Do ITA Rocket Design ao espaço: o caminho traçado pela BIZU Space

Criada por ex-integrantes do ITA Rocket Design, a BIZU Space nasceu do desejo de transformar a experiência adquirida em projetos estudantis em uma empresa capaz de desenvolver tecnologias espaciais estratégicas para o Brasil.

Essa trajetória acaba de alcançar um novo marco. Em maio de 2026, a startup lançou o FTL-Perseu, o primeiro foguete brasileiro impulsionado exclusivamente por propulsão líquida desde a decolagem, um feito histórico para a engenharia aeroespacial nacional.
Por trás dessa conquista está uma história que começou anos antes, nos corredores do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Fundada por ex-alunos da equipe ITA Rocket Design, a BIZU Space nasceu do desejo de transformar a experiência adquirida em projetos estudantis em uma startup capaz de desenvolver tecnologias espaciais estratégicas para o Brasil.
Hoje, além do marco alcançado com o FTL-Perseu, a empresa integra o arranjo industrial responsável pelo desenvolvimento do Microlançador Brasileiro (MLBR), liderado pela CENIC Engenharia, participa da criação do motor-foguete líquido ARION e desenvolve o estágio superior ATLAS-HTP, recentemente contemplado por investimento da Finep.

Nesta reportagem especial, os ex-alunos do ITA, Arthur Durigan Bahdur (CEO), Octávio Mathias (CTO) e Raphael Galate Baptista Ribeiro (CFO), contam como a vivência no ITA moldou a cultura da empresa, refletem sobre os desafios de empreender no setor espacial brasileiro e defendem que investir em pessoas, tecnologia e colaboração é o caminho para ampliar a autonomia brasileira no acesso ao espaço


Um sonho que encontrou seu caminho no Brasil

A história da BIZU Space começou antes mesmo da criação da empresa. Em 2016, integrantes da equipe ITA Rocket Design viajaram aos Estados Unidos para participar da International Rocket Engineering Competition (IREC), considerada a maior competição universitária de foguetes do mundo. Durante a viagem, tiveram a oportunidade de visitar a sede da SpaceX, próxima a Los Angeles, experiência que mudaria definitivamente seus planos profissionais.
Ao final da visita, perguntaram como poderiam trabalhar na empresa. A resposta foi direta: seria necessário ser cidadão americano e possuir autorização especial de segurança (clearance), requisito incompatível com a realidade daqueles jovens engenheiros brasileiros.
Foi naquele momento que surgiu uma reflexão que mudaria o rumo de suas carreiras.

“Percebemos que, para trabalhar com espaço de verdade, precisaríamos criar nossos próprios caminhos como brasileiros.”
Arthur Bahdur (T19), CEO da BIZU Space

Ao retornarem ao Brasil, a constatação tornou-se ainda mais evidente. Apesar da excelência da formação recebida no ITA, praticamente não existiam empresas nacionais dedicadas ao desenvolvimento de tecnologias espaciais capazes de absorver profissionais interessados nessa área.
Em vez de buscar oportunidades no exterior, decidiram construir esse mercado no próprio País.
A ITA Rocket Design tornou-se, assim, o embrião da BIZU Space. Foi naquele ambiente que seus futuros fundadores tiveram o primeiro contato com a engenharia de foguetes aplicada, aprenderam a trabalhar em equipe, enfrentaram desafios reais de projeto e construíram as relações de confiança que, anos mais tarde, dariam origem à empresa.

A herança do ITA Rocket Design

Embora a BIZU Space tenha evoluído para uma empresa de alta tecnologia, seus fundadores reconhecem que muitos dos princípios que orientam sua atuação nasceram ainda durante a graduação.
Entre eles está a verticalização tecnológica. Com recursos financeiros limitados, característica comum às equipes estudantis, os integrantes da ITA Rocket Design aprenderam que desenvolver internamente o maior número possível de soluções era não apenas uma necessidade, mas também uma oportunidade de adquirir conhecimento profundo sobre cada etapa do projeto.
Essa filosofia continua presente na empresa.

“Aprendemos a fazer tudo o que fosse possível ‘in-house’. Essa cultura permanece até hoje e é um dos diferenciais da BIZU.”
Octávio Mathias (T19), CTO da BIZU Space

Outro aprendizado fundamental foi a resiliência.
Projetar, fabricar, testar, errar, aprender e recomeçar faz parte da rotina tanto de uma equipe universitária quanto de uma empresa dedicada ao desenvolvimento de sistemas espaciais. Para os fundadores, trabalhar com engenharia significa muito mais do que realizar cálculos ou desenvolver simulações; exige a disposição de validar hipóteses, aceitar falhas como parte do processo e transformar cada teste em aprendizado.
O espírito coletivo construído na ITA Rocket Design também permaneceu como uma das bases da cultura organizacional da BIZU.

Muito além da sala de aula

Mais do que a formação técnica, os sócios atribuem ao ITA um legado cultural que continua orientando a empresa.
A Disciplina Consciente tornou-se parte da forma como a BIZU organiza seu trabalho e conduz seus projetos.
Segundo eles, a confiança construída durante os anos de convivência no ITA permite uma estrutura de trabalho descentralizada, na qual cada integrante conhece suas responsabilidades e atua de forma autônoma.

“Não precisamos cobrar as pessoas de seus trabalhos. Cada um sabe o que precisa fazer e trabalha pelo melhor da empresa. Isso permite decisões descentralizadas e agiliza nosso desenvolvimento.”
Raphael Galate (T18), CFO da BIZU Space

Esse ambiente de confiança também está diretamente relacionado à trajetória compartilhada por eles.
A convivência intensa durante a graduação criou vínculos que permanecem até hoje e se refletem na cultura da empresa. Logo, trabalhar ao lado de pessoas com quem dividiram os desafios da formação no ITA significa contar com profissionais que compartilham valores, responsabilidade e compromisso com a excelência.
Para os sócios, construir uma empresa espacial também significou desenvolver uma cultura organizacional baseada na resiliência. Trabalhar com foguetes significa conviver diariamente com testes, erros, ajustes e novos aprendizados. Mais importante do que evitar falhas é a capacidade de aprender com elas e seguir em frente.

“Criar uma cultura vencedora foi um dos maiores desafios da empresa. Ela não nasce de um dia para o outro, mas do exemplo. Em engenharia aeroespacial, muitas vezes damos o nosso melhor e as coisas ainda assim não saem como planejado. O importante é quantas vezes estamos dispostos a levantar e continuar.”
Arthur Bahdur

A equipe faz questão de destacar outro patrimônio construído ao longo da formação: a comunidade iteana. A rede formada pelos ex-alunos continua desempenhando papel decisivo no crescimento da empresa. Investidores, parceiros comerciais, empreendedores e profissionais experientes têm contribuído, de diferentes maneiras, para o amadurecimento da BIZU Space.

“A comunidade iteana nos ajuda diariamente. Ela abre portas, aproxima investidores, conecta parceiros e compartilha experiências. Existe um espírito colaborativo que acompanha os ex-alunos muito além da formatura.”
Arthur Bahdur

Para os sócios, essa cultura de colaboração lembra o espírito presente na tradicional Comissão de Viagem (CV), iniciativa organizada pelos próprios alunos do ITA, e continua se manifestando entre os que seguem o caminho do empreendedorismo.

Quando um sonho se transforma em empresa

Embora a ideia da BIZU existisse desde os anos de faculdade, sua formalização ocorreu apenas em 2022.
Curiosamente, o impulso definitivo veio de uma oportunidade perdida.
Ao perceberem que deixariam de participar de uma chamada pública da Finep por ainda não possuírem uma empresa formalmente constituída, eles entenderam que era o momento de assumir o risco e transformar o projeto em realidade.
Mais do que criar uma empresa, perceberam que o Brasil começava a construir um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do setor espacial.
Programas de incentivo à inovação, investimentos públicos e políticas voltadas ao fortalecimento da indústria nacional indicavam que novas oportunidades surgiriam para empresas capazes de desenvolver tecnologias estratégicas.

Construindo uma indústria espacial brasileira

Para os engenheiros, entretanto, empreender nunca foi apenas uma decisão de mercado. A motivação sempre esteve ligada ao desejo de contribuir para que o Brasil ocupasse uma posição mais relevante no cenário espacial internacional.

“Lá fora seríamos apenas mais uma empresa tentando algo muito difícil. Aqui podemos fazer a diferença. Queremos ser um movimento para que o Brasil se torne uma potência espacial.”
Arthur Bahdur

Essa visão também orienta a atuação da BIZU no Programa Espacial Brasileiro (PEB).
Hoje, a empresa participa do desenvolvimento do MLBR, projeto liderado pela CENIC Engenharia que reúne empresas e instituições nacionais em torno de um objetivo comum: ampliar a capacidade brasileira de acesso soberano ao espaço.
Nesse esforço coletivo, a BIZU atua em diferentes frentes, desde a engenharia de sistemas e a coordenação técnica de subsistemas até o desenvolvimento de tecnologias críticas para veículos lançadores.
Entre elas estão o desenvolvimento do propelente sólido utilizado no programa e do motor-foguete líquido ARION, tecnologia destinada às futuras gerações do lançador.
Mais recentemente, a empresa também foi contemplada com novo apoio da Finep para desenvolver o estágio superior líquido ATLAS-HTP, ampliando sua contribuição para uma das iniciativas mais estratégicas do setor espacial brasileiro.

Um marco para a engenharia aeroespacial brasileira

O ano de 2026 representou um divisor de águas na trajetória da BIZU Space. Em 29 de maio, a empresa realizou o lançamento do FTL-Perseu (Foguete de Treinamento Líquido), tornando-se responsável pelo primeiro foguete brasileiro impulsionado exclusivamente por propulsão líquida desde a decolagem.
Mais do que um feito inédito, o lançamento simboliza o domínio de uma das tecnologias mais complexas da engenharia aeroespacial. Diferentemente dos motores sólidos, os sistemas de propulsão líquida exigem o controle preciso da alimentação de propelentes, da combustão, da ignição e de diversos sistemas embarcados, tornando-se essenciais para missões que exigem alta precisão, como a inserção de satélites em órbita.
O FTL-Perseu foi concebido justamente como plataforma de ensaios em voo para o motor-foguete ARION, tecnologia desenvolvida pela própria BIZU e destinada às futuras gerações de veículos lançadores brasileiros.
Para os ex-alunos do ITA, esse marco representa muito mais do que um sucesso empresarial.

“O verdadeiro significado desse lançamento é mostrar que o Brasil tem capacidade para desenvolver tecnologia espacial de ponta. Estamos construindo conhecimento, infraestrutura e competências que permanecerão no País.”
Raphael Galate

O motor ARION e o futuro do MLBR

Paralelamente ao lançamento do FTL-Perseu, a BIZU continua avançando no desenvolvimento do motor-foguete líquido ARION, concebido para equipar o futuro estágio superior do MLBR.
O projeto já passou por diferentes campanhas de ensaios, incluindo testes subescala, ensaios com câmaras em tamanho real e testes com modelos de voo. A próxima etapa será a validação da configuração regenerativa, destinada ao emprego em ambiente espacial.
Os ensaios realizados ao longo de 2026 também reforçaram a confiança da equipe na maturidade da tecnologia.

O FTL-Perseu foi concebido justamente como plataforma de ensaios em voo para o motor-foguete ARION, tecnologia desenvolvida pela própria BIZU e destinada às futuras gerações de veículos lançadores brasileiros

“Os resultados obtidos demonstram que a experiência acumulada em mais de 60 ensaios está se consolidando. Cada teste bem-sucedido aumenta nossa confiança para as próximas etapas do desenvolvimento.”
Octávio Mathias

O novo investimento concedido pela Finep permitirá que a empresa avance para outra etapa igualmente importante: o desenvolvimento do ATLAS-HTP, primeiro estágio superior líquido nacional concebido para integrar futuras versões do MLBR.

Lançamento inaugural do FTL-Perseu (maio de 2026)

Autonomia para o Brasil

Desenvolver motores e sistemas espaciais representa apenas parte de um objetivo muito maior. A proposta da BIZU é contribuir para que o Brasil reduza sua dependência tecnológica e fortaleça sua Base Industrial Aeroespacial e de Defesa.
A experiência adquirida durante a graduação no ITA e na própria indústria demonstrou que depender de fornecedores estrangeiros para tecnologias críticas limita significativamente a autonomia nacional.
Por isso, a BIZU busca desenvolver soluções com elevado conteúdo nacional, fortalecendo fornecedores brasileiros e ampliando a capacidade tecnológica instalada no País.

“Todos os nossos projetos têm como requisito um alto conteúdo nacional. É a única forma de construir autonomia tecnológica de verdade.”
Arthur Bahdur

Essa visão também orienta a participação da BIZU no MLBR.
Para seus fundadores, possuir satélites próprios não é suficiente se o País continuar dependente de lançadores estrangeiros para colocá-los em órbita. Além do alto custo e da complexidade logística, essa dependência pode comprometer missões estratégicas e limitar a competitividade da indústria nacional.

Durante a SpaceBR Show, a BIZU Space assinou contrato com a Finep para o desenvolvimento do estágio superior líquido ATLAS-HTP e da turbobomba POSEIDON, tecnologias destinadas às futuras versões do Microlançador Brasileiro (MLBR). A cerimônia contou com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, e de representantes da Agência Espacial Brasileira (junho de 2026)

“Não basta termos nossos próprios satélites; precisamos ser capazes de lançá-los a partir do nosso território. Dominar o acesso ao espaço significa criar oportunidades para que empresas brasileiras desenvolvam tecnologias, reduzam custos e possam competir internacionalmente.”
Raphael Galate

O trabalho desenvolvido pela BIZU também foi reconhecido pelo Governo Federal por meio da classificação da empresa como Empresa Estratégica de Defesa (EED) e do enquadramento de suas tecnologias como Produtos Estratégicos de Defesa (PED).
Segundo os fundadores, essas certificações demonstram que os projetos desenvolvidos pela empresa estão alinhados aos interesses estratégicos do País e contribuem para fortalecer capacidades consideradas essenciais para o desenvolvimento nacional.
Mais do que um reconhecimento institucional, elas representam um compromisso permanente com a construção de tecnologias críticas para o Brasil.

Formando quem fará o próximo foguete

Embora tenha se consolidado como empresa de base tecnológica, a BIZU mantém uma relação estreita com a ITA Rocket Design e com o ambiente acadêmico que deu origem à sua trajetória.
Para os ex-alunos, apoiar equipes estudantis significa investir na formação da próxima geração de engenheiros espaciais brasileiros.

ITA Rocket Design participou da 6ª edição da Latin American Space Challenge (LASC), a maior competição universitária de foguetes e satélites da América Latina e uma das maiores do mundo, quando o ITA conquistou 2º lugar na categoria “Foguete 1 km – propulsão sólida”, único prêmio oficial da edição, resultado que confirma o alto nível técnico e a dedicação das equipes (novembro de 2025)

A parceria com o ITA já produziu resultados importantes, como o desenvolvimento do primeiro motor sólido envelopado em fibra de carbono construído por uma universidade da América Latina, projeto que contou com a participação de diferentes gerações de alunos e com o apoio técnico da Bizu.

Somos nós que precisaremos abrir esse caminho. Por isso, queremos estar próximos das universidades e das equipes estudantis, ajudando a formar profissionais que darão continuidade ao desenvolvimento do setor espacial brasileiro.”
Octávio Mathias

Na avaliação dos entrevistados, aproximar empresas e universidades é uma prática consolidada em países que lideram a indústria espacial e precisa ganhar cada vez mais espaço no Brasil.

Um futuro construído no Brasil

Ao refletirem sobre o cenário internacional, observam que o chamado New Space abriu novas oportunidades para empresas inovadoras, tornando possível o surgimento de novos protagonistas ao lado dos grandes programas governamentais. E acreditam que o Brasil reúne condições para ocupar posição de destaque nesse movimento, especialmente diante do fortalecimento de políticas públicas voltadas à inovação, à Nova Indústria Brasil (NIB) e ao desenvolvimento da Base Industrial Aeroespacial e de Defesa.
Mais do que acompanhar essa transformação, a BIZU pretende contribuir para que ela aconteça.
Questionados sobre onde imaginam a empresa na próxima década, eles preferem destacar o propósito que orienta todas as suas decisões desde a sua criação.

Time da BIZU Space – cultura organizacional baseada na resiliência

“Queremos que a Bizu seja motivo de orgulho para os brasileiros. Afinal, ela foi feita por brasileiros e para brasileiros.”
Arthur Bahdur

E deixam também uma mensagem para estudantes, empreendedores e ex-alunos que desejam apoiar iniciativas capazes de transformar conhecimento em inovação, ao resumirem a filosofia que orientou a criação da startup:

Costumamos dizer que a Bizu é o nosso Ikigai:
‘Faço aquilo de que gosto, aquilo em que sou bom,
aquilo de que o mundo precisa e pelo qual posso viver.’

Não busquem apenas objetivos de curto prazo.
Procurem deixar uma marca no mundo.”

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Nota da ITAEx

Nessa reportagem especial sobre a BIZU Space fica claro como o ambiente acadêmico pode se transformar em um catalisador de inovação com impacto nacional. O lançamento do FTL-Perseu, a participação no desenvolvimento do MLBR e o avanço de tecnologias como o motor ARION demonstram que o conhecimento produzido no ITA, quando aliado ao empreendedorismo e à cooperação entre academia, governo e indústria, pode gerar resultados concretos para o fortalecimento do Programa Espacial Brasileiro (PEB).
Ao reconhecer o ITA Rocket Design como o berço da empresa e manter uma parceria ativa com as novas gerações de estudantes, a BIZU também reforça um valor que está no centro da missão da ITAEx: apoiar iniciativas acadêmicas que formam líderes, estimulam a inovação e contribuem para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.
Histórias como a da BIZU mostram que investir nos alunos de hoje é criar as condições para que, amanhã, novas empresas brasileiras ampliem a capacidade do País de desenvolver tecnologias estratégicas, fortalecer sua Base Industrial Aeroespacial e de Defesa e consolidar um acesso soberano ao espaço.

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