ITAEx – O senhor costuma dizer que o conhecimento só faz sentido quando gera impacto real. Existe um projeto ou iniciativa da sua carreira que melhor represente essa filosofia? O que essa experiência lhe ensinou?
Carlos Sakuramoto – Uma experiência que representa muito bem essa filosofia surgiu a partir de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento que realizei em parceria com o Centro de Competência em Manufatura (CCM), o laboratório de Engenharia Mecânica do ITA.
O objetivo inicial era a busca de uma solução disruptiva e técnica: desenvolver tecnologias avançadas para automação e otimização de processos produtivos. Muitos desses projetos começaram em níveis baixos de maturidade tecnológica e evoluíram até o TRL 6 (Technology Readiness Level 6), com vários protótipos validados em ambiente relevante de laboratório. Nesse processo, dezenas de alunos de graduação e pós-graduação participaram ativamente do desenvolvimento das soluções.
O desafio surgiu quando chegamos ao estágio seguinte. Para atingir o TRL 7, era necessário validar essas tecnologias em ambiente operacional real, dentro da fábrica. Nesse momento, passamos a enfrentar limitações legais e regulatórias que restringiam a atuação direta da universidade.
Foi então que aconteceu algo que ninguém havia planejado no início. Incentivamos os próprios alunos a transformarem seus conhecimentos em negócios, criando startups capazes de assumir a próxima etapa da jornada tecnológica.
O que nasceu como um projeto de pesquisa e desenvolvimento (P&D) voltado à melhoria da produtividade industrial acabou gerando algo muito maior: empresas de base tecnológica, novos empregos altamente qualificados, desenvolvimento de competências empreendedoras e soluções que hoje já alcançam mercados internacionais.
Paradoxalmente, um projeto cujo objetivo original era aumentar a eficiência de processos produtivos e reduzir tarefas operacionais repetitivas acabou criando dezenas de novas oportunidades de trabalho de alto valor agregado em áreas como inteligência artificial, automação, ciência de dados e manufatura avançada.
Essa experiência me ensinou que o verdadeiro impacto do conhecimento raramente está no resultado imediato do projeto. O impacto mais relevante acontece quando o conhecimento gera autonomia, cria oportunidades e passa a se multiplicar por meio das pessoas. A tecnologia foi apenas o ponto de partida. O resultado mais importante foi a formação de talentos capazes de continuar inovando e criando valor para a sociedade.
“O maior resultado destes projetos não foram os protótipos e tecnologias acopladas que construí, mas os empreendedores que formei.”
ITAEx – Grande parte da sua trajetória foi construída conectando academia, indústria e governo. Na sua visão, o que ainda impede que esses três setores trabalhem de forma mais integrada no Brasil? E o que tem funcionado bem?
CS – Os principais obstáculos para uma integração mais efetiva entre academia, indústria e governo não estão na falta de competência ou de boa vontade, mas nas diferenças de linguagem, de incentivos, de objetivos e de horizontes temporais que caracterizam cada um desses ambientes.
A academia tem como missão gerar conhecimento e ampliar as fronteiras da ciência. A indústria precisa transformar conhecimento em inovação, produtos e garantir sua competitividade, respondendo a ciclos de mercado cada vez mais curtos. Já o governo tem a responsabilidade de formular políticas públicas equilibradas, inclusivas e sustentáveis, capazes de produzir benefícios de longo prazo para a sociedade.
Em muitos casos, os três atores compartilham o mesmo objetivo estratégico, mas utilizam métricas distintas para definir sucesso. Isso cria desafios de alinhamento, priorização e execução.
Por outro lado, quando existe uma visão comum, mecanismos adequados de governança e instrumentos que promovam a cooperação, os resultados podem ser extraordinários. Programas como o Inovar-Auto (2012-2017), o Rota 2030 (2018-2023) e, mais recentemente, o MOVER demonstram que é possível construir ambientes de colaboração nos quais governo, indústria e universidades atuam de forma integrada para definir agendas tecnológicas, incentivar e direcionar investimentos, formar competências e desenvolver projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação voltados aos desafios estratégicos do país.

Em Florianópolis, 06.08.2025 – O fortalecimento da cadeia produtiva da indústria automotiva foi o principal tema do primeiro dia do Encontro Nacional das Coordenadoras dos Programas Prioritários do Mover
Minha experiência mostra que os melhores resultados surgem quando deixamos de enxergar esses três setores como partes independentes e passamos a tratá-los como componentes de um único sistema de inovação. Nenhum deles, isoladamente, consegue promover as transformações de que o Brasil necessita. Mas, quando atuam de forma coordenada, tornam-se capazes de acelerar o desenvolvimento tecnológico, aumentar a competitividade nacional e gerar benefícios concretos para toda a sociedade.
“A inovação acontece na academia, ganha escala na indústria e produz impacto duradouro quando encontra suporte adequado nas políticas públicas.”
ITAEx – O senhor acompanhou diferentes momentos da indústria brasileira. Na sua avaliação, quais foram as transformações mais significativas dos últimos 30 anos e onde o Brasil ainda precisa avançar para se tornar mais competitivo?
CS – Acompanhei, no início da minha carreira, a transformação da indústria automotiva de um modelo predominantemente baseado em manufatura tradicional para um ambiente altamente automatizado, robotizado, conectado e orientado por dados. Mais do que uma evolução tecnológica, foi uma mudança profunda na forma de conceber novos produtos e processos, e competir em um mercado global cada vez mais exigente. Hoje, qualidade, velocidade de resposta, flexibilidade e eficiência deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisitos de sobrevivência.

Sakuramoto, em setembro de 2025, no X Seminário de Manufatura – destacou a cadeia de fornecimento do setor automotivo – uma reflexão sobre o futuro
Nas últimas três décadas, testemunhei algumas das maiores transformações da história industrial brasileira. A abertura econômica promovida no início dos anos 1990 inseriu definitivamente o setor automotivo nacional no ambiente competitivo global. Como resultado “perverso” deste processo, observamos a incorporação gradual de muitas empresas nacionais por grupos multinacionais.
Paralelamente, ocorreu a disseminação de novos paradigmas de gestão e produção, destacando-se a adoção dos princípios do Sistema Toyota de Produção, a expansão das estratégias de make or buy culminando na intensificação da busca por soluções de baixo custo.
Mais recentemente, vivenciamos a ascensão da inteligência artificial, da manufatura avançada, da conectividade e, principalmente, da transição para uma economia de baixo carbono, que está redefinindo não apenas os produtos que fabricamos, mas também a forma como produzimos, consumimos energia e gerenciamos recursos ao longo de toda a cadeia de valor.
O Brasil avançou significativamente em produtividade, inovação e integração tecnológica. Entretanto, ainda enfrentamos desafios estruturais importantes. Destacaria três deles: a formação e retenção de capital humano altamente qualificado, a construção de um ambiente regulatório estável e previsível, e a capacidade de converter conhecimento científico em inovação, propriedade intelectual, novos negócios e competitividade econômica.
Acredito que o nosso maior desafio não seja tecnológico. O Brasil já demonstrou inúmeras vezes que possui competência técnica, criatividade e capacidade de inovação. O verdadeiro desafio é transformar esse potencial em prosperidade sustentável, convertendo conhecimento em desenvolvimento econômico, social e tecnológico de forma contínua e em escala.
“O Brasil nunca teve escassez de talento. O desafio histórico sempre foi transformar talento em competitividade e competitividade em desenvolvimento sustentável.
ITAEx – Além da atuação como engenheiro, o senhor passou a exercer um papel importante como articulador entre academia, indústria e governo. Como essa dimensão da liderança foi sendo construída ao longo da sua trajetória?
CS – No início da minha carreira, eu acreditava que os grandes desafios seriam resolvidos principalmente por meio da engenharia e da tecnologia.

Minha sólida formação no ITA, moldada pelos intermináveis “gagás” do H8, desenvolveu em mim uma disciplina intelectual baseada na análise rigorosa, no pensamento estruturado e na busca de soluções tecnicamente robustas para problemas complexos. Naquela fase, eu associava o sucesso de uma solução principalmente à sua capacidade de gerar resultados para a organização onde atuava.
Com o passar dos anos, fui percebendo que cada solução implementada produz impactos que transcendem os limites da empresa. Toda inovação gera consequências econômicas, sociais, ambientais e até regulatórias, positivas e negativas. Passei então a dedicar cada vez mais atenção não apenas à eficiência técnica das soluções, mas também aos seus efeitos sistêmicos e ao seu potencial de contribuir para desafios mais amplos da indústria e do país.
Foi nesse momento que compreendi que os desafios mais relevantes raramente são apenas tecnológicos. Normalmente envolvem múltiplos atores, interesses legítimos distintos, restrições regulatórias, limitações de recursos e objetivos que precisam ser harmonizados em torno de uma visão comum.
Essa foi a origem da minha jornada como articulador. Inicialmente, surgiu da necessidade de conectar diferentes competências para viabilizar projetos de inovação. Em seguida, da busca por mecanismos de financiamento capazes de transformar ideias em realidade. Mais tarde, evoluiu para a construção de alianças estratégicas entre empresas, universidades, institutos de pesquisa e governo, sempre apoiadas por políticas públicas e orientadas para objetivos de interesse coletivo.
A oportunidade de atuar em associações setoriais, conselhos consultivos e fóruns ligados a programas prioritários do Governo Federal ampliou ainda mais essa visão. Nesses ambientes, tornou-se evidente a importância de aproximar academia, indústria e governo para transformar conhecimento em resultados concretos, capazes de fortalecer a competitividade do setor automotivo, impulsionar a inovação e gerar benefícios para a sociedade.
Ao longo dessa trajetória, aprendi que inovação não é apenas um desafio técnico; é, sobretudo, um exercício de construção coletiva. A universidade gera conhecimento, a indústria transforma esse conhecimento em produtos, processos e competitividade, e o governo cria as condições para que essa transformação aconteça de forma sustentável e em benefício da sociedade.
Talvez o exemplo mais emblemático dessa visão tenha sido a realização de projetos de P&D que nasceram em laboratórios universitários, evoluíram até níveis avançados de maturidade tecnológica e, posteriormente, deram origem a startups fundadas pelos próprios alunos que participaram do desenvolvimento das soluções. O que começou como um projeto de automação industrial transformou-se em novos negócios, empregos qualificados e empresas que hoje atuam em mercados internacionais. Foi nesse momento que percebi que meu papel não era apenas desenvolver tecnologia, mas criar pontes para que a tecnologia encontrasse seu caminho até a sociedade.
Hoje, vejo a liderança muito menos como a capacidade de fornecer respostas e muito mais como a capacidade de conectar pessoas, instituições e propósitos em torno de objetivos compartilhados. As realizações das quais mais me orgulho nasceram justamente dessa convergência entre academia, indústria e governo.
“Comecei minha carreira desenvolvendo soluções de engenharia; ao longo do tempo, descobri que meu maior papel era construir ecossistemas capazes de transformar essas soluções em impacto duradouro para o setor automotivo, para o País e para a Sociedade.”
ITAEx – Durante a pandemia de covid-19, o senhor participou da mobilização da indústria para recuperar respiradores. O que aquela experiência revelou sobre a capacidade de colaboração da engenharia brasileira em momentos de crise?
CS – Durante o período mais crítico da pandemia, vivíamos um cenário de enorme incerteza e tristeza. O número de internações e de óbitos crescia diariamente, os leitos de UTI tornavam-se insuficientes e os hospitais enfrentavam uma escassez crescente de respiradores pulmonares. O País estava praticamente paralisado pelos lockdowns, enquanto hospitais de campanha eram construídos em diversas cidades para tentar absorver a demanda emergencial por atendimento.
Ao mesmo tempo, os fabricantes de respiradores enfrentavam enormes dificuldades para ampliar a produção. As cadeias globais de suprimentos estavam interrompidas, faltavam componentes críticos e a capacidade produtiva disponível era insuficiente para atender à urgência do momento.
Foi nesse contexto que o então Ministério da Economia, por meio do MDIC), convocou uma reunião emergencial com representantes das associações do setor automotivo para discutir possíveis formas de apoio da indústria à crise da saúde. Tive a oportunidade de participar dessa reunião e contribuir com as discussões.
A primeira alternativa considerada foi apoiar os fabricantes de respiradores na ampliação de sua capacidade produtiva. Embora importante, essa solução exigia mudanças significativas de processos, equipamentos e fornecedores, o que demandaria tempo, justamente o recurso mais escasso naquele momento.
Durante a discussão, levantei uma questão que mudaria completamente a direção do trabalho: quantos respiradores já existiam nos hospitais brasileiros, mas estavam fora de operação?
Rapidamente o Ministério da Saúde apresentou uma estimativa preliminar de aproximadamente 2.500 equipamentos inutilizados, muitos deles parados por falta de manutenção, peças ou reparos relativamente simples.
A partir dessa informação, propus uma alternativa baseada em uma pergunta simples: em vez de esperar a fabricação de novos respiradores, por que não recuperar os que já existiam?
A ideia era mobilizar a competência técnica da indústria automotiva, especialmente a experiência de seus profissionais em diagnóstico, manutenção e recuperação de sistemas complexos, trabalhando em conjunto com o SENAI, que possuía unidades especializadas no treinamento relacionado a manutenção de equipamentos médico-hospitalares.
Enquanto o SENAI estruturava um programa emergencial de capacitação, passei a articular as montadoras para formar uma força-tarefa nacional. Em apenas duas semanas, mais de dez fabricantes de veículos já haviam aderido voluntariamente à iniciativa, disponibilizando especialistas para receber treinamento e atuar na recuperação dos equipamentos.
Cada empresa criou sua própria estrutura de suporte, envolvendo equipes de manutenção, engenharia, compras, logística e jurídico. O objetivo era remover qualquer barreira que impedisse que um respirador voltasse rapidamente a operar. Empresas concorrentes mantinham reuniões constantes para auxiliar um ao outro.
Em conjunto com toda estrutura do SENAI, vascularizada em todo território Nacional, criamos uma força tarefa voluntaria jamais vista no planeta. Fomos matéria de mídia em todo País e no Exterior.
Também desenvolvemos uma plataforma para que hospitais de todo o país cadastrassem equipamentos que necessitavam de reparo. A partir daí, organizamos uma operação nacional de logística para coleta, e encaminhamento à montadora habilitada e treinada mais próxima para o reparo e posterior devolução ao hospital de origem.
Essa rede contou com uma colaboração extraordinária de diversas organizações, incluindo empresas de logística, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, Força Aérea Brasileira e diversas instituições públicas e privadas.

Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Em apenas três meses, mais de 1.500 respiradores haviam sido recuperados e devolvidos aos hospitais. Ao final de aproximadamente seis meses de operação, alcançamos a marca de cerca de 2.600 equipamentos reparados e novamente disponíveis para atendimento à população.
Mais do que recuperar equipamentos, essa experiência demonstrou algo fundamental: quando existe um propósito claro, a engenharia brasileira é capaz de mobilizar talentos, competências e recursos em uma velocidade extraordinária.
Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida profissional. Ela me ensinou que, em momentos de crise, a inovação nem sempre significa criar algo novo. Muitas vezes, significa enxergar valor onde ninguém mais está olhando e conectar pessoas e instituições em torno de uma solução capaz de gerar impacto imediato para a sociedade.
“Foi nesse momento que compreendi, de forma definitiva, que a engenharia atinge seu propósito máximo quando coloca conhecimento, competência e colaboração a serviço da vida.”
ITAEx – Em uma entrevista recente, o senhor comentou que, ao revisitar algumas decisões do início da sua carreira, passou a enxergar determinados impactos sob uma nova perspectiva. Como esse processo de reflexão transformou sua forma de liderar e de tomar decisões hoje?
CS – Com a experiência, passei a compreender que toda decisão possui consequências que frequentemente extrapolam o problema que estamos tentando resolver. Uma solução tecnicamente brilhante pode, se analisada apenas sob uma perspectiva local e de curto prazo, produzir efeitos indesejados ou até irreversíveis em dimensões mais amplas.
É possível, por exemplo, resolver um problema complexo de manufatura por meio da automação, robotização e otimização dos processos produtivos, aumentando a qualidade dos produtos, reduzindo tempos de operação, eliminando gargalos e elevando a competitividade da empresa. Sob a ótica empresarial, esses resultados são extremamente positivos e podem gerar ganhos significativos de produtividade, eficiência e receita.
Entretanto, quando ampliamos o horizonte de análise, percebemos que essas mesmas decisões também podem gerar impactos sociais relevantes, como a redução de postos de trabalho em determinadas funções. Da mesma forma, decisões estratégicas baseadas em modelos de make or buy podem parecer economicamente corretas para uma empresa em determinado momento, mas seus efeitos podem ultrapassar os limites organizacionais, contribuindo para a transferência de competências industriais para outros países, a perda de conhecimento tecnológico local, a desestruturação de cadeias produtivas e até processos de desindustrialização com consequências difíceis de reverter.
Essas reflexões transformaram significativamente minha forma de liderar e de tomar decisões. Hoje procuro avaliar não apenas os resultados imediatos de uma iniciativa, mas também seus impactos sistêmicos, suas consequências de longo prazo e seus reflexos sobre diferentes atores da sociedade.
Isso me tornou menos focado em soluções isoladas e mais atento às interdependências entre tecnologia, competitividade, pessoas, sustentabilidade e desenvolvimento nacional.
“Aprendi que uma boa decisão não é apenas aquela que resolve o problema de hoje, mas aquela que continua fazendo sentido quando consideramos seus efeitos sobre o futuro.”
ITAEx – A formação no ITA é reconhecida pela excelência técnica, mas também cria uma rede de relacionamentos que acompanha o profissional por toda a vida. Como a comunidade iteana influenciou sua trajetória e quais oportunidades surgiram a partir dessa conexão?
CS – O ITA me proporcionou uma formação técnica extraordinária, tanto em competências técnicas quanto humanas.

Parte dessa formação aconteceu em sala de aula, nos laboratórios e nos desafios acadêmicos. Mas uma parte igualmente importante foi construída na convivência diária do H8.
Foram os “gagas”, as articulações para “melação” das provas, as conversas informais nos corredores e no bar do H8, as madrugadas compartilhadas e a convivência intensa com colegas de diferentes turmas que ajudaram a moldar não apenas o engenheiro, mas também a pessoa e o líder que me tornei.

Entretanto, olhando em retrospectiva, acredito que o maior patrimônio que construí durante minha jornada no ITA não foi o conhecimento adquirido, mas a conexão com uma comunidade que considero praticamente infinITA: a comunidade iteana.
É um fenômeno difícil de explicar para quem não viveu essa experiência. De alguma forma, dentro da comunidade do ITA, as barreiras entre gerações parecem desaparecer. O intervalo de décadas entre turmas torna-se irrelevante diante dos valores, das experiências e da identidade compartilhada. E acredito que existe um elemento que simboliza essa conexão como nenhum outro: o H8.
O H8 não é apenas um alojamento. É um espaço onde diferentes gerações se encontram, trocam experiências, constroem amizades e desenvolvem um senso de pertencimento que permanece por toda a vida. É uma espécie de energia coletiva que torna o tempo uma variável secundária.
Em todas as etapas da minha carreira encontrei iteanos atuando nas mais diversas áreas e posições. Essa rede cria um ambiente singular de confiança, colaboração, aprendizado mútuo e disposição genuína para ajudar.
Mais do que uma rede profissional, encontrei uma comunidade de pessoas movidas por valores diversos e comprometidas, mas com objetivos claros em gerar impacto positivo onde quer que atuem.

Se existe algo verdadeiramente único no ITA, não são apenas os engenheiros que ele forma, mas a comunidade “infinITA” que continua se formando, ano após ano.
O diploma me abriu portas, mas foram as pessoas que encontrei ao longo dessa jornada que ampliaram meus horizontes.
“O maior patrimônio do ITA não está em seus prédios, laboratórios ou salas de aula; está na força de sua comunidade ‘infinITA’ e na capacidade de conectar gerações em torno de propósitos positivos.”
ITAEx – Ao longo da entrevista, o senhor destacou a importância de conectar pessoas, conhecimento e diferentes instituições. Nesse contexto, qual é o papel da ITAEx, na formação das novas gerações e no fortalecimento da ciência, da tecnologia e da inovação no Brasil?
CS – Uma associação de ex-alunos deve ser, antes de tudo, uma ponte entre gerações, e seu papel vai muito além de manter vínculos afetivos ou preservar a memória institucional. Ela deve ser capaz de capturar as experiências acumuladas ao longo das trajetórias individuais de seus membros e transformá-las em conhecimento coletivo disponível para a sociedade e para o País. Quando diferentes vivências profissionais, acadêmicas e empreendedoras são conectadas, surge um patrimônio intelectual único, capaz de orientar decisões, inspirar novas iniciativas e ampliar a capacidade de enfrentar desafios complexos.
A combinação entre experiência acumulada e novos conhecimentos produz algo extremamente valioso: repertório. E é esse repertório que permite enxergar problemas sob diferentes perspectivas, compreender suas múltiplas variáveis e construir soluções inovadoras para desafios cada vez mais complexos, multidisciplinares e transversais. Muitas vezes, as respostas para o futuro surgem justamente da conexão inteligente entre o que já foi aprendido e aquilo que ainda está sendo descoberto.
Nesse sentido, a ITAEx tem o potencial de aproximar estudantes do mundo real, conectando-os com profissionais que percorreram diferentes caminhos e enfrentaram desafios diversos. Essa interação amplia horizontes, acelera o aprendizado e cria oportunidades para que conhecimento, ciência e inovação sejam transformados em impacto efetivo para a sociedade.
Mais do que preservar uma história de sucesso, a ITAEx ajuda a construir o futuro, conectando pessoas, experiências e propósitos em torno de uma missão comum.
“Por fim: o maior ativo de uma associação de ex-alunos não é sua história, mas sua capacidade de transformar a experiência acumulada de uma geração em oportunidades para as próximas.”
ITAEx – O senhor acompanhou grandes transformações na engenharia e na indústria. Que perfil de profissional o Brasil precisará formar para enfrentar os desafios das próximas décadas?
CS – Eu costumo dizer que o mundo precisa de mais engenheiros “inconformados”. Não inconformados por contestar tudo, mas inconformados diante de problemas que ainda não foram resolvidos e de oportunidades que ainda não foram exploradas.
Nesse contexto, o conhecimento técnico continuará sendo fundamental, mas não será suficiente. As transformações que estamos vivendo exigirão profissionais capazes de integrar diferentes áreas do conhecimento e navegar em ambientes cada vez mais complexos.
Eu destacaria, em primeiro lugar, a curiosidade intelectual e a capacidade de aprender continuamente. As fronteiras entre disciplinas estão desaparecendo, e os grandes desafios passarão a exigir cada vez mais multidisciplinaridade e transversalidade. O profissional que aprende continuamente amplia sua capacidade de enxergar conexões onde outros veem apenas especialidades isoladas.
Outra competência essencial é a humildade intelectual. À medida que os problemas se tornam mais complexos, torna-se impossível que uma única pessoa detenha todas as respostas. Será cada vez mais importante saber ouvir, aprender com perspectivas diferentes e respeitar conhecimentos construídos em outras áreas de atuação.
Também considero fundamental desenvolver um pensamento sistêmico, multidimensional e transversal. As soluções do futuro precisarão considerar simultaneamente aspectos tecnológicos, econômicos, sociais, ambientais, regulatórios e humanos. Resolver um problema isolado sem compreender seus impactos sobre o sistema como um todo pode gerar consequências tão graves quanto o próprio problema que se pretendia resolver.
A comunicação será outro diferencial decisivo. Não basta desenvolver uma boa solução; é preciso ser capaz de traduzi-la para diferentes públicos. O engenheiro do futuro precisará transitar com naturalidade entre linguagens técnicas, acadêmicas, jurídicas, regulatórias, financeiras e corporativas, comunicando-se de forma eficaz em todos os níveis de uma organização e entre diferentes instituições.
A capacidade de colaboração também será indispensável. Os desafios mais relevantes dificilmente serão resolvidos por indivíduos ou organizações isoladas. Será necessário trabalhar em equipes multidisciplinares, conectar competências distribuídas ao longo das cadeias produtivas e construir parcerias envolvendo empresas, universidades, centros de pesquisa e governos.
Mas, acima de tudo, acredito que será necessário ter propósito. A tecnologia avança rapidamente, as ferramentas mudam e o conhecimento se torna cada vez mais acessível. O propósito é o que orienta escolhas, dá direção às capacidades adquiridas e transforma competência em impacto.
A inteligência artificial tornará o conhecimento disponível em uma escala sem precedentes. Nesse cenário, o verdadeiro diferencial não estará apenas em saber respostas, mas em formular boas perguntas, conectar áreas distintas do conhecimento e liderar transformações complexas capazes de gerar valor para a sociedade.
“O engenheiro do futuro não será aquele que souber mais do que os outros, mas aquele que conseguir conectar conhecimentos, pessoas e propósitos para resolver problemas que ninguém consegue resolver sozinho.”
ITAEx – Se pudesse deixar uma mensagem para os jovens iteanos que sonham em construir uma carreira de impacto, qual seria? E que legado você espera que a sua geração deixe para eles?
CS – Aos jovens iteanos, eu diria: não limitem seus sonhos ao tamanho da carreira que desejam construir. Procurem compreender os problemas que desejam ajudar a resolver.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que as realizações mais significativas não surgem da busca por cargos, títulos ou reconhecimento. Elas surgem quando colocamos nosso conhecimento a serviço de algo maior do que nós mesmos.
O Brasil é um país de enormes desafios, mas também de oportunidades extraordinárias. A transição energética, a transformação digital, a inteligência artificial, a reindustrialização, a sustentabilidade e a construção de cadeias produtivas resilientes exigirão profissionais capazes não apenas de dominar tecnologia, mas de compreender os impactos econômicos, sociais e humanos das suas decisões.
Meu conselho é que nunca percam a curiosidade intelectual, a capacidade de aprender e a coragem de questionar. Sejam inconformados. Não aceitem que um problema existe há muito tempo como justificativa para que ele continue existindo. Muitas das transformações que vivi nasceram justamente de perguntas que pareciam simples, mas que ninguém havia feito antes.
Ao mesmo tempo, não caminhem sozinhos. Os grandes desafios do futuro serão complexos demais para serem resolvidos por indivíduos isolados. Aprendam a construir pontes, a trabalhar em equipes multidisciplinares e a enxergar valor na diversidade de conhecimento e experiências.

A minha geração ou melhor a minha turma 84, muitos já deixaram e outros ainda estão deixando feitos importantes e relevantes, cada um em suas respectivas áreas: projetos, tecnologias e/ou empresas e espero que tenhamos deixado um grande legado onde a excelência técnica e o compromisso com a sociedade sejam percebidos e amplificados pelas gerações posteriores.
A minha mensagem final para as novas gerações de iteanos:
“Usem a excelência que o ITA lhes proporciona não para serem apenas os melhores do mundo, mas para serem os melhores para o mundo.”
ITAEx – Houve algum professor, colega ou mentor do ITA que tenha influenciado profundamente sua forma de pensar ou de liderar? Que ensinamento dessa pessoa permanece com você até hoje?
CS – Citar nomes de pessoas que me influenciaram é uma tarefa arriscada, porque tive o privilégio de conviver com muitos profissionais extraordinários e inevitavelmente corro o risco de esquecer alguém importante. Ainda assim, assumindo o risco, não poderia deixar de mencionar algumas pessoas do CCM-ITA, que tiveram papel importante na minha trajetória profissional e na minha visão de liderança.
A primeira delas é o Prof. Dr. Jefferson Gomes. Foi ele quem, durante uma visita à General Motors, me apresentou ao CCM. A partir daquele encontro nasceu uma parceria que já dura muitos anos, envolvendo diversos projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. Isso me permitiu ser um dos pioneiros na utilização de instrumentos como a EMBRAPII e os Institutos SENAI de Inovação para transformar conhecimento em aplicações reais para a indústria. Ao longo dessa jornada, o professor Jefferson tornou-se uma referência para mim pela sua capacidade de combinar visão estratégica empresarial, institucional e, sobretudo, visão de país.
Também destaco o Prof. Dr. Anderson Borille. Quando iniciei meus primeiros projetos de P&D no CCM, ele ainda estava em sua fase inicial de carreira acadêmica no ITA. Mesmo assim, dedicou-se intensamente para garantir o sucesso dos projetos, sempre com grande comprometimento e capacidade de execução. Com o passar dos anos, tornou-se um parceiro importante não apenas nos projetos tecnológicos, mas também nas atividades da Diretoria de Manufatura da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Sua capacidade de integrar conhecimento técnico, disciplina e gestão sempre foi uma referência para mim, especialmente na mitigação dos riscos inerentes aos projetos de inovação e nos projetos de STEAM.
E por fim, não posso deixar de mencionar o Prof. Dr. Ronnie Rego. Em meu primeiro projeto no CCM, ele era bolsista de doutorado. Desde então, sempre me impressionou pela sua perseverança e a forma como encarava os desafios. Nunca havia problemas fáceis ou difíceis; havia apenas problemas que precisavam ser compreendidos e resolvidos. Para cada desafio surgia uma resposta técnica embasada, construída com trabalho, método e dedicação. Essa postura se tornou uma referência permanente para mim.
Entretanto, mais importante do que as contribuições individuais de cada um foi o ensinamento comum que extraí dessa convivência: excelência intelectual deve caminhar lado a lado com humildade, curiosidade e perseverança.
O conhecimento é infinito, mas o nosso individual é finito por isso sempre existe algo novo para aprender e que, por mais complexo que seja um problema, existe uma explicação técnica a ser descoberta ou uma solução a ser construída.
“Costumo dizer que o conhecimento abre portas. A humildade mantém essas portas abertas. E a curiosidade nos permite subir alguns metros acima delas para enxergar o problema por novos ângulos, compreender o contexto e descobrir oportunidades que não seriam visíveis a partir de uma única perspectiva.”
ITAEx – Hoje, com a transformação digital, a inteligência artificial e a transição energética redesenhando a indústria, quais oportunidades você enxerga para que o Brasil assuma um papel de maior protagonismo tecnológico no cenário mundial?
CS – Estamos vivendo uma das maiores transformações industriais desde a Revolução Industrial. A convergência entre inteligência artificial, digitalização, automação avançada, conectividade e transição energética está redefinindo cadeias produtivas inteiras, modelos de negócio e até a geopolítica industrial.
Nesse cenário, acredito que o Brasil possui uma oportunidade histórica de assumir um papel de maior protagonismo tecnológico no mundo. Temos uma matriz energética relativamente limpa, uma das maiores biodiversidades do planeta, acesso a minerais críticos estratégicos e uma base científica de excelência. Poucos países reúnem simultaneamente todos esses atributos.
Entretanto, existe um contraponto importante que nem sempre recebe a atenção necessária. Ao mesmo tempo em que discutimos inteligência artificial, baterias, hidrogênio verde e tecnologias de ponta, o Brasil vem perdendo parte de sua capacidade industrial de base.
Nenhuma nação se torna protagonista tecnológico sem dominar, em algum grau, as tecnologias que sustentam sua capacidade de transformar matéria-prima em produtos de alto valor agregado. E isso inclui máquinas, equipamentos, ferramentais, automação e manufatura.
Os números ilustram essa preocupação. Em 2024, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos apresentou déficit comercial de aproximadamente US$ 16,4 bilhões, com exportações de cerca de US$ 13,1 bilhões e importações próximas de US$ 29,5 bilhões. Além disso, os equipamentos chineses já representam mais de 30% das importações brasileiras do setor, evidenciando uma crescente dependência tecnológica externa. [comexdobrasil.com]
Esse fenômeno vai além da balança comercial. Ele revela um processo gradual de enfraquecimento da capacidade nacional de produzir os próprios meios de produção. Quando um país perde sua indústria de máquinas, equipamentos e ferramentais, ele não perde apenas fábricas; perde conhecimento acumulado, capacidade de engenharia, fornecedores especializados e autonomia tecnológica. [comexdobrasil.com], [abimaq.org.br]
É justamente aí que vejo um dos maiores desafios da transição energética brasileira. Frequentemente discutimos a riqueza de nossos recursos naturais, como lítio, níquel, grafite, terras raras e a vantagem de uma matriz elétrica limpa. Mas a pergunta que me preocupa é: quem irá capturar o maior valor econômico dessa transformação?
Se não formos capazes de desenvolver e fortalecer nossa indústria de transformação, corremos o risco de repetir um padrão histórico: exportar recursos minerais e importar tecnologias de alto valor agregado.
Como vamos descarbonizar de forma competitiva se não desenvolvermos tecnologias próprias para beneficiamento, processamento, refino e transformação desses minerais críticos? Como participar da nova economia da mobilidade se produzirmos apenas a matéria-prima, enquanto outros países fabricam baterias, equipamentos, máquinas e sistemas que capturam a maior parcela do valor?
Por isso, acredito que a grande oportunidade do Brasil não está apenas na transição energética ou na inteligência artificial isoladamente. Ela está na combinação dessas agendas com uma estratégia de reindustrialização tecnológica.
Precisamos utilizar inteligência artificial, digitalização e automação avançada para reconstruir a competitividade da nossa base industrial. Precisamos transformar conhecimento científico em propriedade intelectual, startups em empresas globais, e recursos naturais em soluções tecnológicas exportáveis.
Em outras palavras, o desafio não é apenas descarbonizar a economia. É descarbonizar industrializando. É usar a transição energética como oportunidade para criar uma nova geração de indústrias, tecnologias e empregos de alto valor agregado.
“Meu maior receio é que o Brasil participe da nova economia apenas como fornecedor de recursos.
Meu maior sonho é que participe como desenvolvedor das tecnologias que irão transformar esses recursos em prosperidade.
O protagonismo tecnológico não pertence a quem possui os recursos naturais. Pertence a quem domina o conhecimento e a capacidade de transformá-los em inovação, competitividade e desenvolvimento sustentável.”
ITAEx – Ao imaginar o Brasil daqui a 20 anos, qual seria o maior motivo de orgulho ao olhar para trás e perceber que ajudou a construir essa história?
CS – Meu maior motivo de orgulho não seria ver uma tecnologia específica, um projeto, uma patente ou uma política pública associada ao meu nome. O que realmente me daria orgulho seria olhar para trás e perceber que ajudei a construir pontes que permaneceram de pé depois da minha aposentadoria. Pontes entre universidade e indústria. Entre ciência e aplicação prática. Entre governo e setor produtivo. Entre gerações de engenheiros do ITA.
Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de participar de iniciativas que transformaram conhecimento em inovação, projetos de pesquisa em startups, estudantes em empreendedores e desafios industriais em oportunidades de desenvolvimento. Se, daqui a 20 anos, eu enxergar empresas competitivas, tecnologias desenvolvidas no Brasil, cadeias produtivas mais robustas e profissionais que começaram suas carreiras em projetos que ajudei a construir, sentirei que cumpri minha missão.
Também gostaria de ver um Brasil que tenha encontrado seu caminho para transformar seus recursos estratégicos em prosperidade. Um País que não exporta apenas matéria-prima, mas conhecimento, tecnologia, inovação e soluções para os grandes desafios globais.
Mas, acima de tudo, ficaria orgulhoso de saber que contribuí para formar pessoas capazes de continuar esse trabalho. Porque tecnologias envelhecem, empresas se transformam e políticas públicas evoluem. Pessoas bem formadas, com propósito e compromisso com o país, continuam multiplicando impacto por gerações.
Se eu pudesse escolher uma imagem para representar esse futuro, não seria uma fábrica, um laboratório ou um centro de pesquisa. Seria a de jovens engenheiros liderando projetos que hoje nem conseguimos imaginar, utilizando conhecimentos que ajudamos a construir e abrindo caminhos que nossa geração apenas começou a traçar.
No final, meu maior orgulho seria perceber que ajudei o Brasil a deixar de ser apenas um consumidor de futuro para se tornar um construtor de futuro, e saber que as pontes que construí conectaram pessoas, instituições e oportunidades de forma tão sólida que continuaram gerando impacto muito depois da minha geração ter cumprido seu papel.
Nota da ITAEx
