Dia Internacional da Mulher na Engenharia | Coronel Engenheira Thais Franchi Cruz (T01)

Quando Thais Franchi Cruz (T01) ingressou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1997, passou a integrar uma geração que ajudaria a escrever um novo capítulo na história da instituição. Apenas um ano antes, em 1996, o vestibular do ITA havia sido aberto às mulheres pela primeira vez. A T01, da qual Thais fez parte, era apenas a segunda turma mista do Instituto e contava com apenas seis alunas entre seus integrantes.

Filha de uma família que sempre enxergou na educação a principal ferramenta de transformação, Thais encontrou no ITA uma oportunidade de construir seu futuro. Tornou-se a primeira mulher a se formar como militar pelo Instituto e seguiu uma trajetória marcada pela excelência técnica e pelo compromisso com a aviação e a defesa nacional.

Thais em aula prática no ITA (1998). A foto em exposição no Memorial Aeroespacial Brasileiro (MAB), no DCTA, em São José dos Campos

Ao longo de 25 anos de carreira militar, a engenheira eletrônica atuou em programas estratégicos como o F-5, o H-36, o KC-390 e o F-39 Gripen.

O Prêmio Newton de Mattos Pitombo, promovido pela AEITA, homenageou três engenheiras pioneiras: Patricia Rodrigues Scheel (T00), Thais Cruz (T01) e Andressa de Mello (T02), em celebração aos 25 anos da primeira turma de mulheres formadas no ITA, símbolo de coragem, excelência e inspiração para as novas gerações

Atuando no Departamento de Tecnologia Aeroespacial (DCTA) como Adjunta do Gerente Técnico do Projeto F-39, tem entre as suas funções, a coordenação da Avaliação Operacional Inicial Contratual do Gripen.

Em 2001, Thais recebe o diploma de formatura pelas mãos do então vice-reitor do ITA, o Prof. Dr. Fernando Toshinori Sakane (T68)

A Coronel Engenheira Thais Franchi Cruz conversou com a ITAEx para esse Dia Internacional da Mulher na Engenharia, sobre sua trajetória, os desafios enfrentados, as transformações observadas ao longo dos anos e o papel das mulheres na construção do futuro da engenharia brasileira.

A Coronel Thais tem 46 anos, e é casada com Flávio Henrique Perin Alves, engenheiro eletrônico formado pelo ITA também em 2001. É mãe da Julia e do Felipe. Além da dedicação à engenharia e à aviação, a família sempre ocupou um papel central em sua trajetória


ITAEx –  A senhora integrou uma das primeiras turmas femininas do ITA (T01 – com apenas
seis mulheres). Como era ser aluna de uma instituição que ainda estava se adaptando à presença feminina e quais foram os principais aprendizados daquela experiência?
Coronel ThaisTenho ótimas lembranças da minha passagem pelo ITA, embora tenha sido um período que exigiu de mim uma rotina de estudos intensa. A recepção dos colegas foi boa. Havia muito tempo, os veteranos eram favoráveis à chegada de meninas na escola. Apesar da instituição não estar 100% adaptada para a chegada das alunas, foi por um curto período.
Na minha experiência, sempre recebi um tratamento igualitário, independentemente de ser mulher. Um dos principais aprendizados daquela época aconteceu logo no primeiro ano.
Nunca me esqueço a primeira vez que tive a experiência de vivenciar a Disciplina Consciente (DC). Um professor de física nos deixou levar a prova para casa no feriado, confiando que cada aluno iria controlar o tempo que ele estipulou e não consultaria nenhum material. Que sensação boa de ter a liberdade de escolher quando fazer a prova, de perceber que o mais importante era eu não enganar a mim mesma e de estar sendo preparada para a vida real!

ITAEx – Em uma entrevista ainda antes de ingressar no ITA, contou que estudava cerca de dez horas por dia e que prestou apenas o vestibular do Instituto. O que representava para a jovem Thaís a oportunidade de estudar no ITA?
Coronel Thais – Vinda de uma família humilde, o ITA representava a chance de acessar oportunidades que nunca fizeram parte do meu histórico familiar (meus pais e avós não tiveram ensino superior). Era, acima de tudo, uma forma de honrar a dedicação dos meus pais, que não mediram esforços para me prover educação, apesar de todas as dificuldades financeiras.
Representava, ainda, receber um ensino gratuito de alta qualidade e na cidade vizinha a minha cidade natal, Caçapava.

ITAEx –  Ao longo da carreira, a senhora participou de programas estratégicos para o País, por meio da FAB, como F-5, H-36, KC-390 e F-39 Gripen. Como a formação recebida no ITA contribuiu para enfrentar os desafios técnicos desses projetos?
Coronel Thais – No meu primeiro ano do ITA, o saudoso professor de química Carl Herrmann Weis costumava nos dizer: “Vocês têm que aprender a pensar!” Para mim, essa provocação resume a essência da formação no ITA: raciocínio lógico e crítico com um currículo forte em ciências básicas. Diante dos incessantes avanços tecnológicos do mundo, é justamente esse alicerce que se mantém essencial para enfrentar os desafios dos programas estratégicos com tecnologias disruptivas.

Site Acceptance Test (SAT) da versão Basic Capability Update (BCU) do Misson Trainer (MT) do F-39


ITAEx – Como engenheira de ensaios em voo, atuou na avaliação e certificação de
aeronaves que hoje são fundamentais para a defesa nacional. O que torna essa atividade tão importante para a segurança e a capacidade operacional da FAB?
Coronel Thais – Costumo brincar dizendo que a tripulação de ensaio em voo é uma espécie de “cobaia”, porque testamos sistemas que ainda são protótipos, ou seja, estão em fase de desenvolvimento. Somente após a conclusão do processo de certificação é que o item ensaiado passa a ser um produto seguro. Só aí é que o sistema pode ser utilizado pelas tripulações operacionais da FAB. Além de atuar na certificação cujo foco é a segurança do produto, a tripulação de ensaio em voo também participa do processo de qualificação, realizando os testes necessários para assegurar que os novos produtos em aquisição pela FAB atendem aos requisitos contratados de cumprimento da missão. Portanto, a atividade de ensaio em voo é fundamental para garantir que as tripulações de linha de frente da FAB recebam equipamentos capazes de cumprir as suas variadas missões e voltar para casa em segurança.

Site Acceptance Test (SAT) da versão Basic Capability Update (BCU) do Aircraft System Trainer (AST) do F-39


ITAEx – Recentemente, coordenou atividades ligadas à validação operacional do F-39
Gripen. O que esse projeto representa para a evolução tecnológica da Força Aérea Brasileira e para a engenharia aeroespacial nacional?
Coronel Thais – Atuar como a coordenadora da Avaliação Operacional Inicial (AVOP-I) do F-39 é uma atividade profundamente gratificante para mim, porque tem o foco no operador final. Para executar as diversas fases da AVOP-I, especialistas de diferentes áreas realizam um planejamento integrado. O objetivo é garantir que todas as capacidades do sistema Gripen sejam avaliadas de forma completa, assegurando o atendimento às necessidades operacionais de maneira efetiva.
O Gripen, sendo um caça no estado da arte em cumprimento de missões, reconfigura a capacidade de dissuasão do Brasil, projetando a FAB a um novo patamar tecnológico e operacional. O vetor fortalece a defesa aérea do país e a manutenção da soberania nacional no domínio aeroespacial.
Além da importância estratégica da aeronave, o programa F-39 Gripen representa geração de emprego e renda, capacitação de mão de obra e transferência de tecnologia para a engenharia aeroespacial nacional. Ao todo, 63 projetos de offset (compensação comercial e tecnológica) integram o Projeto FX-2. Na prática, isso significa que o contrato, firmado há pouco mais de uma década entre a FAB e a SAAB (empresa responsável pela fabricação do caça), já resultou no treinamento de 350 engenheiros brasileiros na Suécia, mais de dois mil empregos diretos e dez mil indiretos, além da criação de produtos inovadores associados à aeronave.

A Coronel Thais participou da Operação Thor, nos ensaios para validação da separação segura de bombas do F-39 Gripen, em fevereiro de 2026 (Base Aérea de Natal) – Foto: Sargento Müller Marin /CECOMSAER


ITAEx – Além da atuação técnica, também contribuiu para a formação de novos pilotos e 
engenheiros de teste. Qual é a importância de transmitir conhecimento e preparar as próximas gerações para os desafios da área aeroespacial?
Coronel Thais – Fui instrutora do Curso de Ensaios em Voo (CEV) em 2013, mas para responder essa pergunta, preciso voltar um pouco no tempo. No final do meu quinto ano no ITA, em 2001, participei do processo seletivo e conquistei uma vaga para o CEV na modalidade de Engenheira de Ensaios em Voo de Asa Fixa. O ano de 2002 foi composto por 45 semanas intensas, para moldar as competências que a profissão exige. Pouco depois, em 2004, acompanhei todo o empenho dos instrutores para obterem o reconhecimento da “Society of Experimental Test Pilots” (SETP). Para se ter uma ideia da grandeza disso, apenas sete escolas no mundo possuem essa chancela, e a nossa é a única em todo o Hemisfério Sul. Tendo testemunhado o esforço de todos os que me precederam para erguer e manter essa formação tão especializada, em 2013 foi a minha vez de contribuir diretamente para forjar uma nova turma de pilotos e engenheiros de ensaios. A verdadeira importância de transmitir esse conhecimento é a continuidade, é garantir que as próximas gerações estejam cada vez mais preparadas para os desafios que virão.

ITAEx – Como pioneira em diversas funções dentro da Força Aérea Brasileira, em algum momento percebeu que sua trajetória poderia servir de referência para outras mulheres interessadas em seguir carreira na engenharia e na aviação?
Coronel Thais – Na FAB, nenhuma função é restrita aos homens, o que importa para a execução de qualquer trabalho são as competências que você possui. Pessoalmente, meu perfil é de focar no cumprimento de cada tarefa que me é confiada. Tive o privilégio de receber missões na FAB cujos propósitos me encantaram, então, ao longo de toda a minha carreira, canalizei minha energia no desempenho delas, sem me preocupar com o mundo exterior.
Confesso que apenas recentemente me dei conta de que compartilhar a minha trajetória também se tornou uma missão nobre. Hoje, entendo que contar essa história pode contribuir diretamente para inspirar novas gerações e abrir horizontes para pessoas que desconheçam a carreira da engenharia na Força Aérea Brasileira.

Thais seguiu uma trajetória marcada por excelência técnica e compromisso com a aviação e a defesa nacional


ITAEx – Ao longo de mais de duas décadas de carreira, quais mudanças observou na
participação das mulheres em áreas tradicionalmente masculinas, como a engenharia, a aviação militar e os projetos de defesa?
Coronel Thais – Infelizmente, noto bem menos mudanças do que gostaria. As mulheres ainda enfrentam barreiras sistêmicas que reduzem seu interesse e sua autoconfiança para entrar na Engenharia, mesmo tendo níveis de proficiência semelhantes aos dos homens. A representação feminina ainda é baixa na aviação militar e nos projetos de defesa, pois falta estímulo para a participação das mulheres em carreiras tecnológicas avançadas. Somos poucas ocupando vagas em engenharia, mas hoje somos mais do que éramos há duas décadas. Nesse tempo, o ITA já formou mais de 230 engenheiras. Na esfera militar, em 2002, ao realizar o Curso de Ensaios em Voo, fui a primeira tripulante de assentos ejetáveis das Forças Armadas. A FAB foi a primeira das Forças a possibilitar a atuação das mulheres na atividade fim da instituição.
Em 2020, a Brigadeiro Médica Carla Lyrio Martins, na FAB há 30 anos, tornou-se a primeira Oficial General da Força Aérea. Em 2024, o Ministério da Defesa iniciou estudos para que mulheres ingressassem nas Forças Armadas em funções de combate. Então, comemoro cada um desses feitos, pois hoje pelo menos já existem referências femininas, existem mulheres com grande experiência, em que as novas gerações podem se espelhar.

ITAEx – Sua história é marcada pelo valor que sua família atribuiu à educação, mesmo diante de dificuldades financeiras. De que forma essa experiência influenciou sua visão sobre meritocracia, oportunidades e formação de talentos no Brasil?
Coronel Thais – Minha trajetória me deu uma certeza absoluta: o conhecimento tem o poder definitivo de transformar a vida de uma pessoa. A minha grande torcida é para que todos possam ter acesso a uma boa educação, como eu tive, pois só assim, o Brasil conseguirá formar talentos.

ITAEx – Neste Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, que mensagem gostaria de deixar para as jovens que sonham ingressar no ITA, atuar na aviação ou participar de projetos tecnológicos de grande impacto para o País?
Coronel ThaisA primeira certeza que quero deixar é que mulheres e homens são rigorosamente iguais no domínio intelectual. Somos plenamente capazes de realizar tudo aquilo que ousamos sonhar, e a História está repleta de exemplos inspiradores de superação que comprovam isso. A mensagem que deixo é: saiam da zona de conforto e dediquem-se aos seus sonhos
Em algum momento, a oportunidade de atuar na aviação ou em projetos de alta tecnologia virá e, quando esse dia chegar, quem estiver verdadeiramente preparada conseguirá aproveitar. Portanto, preparem-se sempre.
E para aquelas que desejam ingressar na Força
Aérea Brasileira, o meu recado é: analisem os deveres e as oportunidades que existem em cada segmento da instituição. Provavelmente existe um em que seu perfil profissional vai se encaixar. Vale lembrar que o salário e a progressão na carreira são idênticos para homens e mulheres. De forma geral, a FAB oferece muitas experiências enriquecedoras para quem escolhe servir ao País.

 

NOTA DA ITAEx:
A trajetória da Coronel Engenheira Thais Franchi Cruz mostra como talento, dedicação e oportunidade podem transformar vidas e abrir caminhos para toda uma geração.
De aluna da segunda turma mista do ITA a integrante de projetos estratégicos da aviação militar brasileira, sua história reflete valores que marcam a formação iteana: excelência, compromisso com o conhecimento e contribuição para o desenvolvimento do País.
Neste Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, sua experiência também nos lembra que cada conquista individual ajuda a ampliar horizontes para quem vem depois. Ao ocupar espaços antes inéditos para as mulheres e ao compartilhar conhecimento com as novas gerações, Thais contribui para construir uma engenharia mais diversa, inovadora e preparada para os desafios do futuro.
Uma trajetória que inspira não apenas engenheiras, mas todos aqueles que acreditam no poder da educação, da perseverança e do propósito.

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