No Dia dos Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, a ITAEx conversou com o Coronel da Reserva Willian Mota Baldoino (T94), engenheiro militar cuja trajetória reúne passagens pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Instituto Militar de Engenharia (IME), Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e Aviação do Exército (AvEx).
O Coronel Willian participou de projetos de engenharia, certificação aeronáutica, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e formação de novos engenheiros militares, contribuindo para o fortalecimento da capacidade tecnológica e da Base Industrial de Defesa do Brasil.
Nesta entrevista, ele relembra sua experiência como aluno do ITA, compartilha momentos marcantes da carreira e reflete sobre o papel da engenharia na soberania nacional, destacando o legado do Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho e a importância da integração entre o ITA e o IME para o desenvolvimento científico e tecnológico do País.
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As origens de uma trajetória na engenharia
ITAEx – Após sua formação na AMAN, o que o motivou a viver essa experiência de ser aluno do ITA? Quais lembranças dessa época permanecem mais vivas?
Coronel Willian – Na época em que era aluno da AMAN, naturalmente, na condição de cadete, eu já preenchia os requisitos de aptidão física e intelectual impostos pelo ritmo espartano da Academia com o propósito de formar o oficial combatente com sólida base técnica e humanística. No entanto, à época, eu já demonstrava sólida base de conhecimentos e aptidão nas disciplinas do ensino universitário, tais como Cálculo, Física, Química, Geometria Descritiva etc., bem como nas disciplinas do ensino da linha bélico-militar (Arma de Engenharia), que exigiam base nas disciplinas exatas e de lógica.
Esse fato já chamava a atenção dos professores e instrutores da AMAN, e alguns até me questionavam o porquê de eu não ter tentado o ingresso direto no IME/ITA, em função do desempenho que eu mantinha nas médias de tais disciplinas. O fato é que, ainda como cadete, eu já mirava um futuro ingresso no IME, o que foi concretizado pela minha aprovação no exame do IME no final de 1988, dois anos após a minha formação na AMAN (1986).
Por um desígnio divino, exatamente nessa época encontrava-se em curso a recriação da AvEx, o que coincidiu com o fato de eu já ter sido selecionado no IME, configurando um cenário que viabilizou o meu ingresso no ITA. Em resumo, o que motivou o meu caminho para o ITA foi o próprio curso dos acontecimentos, concomitantemente com a minha formação militar pregressa, que já cultivava pendor, aptidão e a disciplina como atributos requeridos pelo rígido ensino do ITA.
Minha experiência como aluno do ITA foi simplesmente singular, por conta da forte propensão que eu já havia desenvolvido, por dádiva de Deus, e ainda como adolescente, em lidar com demonstrações de questões de forte cunho analítico, que são características ressonantes com o tipo de ensino ministrado no ITA, o qual aguçou a minha aptidão para modelagem matemática de fenômenos, à época, como aluno.
Sobre a minha convivência no Instituto, tenho muito boas lembranças da minha turma, por conta dos vínculos de amizade, da descontração e da camaradagem que nutriam esses laços.

Na foto de formatura no ITA, em 1994

Na UFU, em 2023, como palestrante
ITAEx – O senhor costuma afirmar que o binômio IME–ITA é um patrimônio do Brasil. Por que acredita que essa integração é tão importante para a ciência, a tecnologia e a soberania nacional?
Coronel Willian – O IME e o ITA são as duas instituições cujas histórias são interligadas, e isso pode ser constatado pela própria biografia do seu visionário idealizador, o Marechal do Ar Casimiro Montenegro. Essas duas instituições sempre contribuíram e contribuem para o desenvolvimento do País com entregas tangíveis, para além da formação de recursos humanos de alto nível.
O ITA é a gênese do complexo aeroespacial brasileiro, e permanece diuturnamente no esforço de inovação tecnológica no setor aeronáutico, aeroespacial e áreas afins.
O IME tem atuação vinculada a várias obras de infraestrutura disseminadas por todo o País, bem como a projetos de pesquisa e desenvolvimento de material de defesa, o que pode ser atestado pela leitura de revistas como a Defesa Nacional.
Logo, por conta de suas peculiaridades, essas duas instituições são vocacionadas para a manutenção e o fomento da Base Aeroespacial e de Defesa do Brasil.
ITAEx – Durante cerca de dez anos, o senhor fez a ponte entre o DCTA e a AvEx, especialmente nas áreas de certificação e aeronavegabilidade. Qual foi a importância desse trabalho e quais resultados destacaria?
Coronel Willian – Atuei como Prestador de Tarefa por Tempo Certo (PTTC) pela Chefia de Material de Aviação do Exército (CMAvEx), exercendo a função de analista e coordenador da comissão de engenheiros militares e especialistas lotados no IFI. Foi, e ainda é, uma missão de alta relevância, destinada à condução e coordenação de processos de certificação aeronáutica e aeronavegabilidade de aeronaves da AvEx, com seus sistemas embarcados e apensos, promovendo a interface entre CMAvEx e o IFI, de 2015 a 2024.Essa missão resultou em várias entregas para a Aviação do Exército, entre as quais o assessoramento a problemas diversos em serviço de aeronaves e sistemas.

No DCTA|IFI, em 2023
Também permitiu a colaboração em processos de certificação aeronáutica e aeronavegabilidade de sistemas da FAB, entre as quais destaco:
✔️ Certificação do transporte do míssil Meteor/MBDA no avião KC-390,
✔️ Certificação Suplementar de Tipo EC-725 com o míssil AM-39 e Guincho Duplo,
✔️ Certificação de Tipo da Aeronave KC-390 (foco no projeto do trem de pouso),
✔️ Assessoria Técnica para Avaliação do Míssil de Cruzeiro AVTM-300,
✔️ Avaliação do Sensor MX-15 no R99,
✔️ Análise de Projeto de Sonda Anemométrica na Aeronave Black Hawk,
✔️ Dificuldade em Serviço atinente ao Problema de Falha por Fragilização do Canopy do Avião Mirage, ✔️ Participação em missão internacional do IFI nos Estados Unidos com vistas ao estabelecimento de um Acordo de Reciprocidade entre as FFAA Brasil-EUA, em certificação aeronáutica e aeronavegabilidade continuada, resultando no reconhecimento da FAB como autoridade de aeronavegabilidade militar junto ao NAC (National Airworthiness Council) dos EUA.

Em missão internacional do IFI nos EUA, em 2018
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Formando novas gerações
ITAEx – O senhor também dedicou parte da carreira ao ensino, como professor e coordenador de graduação no IME. O que mais o motivava na formação de novos engenheiros militares?
Coronel Willian – Como principal motivação para a formação de engenheiros militares, atuando como professor e coordenador de curso de graduação em engenharia mecânica do IME, eu destaco uma peculiaridade dos Trabalhos de Graduação, qual seja, a conexão de temas acadêmicos com demandas reais e tangíveis das Forças Armadas (FFAA). Esse cenário direciona a atuação do engenheiro no sentido de focar em resultados mensuráveis, mediante a elaboração de Trabalhos de Graduação com potencial para subsidiar tecnicamente as aquisições de produtos de defesa e projetos de desenvolvimento, a exemplo da atuação de ex-aluno do IME no IAE, atuando diretamente no projeto de Veículo Aéreo Não Tripulado, com base na formação que teve no IME, na época em que eu ministrava a disciplina de aerodinâmica.
ITAEx – O senhor teve experiências acadêmicas e profissionais no Brasil, nos Estados Unidos e na França. Que aprendizados essas vivências trouxeram e como contribuíram para sua visão sobre engenharia aeronáutica e inovação?
Coronel Willian – No Brasil, vivenciei diferentes cenários acadêmicos em universidades, para além das cercanias do IME e do ITA, destacando a Universidade de Brasília (UnB), em curso de mestrado, e o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ), promovendo compartilhamento de experiências com o IME, nas áreas de Mecânica de Fluidos, Aerodinâmica e Turbulência (analítica e experimental).
Particularmente, na UFU, eu atuei como pesquisador no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (INCT/CNPQ), nas áreas de aeroelasticidade e estudos de prospecção de aeronaves abarcando conceitos avançados de desempenho e controle usando materiais inteligentes (morphing aircraft), e como professor colaborador ministrando a disciplina de sistemas de aviões. Ainda, na época da UFU, eu integrei uma missão de estudos em universidades americanas (Michigan, Virgínia Politechnic Institute e Florida State University),em abril de 2013, com o objetivo de prospectar materiais inteligentes de interesse do Laboratório de Estruturas da UFU/FEMEC (Faculdade de Engenharia Mecânica) à época.
Nos Estados unidos eu atuei com os engenheiros de projeto da Sikorsky Aircraft, no âmbito de um estágio de transferência de tecnologia na área de análise modal de estabilidade de helicópteros (ressonância ar e solo), ressaltando que essa missão resultou como contrapartida de um contrato de Offset entre o Exército Brasileiro e a Sikorsky, em nível governamental.

Na França, coordenou os trabalhos do time da AvEx, na especificação
de requisitos contratuais de projeto e de certificação da modernização
da frota de helicópteros AS 365 K2
Essas experiências me propiciaram uma visão bem ampliada sobre o intenso ritmo das inovações em engenharia aeronáutica, em nível internacional, e como aprendizado, constatei, já naquela época, a inexorável tendência de multidisciplinaridade entre as várias engenharias, resultando em desafios de complexidade cada vez maiores na formação das novas gerações de engenheiros militares, o que requer do IME e do ITA o permanente esforço de atualização para fazer face a esse dinâmico cenário.
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Olhando para o futuro
ITAEx – O Brasil vive um momento de fortalecimento da Base Industrial de Defesa e de maior integração entre universidades, Forças Armadas e empresas. Que oportunidades o senhor enxerga para os futuros engenheiros formados pelo ITA?
Coronel Willian – Com base nas experiências que relatei até aqui, eu vislumbro que as oportunidades para as novas gerações de engenheiros militares atuando em prol da base industrial de defesa, podem advir das seguintes fontes:
✔️ Fomento dos Acordos de Compensação de Offsett a introdução de contrapartidas que resultem em ganhos reais para os engenheiros militares, junto às empresas que integram a base de defesa, e às Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) e universidades, no Brasil e no exterior.
✔️ Fomento de estágios para graduandos nas empresas da base de defesa, é claro, sem prejuízo da formação de base, que deve ser compromissada com a crescente complexidade da tecnologia que catapulta os processos industriais.
✔️ Fomento de parcerias de pós-graduação em instituições de pesquisa de universidades e centros de excelência no exterior, que sempre elevam o nível de estado da arte em termos de inovação, mantendo a indústria em nível de paridade.

Em missão de manutenção das telas ICDS do Sistema Elétrico da Aeronave Fennec
ITAEx – Ao olhar para sua trajetória, quais valores aprendidos no ITA mais influenciaram sua atuação profissional e sua liderança ao longo da carreira?
Coronel Willian – Complementando os valores que eu assimilei durante a minha passagem pelo ITA, acrescento aqui a sugestão ao Instituto no sentido de promover junto aos alunos, um maior incentivo em cultivar a memória dos idealizadores e visionários do DCTA e do atual complexo aeroespacial, tais como, o Coronel Ozires Silva, o Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, e de outros professores militares e civis que deixaram contribuições relevantes para a história do ITA, para além do ensino. Entidades como grêmios estudantis e fundações são agentes apropriados para a transmissão de valores e legados deixados por esses ícones. A título de exemplo, somente após a minha formação no ITA, eu tomei conhecimento de aspectos interessantes sobre as biografias desses homens que lançaram a gênese do atual complexo aeroespacial (DCTA e seus institutos, Embraer, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, e empresas subsidiárias), que chamam atenção, incluindo fatos pitorescos. Esse cultivo de valores fomenta o espírito de corpo e a coesão entre os integrantes da comunidade iteana.
ITAEx – No Dia dos Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, que mensagem gostaria de deixar aos alunos do ITA e aos jovens engenheiros que desejam colocar seu conhecimento a serviço do Brasil?
Coronel Willian – Minha mensagem aos jovens engenheiros: contextualizando, o que quero externar, hodiernamente vivenciamos permanentemente uma realidade na qual a evolução da tecnologia e o aumento da taxa de geração de conhecimento em intervalos de tempo cada menores, geram a sensação de obsolescência, por mais hercúleo que seja o esforço para se manter atualizado, e esse cenário é ainda mais recrudescido com a atual onda gerada pelas ferramentas de inteligência artificial (IA). No entanto, na minha visão:
“Nenhum algoritmo de programação neurolinguística ou ferramenta de IA substitui a necessidade de uma formação com sólida base na matemática, na física e na lógica.”
Eu digo isso, porque mesmo após 31 anos decorridos da minha graduação no ITA eu desbravo, mesmo como autodidata, novos conhecimentos em áreas de matemática, da física clássica e moderna, na medida em que isso gera insights que permitem a compreensão de novos conceitos que alavancam a indústria, sem os quais seremos apenas meros operadores de pacotes de solução, e não agentes ativos.
ITAEx – Se pudesse voltar aos tempos de aluno do ITA e conversar com o Willian da T94, que conselho daria a ele?
Coronel Willian – Eu diria a ele: se queres atuar ao longo de uma carreira como um verdadeiro agente de transformação, e não como um mero operador de uma corporação, você encontra no ITA a ambiência propícia para esse objetivo, iniciando com o firme propósito de estudo de forma exaustiva, independentemente da onda que permeia o momento com ferramentas que trazem combos de solução ante às demandas que lhe são impostas. E que o ITA seja a V0 (velocidade inicial) desse propósito, prosseguindo ao longo da carreira.
Não me arrependo de ter trilhado esse caminho. A higidez da formação raiz nos permite sobreviver às ondas de momento, apreendendo conceitos por trás do caráter utilitário delas, e continuando permanentemente apto a entender como o conhecimento evolui.
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Nota da ITAEx
Neste Dia dos Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, homenageamos todos os profissionais que colocam seu conhecimento a serviço do País, contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico e para a defesa nacional.
A trajetória do Coronel Willian Mota Baldoino demonstra como a sólida formação oferecida pelo ITA somada aos valores da carreira militar podem gerar impactos duradouros na inovação, na certificação aeronáutica, na pesquisa e na formação de novas gerações de engenheiros.
A ITAEx agradece ao Coronel Willian pela entrevista e por compartilhar sua experiência, reafirmando o compromisso da comunidade iteana com a excelência, a inovação e o fortalecimento das instituições que constroem o futuro do Brasil.



