Ao longo de 76 anos, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) tem formado engenheiros que atuam em áreas estratégicas para o País. Para marcar o Dia da Engenharia, a ITAEx deu voz a Carlos Alberto de Paiva Carvalho (T85), que reúne experiência em desenvolvimento tecnológico e atuação na formação de novos engenheiros.
Sócio-fundador e diretor de Excelência da SIATT, Carlos Alberto é graduado em Engenharia Eletrônica, com mestrado em Engenharia Eletrônica e Computação pelo ITA. Construiu uma carreira voltada ao desenvolvimento de sistemas complexos, com atuação em simulação de veículos aeroespaciais, controle de sistemas aeronáuticos, hardware e software embarcado, além de sensores para guiamento de mísseis.
Ele também foi sócio-fundador e diretor da Mectron por 25 anos.
Desde 2018, atua como professor colaborador do ITA, na disciplina de Projetos Aeroespaciais Avançados, levando para a sala de aula a experiência acumulada ao longo de décadas em projetos estratégicos.
Nesta entrevista, ele analisa a evolução do setor no Brasil, marcada pelo avanço da Engenharia de Sistemas e pelo uso de gêmeos digitais, e reflete sobre os desafios da competitividade tecnológica, apontando o perfil do profissional do futuro: capaz de integrar conhecimentos, sistemas e pessoas.
Sua trajetória também evidencia o papel dos ex-alunos no fortalecimento do ITA, ao transformar experiência em aprendizado e retribuir à formação iteana, contribuindo diretamente para o futuro da engenharia no País.

“No ITA, ganhava todas as corridas de bicicleta na Olimpíada Interna. Nunca mais deixei de treinar” – declara Carlos Alberto
ITAEx – Ao longo de sua carreira, da Mectron à SIATT, o senhor esteve envolvido em projetos estratégicos e de alta complexidade. Como a engenharia brasileira evoluiu nesse período e quais são hoje os principais desafios para manter competitividade tecnológica?
Carlos Alberto — Na minha área, e em outras correlatas, percebo uma valorização crescente da Engenharia de Sistemas, acompanhada pela evolução dos programas de simulação e dos chamados gêmeos digitais. A Embraer tornou-se referência nesse campo, sendo capaz de chegar até o CDR (Critical Design Review) utilizando exclusivamente gêmeos digitais — um modelo que passamos a perseguir com intensidade.
Outro avanço importante está justamente na Engenharia de Sistemas, especialmente na definição de requisitos que agregam valor ao cliente, bem como nas ferramentas de gerenciamento e desdobramento desses requisitos, algo que era praticamente inexistente há 40 anos.
ITAEx – Disciplina Consciente (DC) é frequentemente associada à formação no ITA. Como o senhor interpreta esse conceito e de que forma ele se traduz, na prática, no desenvolvimento de sistemas críticos e projetos aeroespaciais?
Carlos Alberto – A Disciplina Consciente é um diferencial do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Posso dizer que, com alguns altos e baixos, hoje ela chega a ser mais levada a sério pelos alunos do que na minha época.
Na verdade, a DC não é uma ferramenta de engenharia, mas um princípio para a vida. Por trás do mantra “cola não é admissível”, existe um conjunto amplo de valores que molda a pessoa e sua forma de atuar, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
Trabalhar com pessoas autênticas, que levam a DC e seus valores a sério, é algo extremamente valioso.

No refeitório do ITA com colegas de turma (1985)
ITAEx – Como Diretor de Excelência da SIATT, quais são hoje as frentes mais promissoras em engenharia de defesa e aeroespacial no Brasil, e que papel os engenheiros terão nesse cenário?
Carlos Alberto – É difícil apontar frentes específicas como mais promissoras quando, na prática, todas são importantes e necessárias. Ainda assim, destacam-se os conceitos de Engenharia de Sistemas definidos pelo INCOSE (Conselho Internacional de Engenharia de Sistemas), o uso de ferramentas de simulação e de projeto baseadas em gêmeos digitais, e as metodologias de gerenciamento de projetos, como as estabelecidas pelo PMBOK (Project Mangement Body of Knowledge).
Essas áreas ganham relevância por seu caráter estruturante, pois orientam e integram o trabalho das demais disciplinas. Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo cada vez mais digital, o que torna as competências em software fundamentais. Ainda assim, é importante lembrar que sistemas complexos, inclusive os de software, se beneficiam diretamente de uma Engenharia de Sistemas sólida.

Missão de lançamento do Mansup pela SIATT
ITAEx – Olhando para o futuro da engenharia, especialmente no contexto de transformação digital, sistemas autônomos e integração de tecnologias, que tipo de profissional o mercado exigirá – e quais projetos ou iniciativas considera essenciais para preparar essa próxima geração?
Carlos Alberto – Os profissionais capazes de transitar por diferentes áreas do conhecimento são cada vez mais valorizados – um perfil típico de um bom engenheiro de sistemas. Não se trata de ser o maior especialista em um único campo, mas de ter uma base sólida que permita compreender como as diferentes áreas se conectam e contribuem para o todo.
Esse conhecimento mais “banda larga” não significa ser generalista abstrato, mas sim alguém capaz de modelar sistemas e definir interfaces, funções e requisitos com clareza. Além disso, é um profissional que sabe integrar pessoas, extrair o melhor de cada uma, sendo flexível sem abrir mão da assertividade.
Nesse contexto, as habilidades interpessoais ganham ainda mais relevância, muitas vezes até mais do que as habilidades técnicas. O profissional que consegue combinar excelência técnica com capacidade de relacionamento e de compreensão das pessoas de sua equipe é extremamente valioso.
Isso nos leva a uma reflexão: será que estamos preparando adequadamente nossos estudantes no campo das habilidades interpessoais? Ainda há um foco muito grande na excelência técnica, que é fundamental, mas representa apenas uma parte da formação de um bom engenheiro.
ITAEx – Ao retornar ao ITA como professor colaborador em 2018, o senhor materializa uma forma de retribuição à Alma Mater. Na sua visão, qual é o papel dos ex-alunos nesse ciclo de formação e, ainda, como essa devolução de conhecimento pode impactar o futuro da engenharia no Brasil?
Carlos Alberto – Poder dar aula no Instituto Tecnológico de Aeronáutica é uma forma de retribuir a formação extraordinária que recebi. Sou muito grato ao País e à Força Aérea Brasileira (FAB), a quem devo não apenas minha formação no ITA, mas também todo o aprendizado na área de desenvolvimento de mísseis.

Com alunos da Engenharia Aeroespacial – Turma 2025
Como sócio-fundador da Mectron e, posteriormente, da SIATT, posso afirmar que o conhecimento e as tecnologias que desenvolvemos – como no MAA-1 Piranha, no MAA-1B, no MAR-1 e no radar SCP-01 do AMX – são fruto de um investimento de longo prazo feito pela FAB. Sem o ITA e sem esse voto de confiança, não teríamos chegado até aqui.

“Como ex-aluno do ITA, sinto que tenho a responsabilidade de ir além da teoria ou dos métodos de projeto de mísseis. É fundamental compartilhar também as experiências vividas, inclusive os erros, para que as novas gerações possam aprender com eles. Durante minhas aulas, sinto que são os casos de experiências reais, os que deram certo e os que não deram, que mais despertam o interesse dos alunos.”
Carlos Alberto de Paiva Carvalho (T85)
NOTA DA ITAEx
A trajetória de Carlos Alberto de Paiva Carvalho (T85) evidencia o papel estratégico da Engenharia de Sistemas no desenvolvimento de soluções complexas e reforça a atualidade dessa formação diante dos desafios tecnológicos do país.
Nesse contexto, a expansão do ITA para Fortaleza, com a oferta de novos cursos, entre eles, Engenharia de Sistemas, representa um passo importante para preparar profissionais ainda mais conectados às demandas contemporâneas.
Sua atuação como professor colaborador do ITA também simboliza uma forma concreta de retribuição à formação recebida, ao transformar experiência prática em aprendizado para as novas gerações. Esse movimento reforça o papel dos ex-alunos em um ciclo virtuoso de fortalecimento do Instituto, essencial para o futuro da engenharia no Brasil.
