma visão sistêmica e da contribuição coordenada de muitas pessoas.”

A transição de engenheiro para líder

ITAEx: A formação técnica costuma valorizar a capacidade individual de analisar e resolver problemas. À medida que a carreira evolui, entretanto, os resultados passam a depender cada vez mais da capacidade de desenvolver pessoas e mobilizar equipes. Como foi, para o senhor, essa transição de especialista e pesquisador para líder de engenharia?

Cleiton Diniz: Cada transição de liderança exigiu de mim uma transformação diferente. Quando assumi minha primeira equipe, percebi que saber executar bem o trabalho não significava saber liderar pessoas. Por isso, busquei uma formação em Gestão Estratégica de Pessoas.
Tive a enorme sorte de conviver com líderes competentes e inspiradores, que moldaram e ainda moldam minha forma de compreender a liderança, seja pelo exemplo, pela confiança que depositaram em mim ou pela maneira como conduziam decisões difíceis.
Um aprendizado fundamental foi reconhecer que o meu modo de executar uma atividade não era necessariamente o único ou o melhor. Como líder, precisei aprender a dar clareza sobre objetivos, prioridades, critérios e restrições, permitindo que a equipe tivesse autonomia para construir o caminho.
O papel do líder não é ter todas as respostas, mas fazer boas perguntas, remover obstáculos, proteger o foco e criar condições para que as melhores soluções surjam. Com o aumento da responsabilidade, também passamos a lidar mais com questões humanas, éticas e morais. Muitas vezes, enfrentamos situações de “certo com certo”, nas quais dois caminhos são defensáveis, mas não podem ser plenamente atendidos ao mesmo tempo.
Um líder de engenharia também precisa continuar aprendendo tecnicamente e ampliar sua compreensão do produto, sem pretender substituir os especialistas. Com o avanço da carreira, passamos a desenvolver pessoas, depois líderes e, mais adiante, líderes que formarão outros líderes.
Aos 45 anos de idade, ainda me considero no início de uma longa jornada de desenvolvimento como líder. Tenho muito a aprender, rever e aperfeiçoar. Felizmente, continuo cercado de referências excepcionais na engenharia da Embraer e em outras áreas da organização.

“Liderar não é deixar de ser engenheiro, mas atuar em outra escala, integrando conhecimentos, desenvolvendo pessoas e criando condições para que a equipe alcance resultados que nenhum indivíduo conseguiria produzir sozinho.”

Evento comemorativo à Certificação do C-390

Decisões em ambientes complexos

ITAEx: Em programas aeronáuticos, raramente existe uma solução perfeita. Muitas vezes é necessário decidir com informações incompletas, administrar riscos e conciliar requisitos conflitantes. Como desenvolveu sua maneira de tomar decisões técnicas e de liderança em ambientes de elevada complexidade?

Cleiton Diniz: Minha forma de tomar decisões foi muito influenciada pelo método Lean de solução de problemas, especialmente pelo raciocínio A3. Para mim, ele é uma disciplina para tornar explícito o raciocínio da equipe.
O processo começa pela compreensão da situação atual, de sua relevância e do estado futuro desejado. Precisamos esclarecer o que caracteriza uma boa solução, quais requisitos e restrições devem ser respeitados e quais critérios orientarão a decisão. Em seguida, formulamos hipóteses, buscamos evidências e ouvimos tanto os especialistas diretamente envolvidos quanto pessoas capazes de oferecer uma visão independente.
Esse raciocínio não é totalmente linear. Explorar alternativas também ajuda a compreender o problema. Por isso, procuro manter diferentes soluções em paralelo enquanto o conhecimento amadurece, evitando uma convergência prematura e decidindo no último momento responsável, sem comprometer o fluxo do programa.
Em produtos complexos, raramente uma alternativa é superior em todos os critérios. A decisão exige compreender riscos, interfaces e consequências para o sistema como um todo. Exige também julgamento e intuição construída pela experiência. Para reduzir vieses, procuro explicitar premissas, ouvir opiniões divergentes e distinguir fatos, inferências e julgamentos.
Nas decisões de liderança, aplico uma lógica semelhante, embora questões humanas também envolvam valores e consequências que nem sempre podem ser quantificados.

“Aprendi que decidir bem não significa esperar por informações perfeitas. Significa reunir evidências suficientes, compreender o que permanece incerto, assumir conscientemente os riscos e acompanhar os resultados com disposição para aprender e corrigir o rumo.”

Em evento de Portões Abertos da Embraer, Cleiton com sua esposa Aline e filhas Júlia (a maior) e Isabela (a menor)

Inteligência artificial e o engenheiro do futuro

ITAEx: Inteligência artificial (IA), engenharia digital, automação e simulações avançadas estão redefinindo o desenvolvimento de produtos complexos. Na sua visão, como essas tecnologias devem transformar o trabalho do engenheiro nos próximos anos e quais conhecimentos, atitudes e capacidades serão necessários para o engenheiro do futuro?

Cleiton Diniz: Modelagem, simulação e ferramentas digitais transformam a engenharia há muitas décadas. Antes dos computadores, engenheiros criaram métodos gráficos engenhosos, como a Spirule, para projetar sistemas de controle. Depois, ferramentas como o MATLAB permitiram analisar sistemas mais complexos, explorar alternativas e antecipar problemas.
Não sou especialista em IA e ainda tenho muito a aprender sobre o tema. Ainda assim, acredito que estamos diante da possibilidade de transformar profundamente o trabalho do engenheiro, aumentando sua eficácia e eficiência.
A IA poderá apoiar a análise de dados, a exploração de alternativas, a verificação de requisitos, a criação de modelos e a identificação antecipada de riscos. Com modelos e simulações mais precisos e integrados, poderemos aprender mais cedo, reduzir incertezas e tomar decisões com evidências melhores. O maior potencial não está apenas em automatizar tarefas, mas em acelerar os ciclos de aprendizagem e permitir que o engenheiro se concentre no problema, no valor do produto e nas decisões que geram diferenciação.
Quanto mais poderosos forem os assistentes digitais, mais importantes serão os fundamentos da engenharia. Sem compreender profundamente os fenômenos físicos e a matemática, o engenheiro poderá aceitar resultados sem avaliar sua plausibilidade. Senso crítico, intuição técnica e capacidade de questionar continuarão essenciais.
Também será necessária uma visão sistêmica. A diferenciação dificilmente virá da otimização isolada de uma disciplina, mas da compreensão do produto, de suas interfaces, seus trade-offs e das necessidades humanas que deve atender.
As habilidades humanas também ganharão importância. Produtos complexos são desenvolvidos coletivamente e existem para atender pessoas. Por isso, comunicação, escuta, colaboração, negociação, empatia e capacidade de inspirar serão tão importantes quanto o domínio técnico.
Nesse contexto, permanece atual um princípio muito reforçado no ITA: a Disciplina Consciente. A tecnologia pode ampliar nossa capacidade de agir, mas não assume a responsabilidade pelas decisões.

“O engenheiro do futuro precisará combinar fundamentos sólidos, visão sistêmica, competência humana, integridade e compromisso com o impacto de suas escolhas sobre o produto e sobre a sociedade.”

 

Aprendizados

ITAEx: Depois de uma trajetória construída entre o ITA, a pesquisa, o desenvolvimento de aeronaves e a liderança de engenharia, que conselhos daria ao jovem Cleiton que estava iniciando essa jornada?

Cleiton Diniz: Sempre gostei de compreender profundamente os assuntos técnicos, seus fundamentos, sua história e até as ideias filosóficas que os sustentam. Durante muito tempo, isso me deu a impressão de que aprendia mais devagar, porque precisava voltar às origens antes de avançar.
Com o tempo, percebi que esse processo pode exigir mais dedicação no início, mas amplia a capacidade de analisar problemas, conectar conhecimentos e tomar decisões. Por isso, eu diria ao jovem Cleiton: continue buscando os princípios, a história e a compreensão profunda. Esse investimento vale a pena.
Meu segundo conselho seria começar mais cedo a desenvolver as habilidades humanas, investir em autoconhecimento, inteligência emocional, comunicação, negociação e trabalho em equipe. Também procuraria participar de mais projetos coletivos, porque é na interação com outras pessoas que aprendemos a ouvir, influenciar, lidar com conflitos e construir soluções.

“A engenharia é um esporte coletivo. Conhecimento técnico profundo é essencial, mas não suficiente para transformar uma boa ideia em um produto de valor.”

 

Nota da ITAEx

Ao celebrar os 57 anos da Embraer, esta entrevista também presta homenagem à trajetória de uma empresa que nasceu da visão de Ozires Silva, inspirada pelo projeto educacional idealizado pelo Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho com a criação do ITA. Ao longo de quase seis décadas, essa conexão entre educação, ciência, engenharia e indústria consolidou um dos mais importantes ecossistemas de inovação do Brasil.
As reflexões compartilhadas pelo Dr. Cleiton Diniz demonstram que os desafios da engenharia contemporânea vão muito além do domínio técnico. Exigem visão sistêmica, capacidade de integrar conhecimentos, desenvolvimento contínuo de pessoas e compromisso com a construção de soluções que gerem valor para a sociedade.
Para a ITAEx, fortalecer esse ecossistema significa apoiar a formação das próximas gerações de engenheiros, incentivar a pesquisa, estimular a inovação e preservar o legado construído por aqueles que transformaram conhecimento em desenvolvimento para o Brasil.
Que os próximos capítulos da história da Embraer continuem sendo escritos por profissionais comprometidos com a excelência, a colaboração e a busca permanente por novos desafios, valores que fazem parte da essência do ITA desde sua fundação.

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