Engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Jairo Martins da Silva (T74) tem uma carreira profissional marcada pela excelência técnica, liderança em grandes organizações e um compromisso contínuo com a disseminação da cultura da qualidade no Brasil.
Trajetória e conexão com o ITA
Natural do Recife (PE), sua entrada no ITA foi resultado de persistência. Sem condições financeiras para estudar fora, encontrou informações por meio de uma família, cujo filho já estava na instituição.
“O curso de Engenharia Eletrônica não era oferecido nas universidades de Pernambuco, apenas Engenharia Elétrica de Alta Potência. Eu só sabia que existia o ITA por meio dos exercícios dos livros de matemática. Não tínhamos recursos para estudar e viver fora do Recife”.
Só foi aprovado na segunda tentativa, iniciando também uma história familiar marcante, com três irmãos ingressando no ITA posteriormente.
Mais do que a formação técnica, Jairo Martins destaca o impacto da Disciplina Consciente (DC) como um dos maiores legados do ITA. Para ele, trata-se de um princípio que ultrapassa o ambiente acadêmico e passa a orientar toda a vida pessoal e profissional, sendo base para a busca contínua pela excelência.

Com colegas do H8 no primeiro ano do ITA (da esquerda para a direita):
Em pé: Dagoberto Hélio Lorenzetti, Jairo Martins da Silva e Rildo Pragana (in memoriam). Sentados: Manoel Messias Moreira Mello e Luiz Martinho Maia de Souza

Jairo Martins recebendo o diploma de formatura das mãos do reitor do ITA, Professor Luiz Cantanhede Filho. De costas, o Brigadeiro Paulo Victor da Silva e o Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho (Paraninfo da T74)

O então aluno Jairo Martins – dedicação ao estudo no H8

Ministrando palestra sobre Qualidade e Gestão aos mestrandos em Odontologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de São José dos Campos
Sua trajetória profissional teve como eixo principal a atuação na Siemens, onde trabalhou por 35 anos, sendo 27 no Brasil e oito na Alemanha. Ao longo desse período, acompanhou diferentes gerações da telefonia, dos sistemas eletromecânicos aos celulares, participando da implantação de soluções em diversos países da América Latina e da África.

Carlos Goulart (colega da Siemens) e Jairo Martins no Seminário FutureCom de Soluções e Sistemas de Telecomunicações
Foi nesse ambiente que consolidou um dos princípios que marcariam sua carreira: “fazer certo desde a primeira vez”. Outro ponto decisivo foi a decisão de “falar a língua do patrão”, que ampliou suas oportunidades internacionais e o levou à vice-presidência na área de soluções de tecnologia da informação e telecomunicações.
Após sua aposentadoria da Siemens, assumiu a presidência executiva da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), onde permaneceu por uma década. Hoje, mantém forte atuação voluntária em diversas instituições como diretor-presidente da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ), conselheiro curador na Fundação Casimiro Montenegro Filho (FCMF), 1º vice-presidente da Liga Solidária, Membro e Consultor Técnico da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça – ligada ao Ministério da Agricultura, e conselheiro curador da Fitec Labs – um instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) credenciado pelos diversos órgãos brasileiros, habilitado a celebrar convênios com empresas beneficiárias das Leis de Incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológicos.
“Todos esses pontos de inflexão contribuem para a minha longevidade ativa” – declara Jairo Martins.

Equipe da FCMF – Fundação Casimiro Montenegro Filho
Ao longo dessa trajetória, sua visão sobre qualidade também evoluiu. Se antes o conceito estava mais associado aos atributos de produtos e serviços, hoje ele defende uma abordagem sistêmica, que permeia toda a organização, desde o propósito até os impactos gerados, sempre com base no tripé da sustentabilidade (ambiental, social e econômico), aliado à ética e à boa governança.
Nesse contexto, Jairo Martins faz uma distinção clara entre o “fazer bem-feito” e a gestão da qualidade. Enquanto o primeiro remete a uma visão pontual e isolada, a segunda exige uma abordagem integrada e holística, que considera processos, insumos, pessoas e resultados de forma interdependente.
Para que isso se concretize, ele destaca o papel central da cultura organizacional, sustentada por valores sólidos, liderança ética e capacidade de execução consistente.

Acadêmicos da Academia Brasileira da Qualidade no Seminário ABQ da Qualidade em 2025, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)
Ao analisar o cenário internacional, observa que, apesar dos avanços obtidos nas décadas de 1980 e 1990 com a disseminação dos conceitos de qualidade, houve um enfraquecimento desse movimento nos últimos anos, com predominância da dimensão econômica em detrimento de uma visão mais equilibrada.
Ainda assim, reconhece alguns exemplos internacionais relevantes, como Singapura, Japão e países nórdicos, embora aponte a existência de um “hiato de lideranças” em nível global.
No caso brasileiro, sua análise é crítica. Ele destaca poucos casos de excelência, como Embraer, ITA e Embrapa, e questiona a viabilidade de avanços consistentes em qualidade e gestão em ambientes marcados por práticas de corrupção e ausência de governança efetiva.
Essa mesma visão se reflete em sua análise sobre os desafios da melhoria contínua. Para ele, a ausência de referências positivas e a cultura da impunidade dificultam a consolidação de práticas consistentes nas organizações.

“Uma cultura organizacional forte e positiva, baseada em valores e comportamentos, é o alicerce para o cumprimento do propósito de qualquer organização, por meio de uma execução impecável, seja pública, privada ou sem fins lucrativos. Para que isso se concretize, é necessária uma liderança preparada, firme e ética, aberta ao diálogo, praticante de feedbacks assertivos e que seja vista como um exemplo a ser seguido”.
Diante disso, defende que a qualidade deveria ser tratada como uma política de Estado, e não como iniciativas pontuais, reforçando a necessidade de transformar discurso em execução.
Ao olhar para o futuro, Jairo Martins é direto: não há evolução da qualidade sem educação e ética. Para ele, esses são os pilares fundamentais para a construção de governos competentes, empresas responsáveis e uma sociedade engajada.
O engenheiro também chama atenção para o uso da tecnologia e da inteligência artificial, destacando tanto seu potencial quanto seus riscos. Segundo ele, sem processos bem definidos, a tecnologia pode amplificar problemas, e afirma: “o caos digitalizado é pior do que o manual”.
À frente da ABQ, reforça o papel da instituição na disseminação do conhecimento e na mobilização da sociedade. Em seus quase 16 anos, a entidade tem atuado por meio de publicações, eventos e debates, reunindo nomes de grande relevância nacional.

Discurso de posse como diretor-presidente da ABQ (março de 2023)
Para os próximos anos, a proposta é contribuir com a construção de um novo modelo de gestão para o Brasil, com iniciativas como a publicação de um livro voltado para governo, empresas e sociedade.
Outro eixo central de sua atuação é a retribuição ao ITA. Inspirado pelo lema “aprender, ganhar e servir”, o iteano vê como natural devolver à instituição parte do que recebeu ao longo de sua formação e carreira.
Segundo o entrevistado, o fortalecimento do ITA passa pelo engajamento dos ex-alunos, por meio de iniciativas como a ITAEx, a Associação dos Engenheiros do ITA (AEITA), o ITA Endowment e a própria FCMF.
“A minha motivação é retribuir
com a minha experiência de vida
e profissional com o ITA,
que me deu tudo!”
Os hobbies: cachaça e pintura
Além da carreira em engenharia e gestão, Jairo Martins também desenvolveu uma atuação singular como especialista em cachaça, interesse que surgiu durante sua vivência na Alemanha, ao perceber o desconhecimento e a desvalorização da bebida brasileira, inclusive no próprio Brasil.

1 – Palestra sobre cachaça em Shanghai
2 – Palestra e degustação de cachaças em New Deli, na residência do Embaixador
3 – Fazendo parte do corpo de jurados do II Concurso da Qualidade da Cachaça Paulista
4 – Palestra e degustação de cachaças em Budapeste, na Embaixada Brasileira
5 – II Concurso da Qualidade da Cachaça Paulista
6 – Equipe de juízes degustadores do Concurso Qualidade da Cachaça Paulista, na Secretaria de Agricultura de Estado
7 – Ministrando palestra sobre cachaça em Buenos Aires. Evento de promoção da Cachaça, organizado pelo IBRAC – Instituto Brasileiro da Cachaça e Embaixada Brasileira
A partir daí, passou a estudar o tema, realizar cursos na Europa, publicar livros e promover a cachaça internacionalmente. Hoje, já ministrou palestras e degustações em mais de 20 países.
Para o engenheiro, a relação entre cachaça e qualidade é direta: produzir uma boa cachaça exige rigor técnico, processos estruturados e conformidade com padrões, princípios idênticos aos da gestão da qualidade.
Em sua visão, seja na indústria ou na produção artesanal, a excelência depende de processos bem definidos, pessoas preparadas e uma cadeia de valor comprometida com propósito, sustentabilidade e ética.
Além de sua atuação na engenharia, na gestão e na valorização da cachaça brasileira, Jairo Martins também cultiva um lado artístico: a pintura a óleo. Iniciada aos 14 anos, de forma autodidata, a prática revela outra dimensão de sua trajetória, marcada pela sensibilidade, pela disciplina e pela busca constante por aperfeiçoamento, traços que também se refletem em sua visão sobre qualidade.
“Qualidade é cultura.
E o legado que desejo
deixar permanece alinhado
à minha origem no ITA:
a Disciplina Consciente”
Bate-bola
- Qualidade em uma palavra: cultura
- Um erro comum em gestão: mau exemplo
- Um princípio inegociável: ética
- Um conselho para jovens engenheiros do ITA: processo
- Um legado que gostaria de deixar: Disciplina Consciente
Nota da ITAEx
A entrevista com Jairo Martins evidencia como a Disciplina Consciente, cultivada no ITA, pode se desdobrar ao longo da vida em uma atuação pautada pela excelência, pela ética e pelo compromisso com resultados consistentes.
Sua contribuição à frente de organizações e, especialmente, sua atuação voluntária na FCMF refletem a compreensão de que qualidade não é apenas um método, mas uma cultura que se constrói diariamente, com responsabilidade, propósito e retribuição.
Mais do que uma carreira de destaque, sua história reforça o papel do ex-aluno na construção e no fortalecimento contínuo do ITA e de suas iniciativas.



