O engenheiro aeroespacial Wesley Proença de Camargo (T19) atua na linha de frente de um dos movimentos mais estratégicos para o País: viabilizar lançamentos orbitais a partir do Brasil
Sua trajetória rica e coerente reflete, em muitos aspectos, o momento atual do setor espacial no Brasil: desafiador, promissor e ainda em construção. Graduado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), construiu desde cedo uma formação que vai além da sala de aula, passando por pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), liderança estudantil no Centro Acadêmico Santos Dumont (CASD) e uma atuação marcante no projeto ITA Rocket Design, iniciativa estudantil que ajudou a impulsionar o surgimento de equipes de foguetes em diversas universidades do País.
Sua carreira profissional seguiu o mesmo ritmo intenso. No Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), assumiu a chefia da seção de Segurança de Voo de Foguetes brasileiros, lidando diretamente com análises de risco, trajetórias e decisões críticas de lançamento. Mais tarde, ampliou sua visão ao atuar como engenheiro de dados no setor financeiro, experiência que trouxe uma perspectiva estratégica e econômica às suas decisões técnicas.
Hoje, como Coordenador de Operações Aeroespaciais na Innospace, Wesley está envolvido em um dos maiores desafios e oportunidades do País: tornar o Brasil uma base viável, segura e competitiva para lançamentos orbitais.
Em um cenário global de rápida transformação tecnológica e lacunas regulatórias, seu trabalho contribui diretamente para a construção de caminhos, regras e estruturas que podem posicionar o País de forma relevante no setor espacial.
Nesta entrevista à ITAEx, ele compartilha aprendizados, desafios e uma visão clara sobre o que ainda precisa ser feito para que o Brasil aproveite, de fato, essa “chance de ouro”.
Origem e trajetória até o espaço
ITAEx – Você começou sua graduação em Engenharia Civil antes de migrar para o ITA. O que motivou essa mudança de rota e quando ficou claro que o setor aeroespacial seria seu caminho?
Wesley – Eu sempre gostei de desafios e, durante meu primeiro ano no ITA, vi acontecer algo antes impensável: um foguete retornando do espaço em marcha ré e pousando em uma balsa no oceano. Aquilo mexeu comigo profundamente e me fez refletir sobre as infinitas possibilidades de inovação no setor espacial.
ITAEx – Durante o ITA, você teve envolvimento intenso com o ITA Rocket Design. O que essa experiência representou na sua formação técnica e pessoal? Como vê essa iniciativa hoje como preparação dos alunos para o setor aeroespacial?
Wesley – O ITA Rocket Design foi uma formação à parte para mim. Foi um laboratório intenso, que não valia nota, mas que proporcionava uma experiência robusta e característica — algo que não vem da leitura de um livro na biblioteca.
Na minha visão, todo engenheiro deveria ter esse complemento experimental. Minha carreira hoje é muito baseada na experiência que tive no ITA Rocket Design.

Primeiro evento nacional do ITA Rocket Design – Competição Brasileira Universitária de Foguetes – COBRUF (2015)
Na época, éramos a primeira e única equipe de foguetemodelismo universitário do Brasil. Por isso, fomentamos e ajudamos a criar diversas outras equipes em universidades pelo País, oferecendo treinamentos, workshops, palestras e até mesmo apoio na construção dos foguetes.
Hoje, o Brasil conta com muitas equipes, e eu sinto que nosso trabalho não foi em vão.
ITAEx – Você foi medalhista na Olimpíada Latinoamericana Universitária de Física (OLUF) e teve forte atuação acadêmica em física e sistemas espaciais. Como essa base teórica impacta hoje seu trabalho com segurança de voo e análise orbital?
Wesley – Meu trabalho com lançamento de foguetes é resultado de muita física aplicada. Sempre gostei de experimentar as engrenagens que regem o universo – essa é a essência da engenharia – e vejo que uma base sólida em física, tanto pela formação no FUND quanto pelas atividades extracurriculares, como a OLUF, me tornou um engenheiro muito mais completo.
Acredito que a engenharia se faz melhor quanto mais física se domina. Essa bagagem me permitiu participar da criação de novas regras de lançamento de foguetes e contribuir para a elaboração de doutrinas no setor espacial brasileiro.
Segurança de voo e responsabilidade estratégica
ITAEx – Como foi sua experiência como chefe da Seção de Segurança de Voo de Foguetes no CLA?
Wesley – Apesar de haver pouco treinamento estruturado e suporte às atividades – reflexo do número ainda reduzido de especialistas nessa área no Brasil – foi uma experiência única e muito enriquecedora.
Aprender temas complexos de forma autônoma colocou à prova tudo o que vivi durante o ITA e reforçou minha capacidade de lidar com desafios de alta responsabilidade.
ITAEx – O Brasil vive um momento de retomada do setor espacial. Quais são hoje os maiores desafios técnicos e regulatórios para consolidar o país como base de lançamentos?
Wesley – Hoje, o mundo todo enfrenta desafios regulatórios, já que a legislação não consegue acompanhar o ritmo do progresso tecnológico das startups do setor aeroespacial. No Brasil, esse fenômeno é ainda mais evidente.
A falta de um arcabouço jurídico sólido para atividades comerciais de exploração espacial é, sem dúvida, um dos principais desafios que precisamos enfrentar – o que passa também por esclarecer e engajar lideranças políticas, instituições públicas e órgãos reguladores.
Liderança e missão na prática
ITAEx – Que aprendizados sua vivência na Força Aérea Brasileira trouxe para sua atuação profissional, especialmente em termos de liderança e gestão?
Wesley – Na FAB, tive contato tanto com atividades operacionais quanto administrativas. Ao longo desse período, desenvolvi competências em liderança, gestão de recursos, contratos e Direito Administrativo.
Aprendi a cumprir a missão mesmo diante de recursos escassos e, sobretudo, a valorizar as pessoas que seguem ao nosso lado, mesmo em condições adversas – amizades que levo para a vida toda.

Voo de T-27 na Academia da Força Aérea (2018)
Meus anos como militar foram extremamente proveitosos. Tive a oportunidade de conhecer outras instituições de formação militar, como a Academia da Força Aérea (AFA), a Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR) e a Escola Naval. Participei de grandes eventos e formaturas, liderei equipes, aprendi e também tive a oportunidade de ensinar.
Essa vivência reforçou em mim a convicção de que o Brasil pode e deve sonhar grande, à altura de suas dimensões e de seu potencial.
Innospace e lançamentos orbitais no Brasil
ITAEx – Hoje você atua para tornar viáveis os lançamentos orbitais da Innospace a partir do Brasil. O que isso representa para o ecossistema aeroespacial nacional?
Wesley – Estamos abrindo a trilha e pavimentando o caminho para que empresas e instituições possam, no futuro, utilizar a infraestrutura brasileira de lançamentos.
A atuação da Innospace no Brasil é um divisor de águas, pois tudo está sendo feito pela primeira vez, praticamente do zero. Não se trata de uma novidade apenas para o Brasil, mas de um movimento que acompanha transformações em escala global.
Esse cenário nos permite explorar ao máximo a criatividade brasileira na construção de caminhos, regras, parcerias e de todo um ecossistema.

Atuação da Innospace na Coreia (2024)
ITAEx – Estamos próximos de ver o Brasil se consolidar como um player relevante em lançamentos orbitais? O que ainda precisa acontecer?
Wesley – Essa é uma grande possibilidade. Temos uma chance de ouro nas mãos e não podemos desperdiçá-la.
A segurança técnica e a infraestrutura já existem – o que precisamos é dar continuidade ao treinamento de pessoal e à manutenção da estrutura existente.

Visita ao Jet Propulsion Laboratory (JPL), da Nasa (2016)
O que ainda nos falta é maior robustez jurídica e regras mais claras de regulamentação, para que empresas do mundo todo se sintam seguras em investir seu pessoal, equipamentos e capital em lançamentos a partir do território brasileiro.
Esse processo está avançando, mas precisamos de mais pessoas envolvidas para que isso aconteça antes que a oportunidade passe.
A experiência em engenharia de dados
ITAEx – Você fez uma transição temporária para o setor financeiro como Analytics Engineer. O que motivou essa escolha?
Wesley – Foi durante a pandemia de Covid-19. Eu precisava ajudar minha família, e o trabalho remoto era, naquele momento, a melhor opção.
Sempre trabalhei com programação e dados, de modo que essa transição aconteceu de forma natural. Apenas apliquei as mesmas ferramentas em um setor diferente – mas a essência do trabalho, no fim, é semelhante à de lidar com lançamentos de foguetes.
ITAEx – Quais competências em engenharia de dados e modelagem analítica hoje agregam valor à sua atuação no setor espacial?
Wesley – Antes da minha passagem pelo setor financeiro, eu me limitava a olhar apenas a parte técnica do que fazia. Hoje, consigo ter uma visão mais ampla, que inclui também os aspectos econômicos e financeiros das operações de lançamento – e não apenas a dimensão técnica.
Desenvolvi uma perspectiva mais empreendedora e de gestão estratégica, o que me permite estruturar operações do zero com mais liberdade e criatividade.
Liderança, formação e visão de futuro
ITAEx – Como a vivência em liderança estudantil como vice-presidente do CASD influenciou sua forma de atuar em ambientes estratégicos e regulatórios?
Wesley – Essa pergunta foi cirúrgica! Estar na liderança do CASD foi, sem dúvida, uma das experiências mais marcantes da minha formação no ITA.
À época, minha chapa, presidida pelo meu veterano e amigo Arthur Andrades Covatti (T18), conquistou resultados que nem nós mesmos imaginávamos possíveis. Criamos processos sólidos, corrigimos caminhos, estabelecemos parcerias e abrimos novos canais de comunicação com a Força Aérea Brasileira (FAB), empresas privadas, iniciativas do H8 e também com o próprio ITA, por meio da reitoria, das pró-reitorias, da ITAEx e da Associação de Engenheiros do ITA (AEITA).
Na prática, criamos novas regras para um jogo que supostamente já estava dominado — e isso moldou profundamente minha forma de pensar além das regras escritas, algo que levo comigo até hoje na minha atuação profissional.
ITAEx – Ao olhar para sua trajetória profissional, qual foi o papel do ITA na construção dessa mentalidade multidisciplinar?
Wesley – Acredito que a frase do Marechal Casimiro Montenegro Filho resume bem a formação que tive no ITA: “técnicos competentes e cidadãos conscientes”.
A formação vai muito além das aulas de cálculo, estatística e aerodinâmica. Sinto que saí do ITA com a capacidade de servir ao meu País, independentemente de onde eu esteja ou da área em que eu atue.
ITAEx – Para os alunos envolvidos hoje em iniciativas como ITA Rocket Design e projetos espaciais, que conselho daria?
Wesley – Sigam firmes nas iniciativas – elas são uma parte vital da formação de vocês. Eu não seria metade do profissional e cidadão que sou hoje sem as experiências extracurriculares que tive durante a graduação.
Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, sem arrependimentos.
ITAEx – O Brasil – por meio do ITA – pode formar profissionais capazes de liderar o setor espacial global? O que essa geração precisa desenvolver desde já?
Wesley – Certamente, podemos. O Brasil teve um desenvolvimento espacial tão admirável que chegou a ser replicado por países que hoje são referência no setor. Infelizmente, faltou continuidade.
Apenas a capacidade técnica não é – e nunca será – suficiente. É preciso ir além das aulas do ITA, desenvolvendo um pensamento estratégico, e não apenas operacional.
A próxima geração precisa fomentar todo o ecossistema espacial: formar parcerias, estabelecer novas regras, atrair capital, investir em educação e treinamento e, por fim, dialogar com lideranças políticas para que a atividade espacial no Brasil se consolide como um programa de Estado, e não apenas de governo.
Só assim teremos a continuidade e a robustez necessárias para um país com as dimensões e o potencial do Brasil.
NOTA DA ITAEx
A formação de engenheiros com sólida base técnica e consciência de seu papel no desenvolvimento nacional é um dos pilares do ITA.
Ao acompanhar trajetórias como a de Wesley Camargo, a ITAEx reforça a importância de apoiar o Instituto e contribuir para que novas gerações estejam preparadas para enfrentar desafios estratégicos do País.










