Hugo Santana de Figueirêdo Junior (T88), presidente da ETICE, analisa a convergência entre transição energética e inteligência artificial, o papel estratégico do ITA Fortaleza e os caminhos para um Brasil mais competitivo e inovador
Em um momento em que o mundo passa por transformações profundas, impulsionadas pela transição energética e pela rápida evolução da inteligência artificial (IA), o Brasil se vê diante de uma oportunidade histórica de reposicionamento estratégico. Para Hugo Figueirêdo, engenheiro aeronáutico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1988, a chave para aproveitar esse cenário está na combinação entre tecnologia, inovação e boa governança.

A T88 na foto com o Prof. Carl Hermann Weis
Com uma trajetória que transita entre consultoria estratégica, gestão pública, infraestrutura e academia, Hugo Figueirêdo ocupa hoje a presidência da ETICE – Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará, e acompanha de perto o posicionamento do Ceará como um dos principais polos emergentes na convergência entre energia limpa e infraestrutura digital.
Convidado a proferir a Aula Magna do ITA em 2025, ele retornou à escola onde se formou para falar sobre “Transição Energética: oportunidades para o Brasil e desafios para a Engenharia”, um tema que também se conecta diretamente ao novo campus do ITA em Fortaleza.
Nesta entrevista, ele compartilha reflexões sobre liderança, desenvolvimento, o papel do ITA nesse novo ciclo e as oportunidades que se abrem para as próximas gerações de engenheiros.

Em 2025, Hugo Figueirêdo retornou ao ITA para falar sobre “Transição Energética: oportunidades para o Brasil e desafios para a Engenharia”. Na foto com o reitor Prof. Dr. Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi (T82)
Origens e Formação
ITAEx – Que valores ou aprendizados do ITA mais marcaram sua formação como engenheiro e líder?
Hugo Figueirêdo: Uma parte do que somos vem do aprendizado ao longo da vida. Tive a felicidade de crescer em um ambiente familiar com muito amor e grande estímulo à educação.

Formatura da T88 no Ginásio de Esportes do CTA
Cheguei ao ITA aos 16 anos e saí aos 21. Nesse período, aprendi a importância do trabalho em equipe e da força dos grupos, mas também do autoconhecimento, de reconhecer limites e valorizar as próprias qualidades.

Comissão de Viagens em 1988
Foi no ITA que desenvolvi resiliência e a capacidade de olhar além do curto prazo diante das dificuldades, buscando sempre novas perspectivas. Também aprendi a estar preparado para mudar e continuar aprendendo, e a compreender como o trabalho do engenheiro pode ter impacto real na vida das pessoas e a responsabilidade de direcionar bem esse impacto.
ITAEx – Que significado teve ser o preletor da Aula Magna do ITA em 2025?
Hugo Figueirêdo: Recebi com muita honra e alegria o convite do reitor para ministrar a Aula Magna de 2025 do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, e o aceitei com grande senso de responsabilidade, e não apenas por abordar a transição energética e as oportunidades para o Brasil, um tema atual e central na minha atuação, mas também por entender que, de certa forma, eu representava todos aqueles que contribuíram para a minha formação pessoal e profissional. Confesso que nunca imaginei voltar ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) nessa condição. Durante a palestra, me vi na plateia, como aquele jovem aluno cheio de sonhos, e isso reforçou, mais uma vez, o quanto o ITA é capaz de transformar vidas.

O tema abordado por Hugo Figueirêdo na Aula Magna do ITA em 2025 se conecta diretamente ao novo campus do ITA em Fortaleza
ITAEx – Que relevância tem a Disciplina Consciente na sua vida profissional?
Hugo Figueirêdo: Algumas instituições formalizam suas regras éticas por escrito. No Instituto Tecnológico de Aeronáutica, esses princípios estão incorporados de forma tácita na chamada Disciplina Consciente (DC). Baseada na confiança mútua entre alunos e professores e na autodisciplina, ela faz parte do modelo educacional e da cultura do ITA. A DC associa liberdade à responsabilidade e valoriza o esforço individual na busca dos melhores resultados.

No início da formação no ITA, entoando a canção Cova Dela (1984)
Na minha vida profissional, atuar com ética e responsabilidade diante dos diversos interlocutores foi fundamental para construir a credibilidade que me permitiu chegar até aqui.
Liderança e Governança
ITAEx – Sua trajetória combina consultoria estratégica, gestão pública, empresas de infraestrutura e academia. Como essa diversidade moldou sua visão sobre governança?
Hugo Figueirêdo: Em linhas gerais, governança diz respeito aos mecanismos de decisão que permitem alinhar as escolhas dos representantes aos interesses das partes que eles representam. A academia me deu base para compreender esses fundamentos, enquanto a atuação em diferentes ambientes mostrou como a governança pode, na prática, aproximar interesses diversos. Cada instituição tem seu próprio processo decisório, que precisa evoluir conforme ela e o ambiente ao seu redor se transformam.

O lançamento do mestrado profissional do Instituto Tecnológico de Aeronáutica no Ceará foi em 2015 – primeiro curso do ITA fora de São José dos Campos. Na época, Hugo Figueirêdo era secretário do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag). Na foto, a colação de grau da primeira turma desses mestres
Quanto maiores e mais complexos os desafios, maior a necessidade de uma governança sólida e bem estruturada.
ITAEx – Novas cadeias de valor só prosperam com boa governança. O que significa governança, na prática, para um Estado que deseja se desenvolver?
Hugo Figueirêdo: Em cadeias de valor ainda em formação, há múltiplas instâncias de decisão e diversos atores que precisam ser coordenados até que os projetos saiam do papel e cada elo passe a operar. Para o Estado, isso significa não apenas formular boas políticas públicas, mas também saber priorizá-las e implementá-las, mesmo diante de interesses distintos e restrições orçamentárias. É justamente nesse contexto que a governança faz a diferença, ao garantir uma aplicação mais eficiente e eficaz dos recursos disponíveis.
ITAEx – Em que medida uma formação técnica sólida faz diferença na gestão pública?
Hugo Figueirêdo: A formação técnica sólida do ITA abre portas não apenas no setor público, mas em qualquer área de atuação. A capacidade de identificar e resolver problemas complexos é um ativo valioso em qualquer tipo de gestão. Na gestão pública executiva, isso se torna ainda mais relevante, já que esse perfil técnico nem sempre é predominante. Ao mesmo tempo, é fundamental que essa base seja complementada por habilidades comportamentais e socioemocionais, essenciais para lidar com pessoas, interesses diversos e tomada de decisão em contextos complexos.

Hugo Figueirêdo em uma reunião no Complexo de Pecém (CIPP)
Transição energética e IA
ITAEx – Duas grandes transformações simultâneas: transição energética e difusão da IA generativa. Por que essa convergência é tão estratégica?
Hugo Figueirêdo: Essas transformações, simultâneas e interligadas, estão redefinindo as matrizes de desenvolvimento e abrindo espaço para novas cadeias de valor, nas quais tecnologia e inovação se consolidam como bases da competitividade. Nesse cenário, modelos de negócio associados às estruturas tradicionais, tanto da energia fóssil quanto da tecnologia da informação não orientada por IA, tendem a perder relevância. Por outro lado, empresas e territórios que conseguirem se posicionar de forma competitiva nessas novas cadeias terão a oportunidade de redesenhar o mapa do desenvolvimento global.

Em 2020, Hugo Fiqueirêdo (então presidente da Companhia de Gás do Ceará – CEGÁS) esteve no Fórum Maranhense de Distribuição de Gás Natural. Ele foi presidente do Conselho da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) de 2022-2023
ITAEx – A IA demanda enorme capacidade energética. O Brasil está preparado para transformar esse desafio em oportunidade?
Hugo Figueirêdo: Nenhum país está plenamente preparado para esse desafio, mas alguns têm melhores condições de enfrentá-lo, e o Brasil é um deles. Em primeiro lugar, pela matriz elétrica: mais de 90% renovável e com potencial de geração superior ao consumo atual. Em segundo, pela infraestrutura de transmissão e distribuição integradas nacionalmente, que ainda precisa evoluir para atender grandes consumidores, como data centers, cuja demanda pode equivaler à de um estado inteiro, o que exige investimentos sustentados por um arcabouço jurídico e regulatório seguro. A segurança jurídica, aliás, é base para todas as etapas da cadeia.
Além disso, o País apresenta bom desempenho em infraestrutura digital, com avanços em 5G e acesso à internet. Por fim, há o sistema de inovação, que ainda precisa avançar, especialmente na educação e na capacidade de transformar pesquisa e desenvolvimento em inovação. É nessa combinação de fatores que está a chave para transformar o desafio em oportunidade.
ITAEx – O Ceará tem investido fortemente em energia renovável e infraestrutura digital. Quais fatores tornam o Estado competitivo nesse cenário?
Hugo Figueirêdo: O Ceará tem se posicionado de forma estratégica nessa convergência. O Estado do CE é ponto de aterramento de 16 cabos submarinos interoceânicos de fibra ótica, formando o maior entroncamento da América Latina, além de contar com um cinturão digital próprio de quase seis mil quilômetros. Soma-se a isso um enorme potencial de geração de energia eólica e solar, um sistema educacional público e privado entre os mais reconhecidos do País, e um conjunto de incentivos fiscais direcionados. Esses fatores, combinados, têm atraído investimentos relevantes tanto em energia limpa quanto em infraestrutura digital.
ITA Fortaleza e o desenvolvimento regional
ITAEx – O novo campus do ITA em Fortaleza é um alicerce da cadeia de valor do hidrogênio verde. Como enxerga o impacto desse projeto no longo prazo?
Hugo Figueirêdo: Assim como o ITA foi decisivo para transformar o Vale do Paraíba, em torno de São José dos Campos, em um dos principais polos tecnológicos do País, acredito que o novo campus em Fortaleza terá um impacto profundo na economia do estado.
A chegada do ITA no Nordeste ocorre em um momento de grandes transformações, tanto nas energias renováveis, com o hidrogênio verde, quanto na tecnologia da informação, com a inteligência artificial, áreas em que o Brasil, e o Ceará em particular, estão bem posicionados para se inserir de forma relevante nas novas cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, o projeto representa uma oportunidade de evolução institucional para o próprio ITA, ao gerir unidades geograficamente distintas, com ofertas complementares e maior integração às cadeias globais em formação.
ITAEx – O que significa, simbolicamente, para o Ceará receber o primeiro campus do ITA fora de São José dos Campos?
Hugo Figueirêdo: É resultado de mais de uma década de aproximação entre o ITA e o Governo do Ceará, impulsionada pelo fluxo contínuo de alunos cearenses e pela articulação entre diferentes níveis de governo, academia e setor privado. Esse movimento ganhou força a partir de 2015, com o lançamento, em Fortaleza, do primeiro mestrado profissional do Instituto fora de São Paulo, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), que formou dezenas de mestres.
Receber o primeiro campus fora de São José dos Campos representa, também, um retorno simbólico de um legado histórico: o de Casimiro Montenegro Filho, um dos maiores cearenses do País e idealizador do ITA.
ITAEx – Que mensagem deixaria para os jovens que ingressam no ITA já com a perspectiva de atuar nas engenharias de Energia e Sistemas?
Hugo Figueirêdo: Quando o ITA foi criado, em 1950, imagino que não tenha sido uma decisão simples para os primeiros alunos deixarem os grandes centros e se mudarem para o Vale do Paraíba, em busca de se preparar para uma indústria aeronáutica que ainda nem existia no Brasil.

No FUND, a T88 na “Festaninha”, em alusão ao apelido carinhoso da professora de Matemática, Tânia
De certa forma, os estudantes que hoje optam por atuar em Energias e Sistemas vivem um momento semelhante: estão se direcionando para áreas ainda em consolidação, mais distantes das cadeias tradicionais. A grande diferença é que, agora, essas novas cadeias de combustíveis renováveis e de tecnologia da informação baseada em inteligência artificial já começam a se materializar justamente no entorno do novo campus.
É uma oportunidade única de participar, desde o início, da construção de um novo ciclo de desenvolvimento.

T88 foi tema de reportagem da revista Voar – edição nº 61
Futuro e legado
ITAEx – Como imagina o Brasil daqui a 20 anos se conseguirmos integrar transição energética, infraestrutura digital e boa governança?
Hugo Figueirêdo: O Brasil já é um destaque global na cadeia de valor de alimentos. Se conseguirmos, com boa governança, nos inserir de forma competitiva também nas cadeias de energia e de tecnologia da informação, hoje centrais para o desenvolvimento, teremos dado um salto decisivo rumo ao status de país desenvolvido.
Isso significaria alcançar um PIB per capita da ordem de US$ 20 mil, aproximadamente o dobro do atual, além de um modelo de crescimento mais equilibrado do ponto de vista regional e mais inclusivo socialmente.
ITAEx – Ao olhar para sua trajetória — da T88 à presidência da ETICE — o que considera mais determinante: formação técnica, visão estratégica ou capacidade de articulação?
Hugo Figueirêdo: O mais determinante é justamente a capacidade de integrar esses três elementos ao longo da trajetória. A formação técnica permite compreender os fundamentos, a visão estratégica ajuda a antecipar implicações e oportunidades, e a capacidade de articulação é essencial para engajar diferentes atores, convencer e, sobretudo, executar.
ITAEx – Que conselho deixaria para os alunos do ITA que desejam atuar em liderança pública?
Hugo Figueirêdo: Em qualquer ambiente, são as pessoas que fazem a diferença. No setor público, em particular, os processos de decisão e implementação tendem a ser mais lentos do que no setor privado.

Hugo foi preletor no Seminário Internacional de Empreendedorismo do ITA, em outubro de 2025, no painel “Empreendedorismo Corporativo: desafios e oportunidades”.
Para avançar, é fundamental dialogar, compreender bem as partes interessadas e identificar o momento certo de agir. Além disso, é essencial construir credibilidade, não apenas técnica, mas também ética. Nos momentos mais desafiadores, especialmente diante de problemas complexos, são essas qualidades que fazem a diferença.
Sistema de Inovação Digital do Ceará
ITAEx – Há algum projeto em que esteja envolvido atualmente?
Hugo Figueirêdo: Sim, estamos trabalhando no fortalecimento do Sistema de Inovação Digital do Ceará, buscando aproveitar o fluxo de investimentos em infraestrutura, como data centers e redes de comunicação, para garantir a inserção competitiva do estado na cadeia de valor da informação digital.
Nesse contexto, contribuições da comunidade iteana são muito bem-vindas, especialmente na construção de caminhos que levem aos melhores resultados para o projeto.

Como presidente da ETICE, Hugo participou do painel “Nordeste como hub de conexões e data centers” no evento da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações – ABRINT Nordeste 2025.
Compromisso com o ITA
ITAEx – Qual a importância da ITAEx para o fortalecimento do ITA e de sua comunidade?
Hugo Figueirêdo: Acredito que a Associação tem um papel fundamental ao apoiar a excelência do ensino no ITA, por meio da captação de doações que financiam projetos educacionais específicos. Sua gestão, feita de forma voluntária por iteanos, reforça ainda mais esse compromisso com a instituição.
Mais recentemente, foi criado o ITA Endowment, voltado ao financiamento de projetos estratégicos de longo prazo. Junto com a Associação dos Engenheiros do ITA (AEITA), essas iniciativas formam um conjunto de entidades sem fins lucrativos que fortalecem e mantêm vivas as conexões com a comunidade e ampliam seu impacto.
Participar de qualquer uma dessas frentes é uma forma concreta de retribuir ao ITA e à sociedade, seja com ideias, seja com recursos, além de proporcionar a oportunidade de compartilhar bons momentos com antigos colegas. É muito gratificante contribuir, em qualquer nível, e ver os resultados desse esforço coletivo.
Nota da ITAEx:
A trajetória de Hugo Figueirêdo Junior reflete o papel do ITA na formação de líderes com excelência técnica, visão estratégica e compromisso com o desenvolvimento do País. Sua atuação, na convergência entre energia, tecnologia e governança, reforça a relevância do ITA e de sua comunidade na construção do futuro do Brasil.
