Com mais de 200 artigos científicos, dezenas de patentes internacionais e experiência em projetos de radar aerotransportado e satelital, o engenheiro eletrônico João Roberto Moreira Neto integra a equipe que colocou a Radaz no mapa mundial do sensoriamento remoto. O radar RD350, principal produto da empresa, simboliza o avanço da engenharia brasileira em um setor estratégico.
Sua história começa muito antes da sala de aula. Nascido no Rio de Janeiro em 1960 e criado em São José dos Campos desde os primeiros meses de vida, ele cresceu em uma família onde engenharia era assunto cotidiano. O tio, Carlos Henrique Moreira (T59), já era formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e o pai, o arquiteto Luiz Erasmo de Moreira, incentivou todos os filhos a seguirem o mesmo caminho.
João Moreira guarda com orgulho um resultado raro: seu pai foi o único com quatro filhos formados em eletrônica no ITA. E, mais do que números, é a prova de que a engenharia pode ser também uma história de família, de valores e de futuro, daqueles que começam com incentivo em casa e chegam a tecnologias que impactam o mundo.
Hoje, João Moreira é engenheiro-chefe da Radaz, empresa brasileira fundada em 2017 por especialistas em sensoriamento remoto que decidiram transformar conhecimento acumulado em uma solução inédita.

A Radaz, que é uma empresa familiar, tem como cofundadora Laila Fabi Moreira, filha de João Moreira, engenheira eletrônica formada pela PUC-Campinas, com mestrado e doutorado na Unicamp
Desde pequeno, nosso entrevistado já demonstrava fascínio pela eletrônica. Montava amplificadores com kits e circuitos de revistas, aprofundou-se no tema na ETEP e, logo depois, ingressou no ITA. Ali encontrou o ambiente ideal para transformar curiosidade em carreira.
“O ITA me trouxe a base sólida e ampla para me desenvolver na eletrônica.”
A base iteana que abriu portas no mundo
Durante a graduação, João realizou três anos de iniciação científica no Laboratório de Física do ITA, sob orientação do professor Roberto Ignacio Guglielmo Forneris. Essa experiência foi decisiva para conquistar uma bolsa de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na Universidade Técnica de Munique, em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão, o DLR.

Entre as lembranças da turma, a caricatura de João Moreira feita por seu colega Afonso de Campos Pinto (T82) traduz o espírito de amizade que atravessa gerações no ITA
Foi ali que começou sua trajetória em radares de abertura sintética (SAR), área na qual atua desde 1983. No DLR, trabalhou no radar aerotransportado E-SAR e participou do desenvolvimento de satélites da European Space Agency (ESA), como ERS-2 e ENVISAT.
A experiência internacional lhe deu visão estratégica para transformar ciência em tecnologia aplicada. Em 1996, liderou um spin-off dentro do DLR, criando a Aero-Sensing Radarsysteme GmbH, responsável por contratos de mapeamento em diversos países, incluindo projetos na Floresta Nacional de Tapajós, na Amazônia.
Em 2001, a convite da Diretoria de Serviço Geográfico do Exército Brasileiro retornou ao Brasil para contribuir com o mapeamento do chamado “Vazio Cartográfico da Amazônia”.
Pesquisa e inovação
Ao longo da carreira, João acumulou mais de 200 artigos científicos e mais de 50 patentes registradas em diversos países. Para ele, universidade e indústria são partes inseparáveis do avanço tecnológico.
“A pesquisa acadêmica é mandatória para termos produtos inéditos no mercado. Muitas soluções só surgem com a ajuda da universidade.”
Ele também colaborou com a formação de novos engenheiros, atuando como pesquisador convidado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coorientador de alunos do ITA, mantendo forte ligação com o ambiente acadêmico.
A Radaz e o radar que pesa apenas 5 kg
O principal produto da empresa, o RD350, é um radar SAR ultracompacto de apenas 5 kg, capaz de operar simultaneamente nas bandas C, L e P – algo único no mundo. Instalado em drones, ele permite monitoramento de áreas pequenas com precisão centimétrica, mesmo sob vegetação densa ou sem luminosidade.

Os maiores desafios foram desenvolver antenas leves, hardware de RF sensível, processamento digital em tempo real e navegação de alta precisão — tudo dentro de apenas 5 kg
A tecnologia já é utilizada por instituições em vários países e encontra aplicações em mineração, agricultura, monitoramento ambiental, infraestrutura e defesa civil.

Entre as aplicações do RD350 que mais impressionaram está a mineração, onde o radar reduziu custos operacionais e aumentou a segurança em operações complexas
Tecnologia brasileira no cenário internacional
Para João Moreira, a engenharia brasileira tem credibilidade global.
“A Embraer mostrou ao mundo que o Brasil é tecnologicamente competente.
A Radaz não encontrou rejeição por ser brasileira.”
Ele acredita que o país já é referência em sensoriamento remoto graças a instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Diretoria do Serviço Geográfico, mas ainda precisa ampliar o acesso a capital e valorizar soluções nacionais para acelerar a inovação.
O futuro do radar SAR
Os próximos passos da Radaz incluem ampliar a capacidade tomográfica dos sistemas, que é gerar imagens tridimensionais de objetos localizados debaixo da superfície da terra, incorporar inteligência artificial ao processamento e expandir o uso dos radares para drones maiores, aeronaves tripuladas, plataformas estratosféricas (HAPS) e satélites.
O sensoriamento remoto por radar será cada vez mais essencial para sustentabilidade, prevenção de riscos e eficiência operacional.
“Ele se tornará um componente insubstituível nas áreas onde já atua.”
Uma mensagem aos jovens iteanos
Ao olhar para sua própria trajetória, ele destaca o valor da aplicação prática do conhecimento.

“O mais importante é transformar conhecimento em solução prática ao mercado.”
E deixa um convite aos jovens engenheiros:
“Há um campo vasto a explorar e oportunidades para todos.”
Da curiosidade infantil montando circuitos ao desenvolvimento de radares usados em vários países, a história de João Moreira é um retrato da engenharia brasileira quando encontra oportunidade e propósito.
Para o engenheiro-chefe da Radaz, o essencial é claro:
“O mais importante é transformar conhecimento em solução prática ao mercado.”
Uma lição que ecoa no ITA, na ITAEx, na Radaz e no futuro da inovação nacional.

Entre amigos da T82, João Moreira participou do II Encontro de Vinhos ITAEx, realizado em junho de 2025, em São José dos Campos – um momento de celebração e reencontro da comunidade iteana
Apoiador da ITAEx, João Moreira transforma reconhecimento em oportunidade: sua contribuição ajuda a ampliar bolsas, projetos e iniciativas que fazem diferença concreta na formação de alunos do ITA. Em agradecimento, recebeu a Moeda ITAEx, símbolo do vínculo entre gerações que mantêm viva a missão de retribuir à alma mater.
