Engenheiro mecânico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), mestre em engenharia com pesquisa na área de estruturas para foguetes e fundador da CENIC, Ralph Corrêa (T74) acompanha há décadas a evolução do setor aeroespacial nacional. Aos 75 anos, natural de Santos (SP), ele segue envolvido em projetos estratégicos e vê no MLBR (Microlançador Brasileiro) uma oportunidade concreta para impulsionar a indústria espacial brasileira.
Em entrevista à ITAEx, Ralph falou sobre a influência da formação no ITA em sua trajetória, a criação da CENIC, os desafios técnicos e de gestão do MLBR, a importância da integração entre iniciativa privada e governo, além das perspectivas para o futuro do País no cenário espacial internacional.
A herança do ITA: resiliência e coragem para enfrentar desafios
Ao recordar os anos de formação no ITA, onde ingressou em 1970, Ralph Corrêa destaca valores que considera decisivos ao longo de toda a carreira.
Segundo o iteano, entre os inúmeros legados da instituição, sobressaem a resiliência, a disposição para enfrentar problemas complexos e a capacidade de aceitar desafios com responsabilidade, mas sem receio.
Essa postura, afirma, acompanhou a criação da CENIC, fundada na década de 1990 ao lado de José Ilton (T66), já falecido, e Francisco Dias, mestre pelo ITA na área de estruturas ablativas para propulsores sólidos.
Ao longo dos anos, a empresa consolidou atuação em projetos espaciais no Brasil, com resultados relevantes tanto no universo dos satélites, em trabalhos junto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e à Agência Espacial Brasileira (AEB), quanto em veículos lançadores, em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).

“Dentre os inúmeros componentes da herança bendita do ITA, destaca-se a resiliência, o não receio de atacar e resolver problemas” – afirma Ralph Corrêa (T74)
Excelência, responsabilidade e impacto além do setor aeroespacial
Ralph observa que atividades espaciais envolvem riscos inerentes e exigem alto grau de responsabilidade. Por isso, segurança, rigor técnico e busca contínua por excelência fazem parte do cotidiano da empresa.
Ele ressalta que essa cultura de excelência transborda positivamente para outros segmentos onde a responsabilidade técnica também é essencial.
Como exemplo, cita a SELAZ, empresa brasileira da área da saúde criada por iteanos e especializada em soluções avançadas para restauração óssea. Spin off da CENIC, a empresa é dirigida por Diogo Lauda (T09), que iniciou sua trajetória profissional como estagiário na própria CENIC.
Hoje, segundo Ralph, a SELAZ já superou a marca de fornecimento de equipamentos para mais de dez mil cirurgias, atendendo instituições como o Hospital das Clínicas, em São Paulo, a Rede Sarah Kubitschek, em Brasília, e o Hospital Municipal de São José dos Campos.
MLBR: disciplina técnica e visão estratégica

Entre os projetos atuais mais relevantes está o desenvolvimento do MLBR, descrito por Ralph como o primeiro lançador brasileiro de microssatélites concebido desde a origem com um plano estratégico de negócios.
Ele explica que os desafios diários são amplos: técnicos, financeiros, orçamentários e relacionados a cronogramas. Nesse contexto, a Disciplina Consciente, aprendida desde a formação no ITA, torna-se elemento central.
Para ele, trata-se do alicerce de uma conduta técnica e operacional sólida, sem espaço para improvisações ou assunção desnecessária de riscos, especialmente quando envolvem pessoas.
“Disciplina Consciente é alicerce de uma sólida conduta técnica e operacional que não faz concessões a improvisações.”
Coordenação de um grande arranjo industrial
O desenvolvimento do MLBR ocorre, nos termos do edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por meio de um arranjo empresarial liderado pela CENIC, com quatro empresas coexecutoras e outras três fornecedoras estratégicas.
Atualmente, cerca de 100 profissionais atuam diretamente no projeto, incluindo mais de 20 engenheiros formados pelo ITA.
O caráter multidisciplinar do programa exige integração entre organizações de diferentes portes e culturas técnicas. Embora a CENIC já acumulasse experiência em projetos cooperativos, especialmente no segmento de satélites, a coordenação de um esforço dessa magnitude segue sendo um desafio relevante.
Ralph atribui parte importante do sucesso alcançado até aqui ao trabalho de Toshiaki Yoshino (T77), diretor de programas de uma empresa parceira no projeto e responsável pela engenharia de sistemas do lançador.
Ninguém faz isso sozinho
Na avaliação de Ralph Corrêa, o desenvolvimento de um lançador de satélites no cenário atual brasileiro somente é possível com perfeita articulação entre setor produtivo e agentes governamentais.
Do lado empresarial, ele destaca a necessidade de reunir competências complementares, tornando inviável que uma única companhia conduza isoladamente todas as frentes do projeto.
Do lado governamental, aponta dois pilares fundamentais: o apoio financeiro viabilizado pela Finep e o uso pleno das capacidades já instaladas no País ao longo das últimas décadas, como laboratórios especializados, facilidades de carregamento de motores e campos de lançamento.
“Ninguém fará isso sozinho! A harmonia entre todos os participantes é condição básica para consolidar o acesso brasileiro ao espaço de forma independente”.
Uma oportunidade comparável à criação da Embraer
Ao comentar o impacto potencial do MLBR, Ralph afirma que o Brasil vive uma oportunidade única, comparável ao momento histórico que levou à criação da Embraer.
Ele relembra que tudo começou com o desenvolvimento dos protótipos do Bandeirante, somado à convicção governamental na capacidade da engenharia nacional, especialmente iteana, e à realização de encomendas que permitiram os primeiros passos da indústria aeronáutica brasileira.
Na visão do empresário, o MLBR guarda forte semelhança com esse processo: protótipos estão sendo desenvolvidos e, com políticas públicas adequadas que viabilizem produção continuada, o projeto poderá inserir o Brasil no mercado global de serviços de lançamento de satélites.
“O MLBR traz muita semelhança com essa realização histórica.”
Sinergia entre gerações e instituições
Ralph observa que o projeto reúne profissionais de diferentes gerações. De um lado, integrantes da chamada velha guarda, grupo no qual se inclui, após ter trabalhado no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) por 12 anos nas décadas de 1970 e 1980. De outro, jovens engenheiros formados na moderna graduação em Engenharia Aeroespacial do ITA.
Segundo ele, para muitos dos envolvidos, os fundamentos ligados ao desenvolvimento de foguetes nasceram no IAE. Essa base acumulada ao longo dos anos, combinada à renovação de talentos, está refletida nas soluções técnicas implementadas no MLBR.
Ele detalha que o veículo utilizará três motores. O propulsor do primeiro estágio, completamente novo, terá estrutura em fibra de carbono e capacidade para nove toneladas de propelente. O segundo estágio possui alguma similaridade conceitual com o motor S-44, desenvolvido para o antigo Veículo Lançador de Satélites (VLS), embora seja inteiramente novo em projeto, combustível e arquitetura estrutural. Já o terceiro estágio, responsável pela inserção orbital do satélite, também é novo, embora inspirado em estudos considerados pelo IAE nos anos 1990, durante a gênese do Veículo Lançador de Microssatélite (VLM).
Para Ralph, esse conjunto evidencia a capacidade brasileira de realizar projetos de alto nível por meio de cooperação público-privada bem articulada.
São José dos Campos como vantagem competitiva
A proximidade com o ecossistema tecnológico da região de São José dos Campos também é apontada como diferencial estratégico.
Ralph lembra que as demandas espaciais no Brasil ainda são esporádicas e que manter, isoladamente, uma plataforma produtiva completa em todas as áreas exigidas seria economicamente inviável. Por isso, parcerias sempre fizeram parte da trajetória da CENIC.
A convivência próxima com instituições como DCTA, IAE, Usina Coronel Abner (UCA), INPE e Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP) facilita interações e acelera soluções.
Entre os exemplos citados está a parceria com a Fibraforte, criada pelos iteanos Jadir Nogueira Gonçalves (T85) e Thomas Leomil Shaw (T85), empresa com a qual a CENIC participou do desenvolvimento das estruturas dos satélites da série CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), atualmente em órbita.
Reconhecimento internacional e orgulho nacional
Ralph também menciona com orgulho que a CENIC foi a única empresa brasileira habilitada pela Thales Alenia Space, da França, para fornecimento de componentes embarcados no SGDC (Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas) adquirido pelo Brasil.
Além da atuação em lançadores, a empresa mantém presença no segmento satelital, desenvolvendo estruturas e inclusive para painéis solares.
Em tom bem-humorado, costuma dizer que, se o setor espacial fosse um grande hospital, a CENIC seria responsável pelo departamento de ortopedia, cuidando dos “esqueletos”.
Finep e a virada de página do setor espacial
O edital da Finep para veículos lançadores representa uma virada de página no avanço das atividades espaciais brasileiras, e a aproximação entre setor produtivo e agentes governamentais traz benefícios inequívocos ao País e repete, em certa medida, a lógica que impulsionou a indústria aeronáutica nacional.
A atuação coordenada do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), da Finep e da AEB acerta ao estabelecer metas, estimular cooperação e direcionar investimentos para um setor estratégico e gerador de múltiplos retornos.
Benefícios que vão além dos satélites
Ralph ressalta que o investimento espacial produz ganhos muito além das aplicações diretas dos satélites. Entre eles, destaca a formação contínua de recursos humanos altamente qualificados, que posteriormente se espalham por outros segmentos da economia, levando conhecimento e inovação. Também menciona a criação de novas empresas de base tecnológica e a troca de conhecimentos entre diferentes áreas avançadas.
Como exemplo, cita o desenvolvimento de catalisadores para o sistema de controle do MLBR, conduzido em laboratório implantado na UNIVAP pela Petrobras.
Mais uma vez, retoma o caso da SELAZ como demonstração concreta de como competências originadas no setor aeroespacial podem gerar soluções transformadoras na área médica.
Mercado global
Ao comentar o avanço do chamado New Space (movimento que nasce da transformação do modo tradicional de administrar as atividades espaciais), Ralph observa que o nicho de lançamentos de pequenos satélites cresce continuamente no mundo. E reconhece que a concorrência internacional será intensa e que novos entrantes enfrentam barreiras técnicas relevantes até amadurecerem um produto confiável.
Mesmo assim, demonstra confiança plena na capacidade da engenharia brasileira de viabilizar o MLBR e tornar o País ator importante nesse mercado.
Entre os diferenciais estratégicos, cita o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), cuja proximidade com a linha do Equador contribui para operações mais eficientes e com menores custos.
Investir em quem vem depois
Além da atuação industrial e tecnológica, Ralph Corrêa destaca o compromisso da CENIC com a formação das novas gerações de engenheiros.
A empresa apoia iniciativas acadêmicas do ITA, entre elas as equipes e ITA , projetos reconhecidos por aproximar os alunos de desafios reais de engenharia, desenvolvimento de produtos, testes e trabalho em equipe.
Segundo Ralph, a conexão com estudantes também se dá por meio de oportunidades de estágio, permitindo que alunos vivenciem, ainda durante a graduação, atividades conduzidas pela CENIC em projetos estratégicos do setor aeroespacial.
A iniciativa reforça a integração entre experiência industrial e formação acadêmica, criando pontes entre sala de aula, inovação e mercado.
Aos atuais alunos do ITA e aos jovens interessados em seguir carreira no setor aeroespacial, o iteano deixa uma recomendação direta:
“É preciso gostar genuinamente de engenharia”.
Segundo ele, trabalhar nessa área exige lidar continuamente com temas técnicos em profundidade, seja como calculista, engenheiro de sistemas, gestor ou empreendedor.
Em contrapartida, define o setor como apaixonante, dinâmico e absolutamente sem monotonia.
Para aqueles com espírito empreendedor, vê ainda muitas oportunidades de novos negócios, especialmente com apoio de agências de fomento estaduais e federais, como Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Finep.
O próximo passo para o Brasil

Ao olhar para o futuro do Programa Espacial Brasileiro (PEB), Ralph resume sua visão em uma ideia central: replicar, no mercado de lançamentos, as ações governamentais que permitiram a consolidação da indústria aeronáutica nacional. Para ele, com continuidade, visão estratégica e confiança na capacidade técnica brasileira, o País pode transformar o espaço em mais uma fronteira de desenvolvimento, inovação e soberania tecnológica.



