Marco Antonio Chamon: os rumos estratégicos do Programa Espacial Brasileiro

À frente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Chamon (T82) conduz uma agenda estratégica que combina soberania tecnológica, fortalecimento da indústria nacional e inserção do Brasil no cenário espacial global. Em um momento marcado pela ampliação da participação do setor privado, pelo avanço das cooperações internacionais e pela necessidade de formar novas gerações de especialistas, a AEB busca reposicionar o Programa Espacial Brasileiro (PEB) para os desafios das próximas décadas.

Nesta entrevista, o presidente da AEB detalha as prioridades da Agência, aborda o papel da formação de excelência, com destaque para o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) na construção do capital humano do setor, analisa os desafios de integração entre ciência, indústria e políticas públicas e apresenta a visão brasileira para a cooperação internacional e a exploração do espaço exterior. Ao final, deixa uma mensagem direta aos jovens que desejam trilhar caminhos inovadores e empreender no setor espacial.

AEB e visão estratégica

ITAEx – Quais são hoje as principais prioridades estratégicas da Agência Espacial Brasileira para o fortalecimento do Programa Espacial Brasileiro nos próximos anos?

Marco Antonio Chamon – A missão da Agência Espacial Brasileira continua sendo a de buscar autonomia para o País no setor espacial e benefícios para a sociedade brasileira. O programa espacial inicia-se formalmente em 1961, com a publicação do Decreto nº 51.133, de 3 de agosto de 1961, e, ao longo de sua existência, perseguiu essa missão principalmente por meio de projetos de governo. Projetos não apenas financiados pelo governo, mas executados e operacionalizados por instituições governamentais. No entanto, a evolução dos programas espaciais no mundo aponta para uma participação cada vez maior do setor privado em atividades que, anteriormente, eram exclusivas de governos. Acredito que o maior exemplo disso é o pouso na Lua da sonda Odysseus, da empresa americana Intuitive Machine, em 2024, que se tornou a primeira empresa privada a pousar na superfície lunar. Ainda que a sonda tenha tombado ao pousar, conseguiu enviar imagens da superfície. Outro exemplo é o sucesso de empresas como Space X e Rocket Lab em comercializar seus próprios foguetes para lançamentos de satélites.

Em vista disso, uma das prioridades da AEB é fomentar o setor privado brasileiro para que empresas privadas passem a desenvolver e comercializar seus próprios produtos e serviços, para além do fornecimento de partes e equipamentos para sistemas espaciais do governo. Esse é o primeiro passo para a internacionalização das empresas brasileiras. É necessário que elas passem a fornecer para outros clientes e não apenas para o governo brasileiro. Para que isso aconteça, é preciso ampliar o programa espacial, com uma cadência maior de aquisições no mercado nacional, permitindo que as empresas demonstrem maturidade no mercado internacional. A AEB busca também promover a criação de startups, em especial na área de aplicação de dados espaciais. Para isso criou o programa INCUBA Espaço que busca apresentar desafios de aplicações para o setor espacial, promovendo empresas iniciantes no setor.

Associada à promoção do setor privado, está a atração para a área espacial de setores que não são tradicionalmente ligados ao espaço ou que podem se beneficiar dele. Agricultura, óleo e gás, transportes, energia são setores que já utilizam dados espaciais, mas muitas vezes de forma parcial ou não sistemática. Eventos como o Workshop de Indústria Espacial, este realizado em abril de 2025, buscam conectar empresas que já oferecem produtos/serviços no setor espacial com setores do governo, financiadores e outras empresas que podem utilizar esses produtos/serviços.

Outra prioridade da Agência é a cooperação internacional. Além da possibilidade de dividir custos de projetos que normalmente são bastante caros, a cooperação busca a projeção do Brasil no exterior e a aproximação com outras agências espaciais para troca de dados e experiências. A AEB busca promover o multilateralismo nas colaborações internacionais, que é uma orientação geral do governo brasileiro.

Um terceiro eixo de ação é o trabalho com as novas gerações, procurando difundir as atividades espaciais na sociedade e inspirar os jovens para esse setor. O programa AEB Escola, com os vários projetos que ele engloba, procura difundir o conhecimento do setor espacial junto a estudantes e professores por meio de uma plataforma de educação a distância e de projetos de formação presencial, além do uso das atividades espaciais para as áreas STEAM. A AEB mantém um Centro Vocacional Tecnológico Espacial (CVT-E) no Rio Grande do Norte, dentro do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI).

Centro Vocacional Tecnológico Espacial: inovação e capacitação em tecnologia espacial no Brasil

O CVT-E mantém convênios com a prefeitura local e recebe alunos dos últimos anos do Ensino Fundamental e início do Ensino Médio para atividades de extensão relacionadas a foguetes, satélites e aplicações espaciais. Uma das metas da AEB é expandir esses centros pelo País, aproveitando a infraestrutura e o pessoal existentes em Universidades e Institutos Federais, a exemplo do que é feito no RN.

Finalmente, cabe mencionar a abertura do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) para uso comercial. Empresas nacionais e estrangeiras podem agora busca contratos comerciais de lançamento a partir do Centro, explorando a posição geográfica privilegiada (próxima ao equador).

Formação, ITA e capital humano

ITAEx – Como a formação em engenharia e ciência, como a oferecida pelo ITA, contribui para preparar profissionais capazes de atuar em áreas estratégicas do setor espacial brasileiro?

Chamon – A atuação no setor espacial é bastante ampla, incluindo disciplinas as mais diversas, como engenharia, física, computação, economia, administração e direito. A formação oferecida pelo ITA sempre foi muito requisitada pelo programa espacial, com vários engenheiros do ITA trabalhando no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e em empresas da região que fornecem produtos e serviços para o setor. A formação abrangente oferecida pelo ITA sempre foi um diferencial para o programa espacial. Em uma época em que não existiam programas de graduação e pós-graduação na área aeroespacial, a formação geral oferecida pelo ITA permitiu que os engenheiros rapidamente se adaptassem às demandas do setor. Atualmente, a formação do ITA, já com a graduação em engenharia aeroespacial e a pós-graduação em ciências e tecnologias espaciais, orienta-se cada vez mais para formar diretamente o especialista no setor espacial. Além disso, o  Centro Espacial ITA (CEI) permite o desenvolvimento prático de sistemas espaciais, gerando oportunidades de envolvimento direto com software, hardware, gerenciamento de projetos e engenharia de sistemas de pequenos satélites.

Centro Espacial ITA visa possibilitar um ambiente de ensino das práticas de desenvolvimento de sistemas espaciais, da sua concepção à operação

Ciência, indústria e inovação

ITAEx – Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios para aproximar ainda mais ciência, indústria e políticas públicas no setor espacial brasileiro?

Chamon – Há desafios importantes nessa aproximação. O financiamento do programa espacial é, sem dúvida, um deles. O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo, mas é 44º em investimentos no seu programa espacial. Em 2026, o orçamento para investimentos da AEB é de R$ 82 milhões, o que equivale a aproximadamente USD 15 milhões. O orçamento da Agência Espacial Italiana é de mais de USD 2 bilhões, sendo que os dois países têm o mesmo PIB. Atrair a academia, promover a indústria e contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas exigem um orçamento mais robusto.

A posse de Marcos Antonio Chamon como presidente da AEB, em 11 de julho de 2023, marcou o início de uma nova fase para o Programa Espacial Brasileiro

Um segundo desafio é o tempo. Necessidades operacionais imediatas, por exemplo o controle de fronteiras ou a mitigação de desastres naturais, não podem esperar o ciclo de desenvolvimento de sistemas espaciais, que é de vários anos. Por outro lado, não é possível demandar às instituições científicas que desenvolvam instrumentos para satélites em poucos anos. O ciclo das pesquisas é mais longo e quando se decide construir um satélite, por exemplo, em quatro anos, não é possível pedir às universidades que entreguem equipamentos prontos para voo em três anos, para início de integração. Nesses casos, é necessário um planejamento de longo prazo sobre os sistemas espaciais que se pretende construir e começar os investimentos com antecedência, permitindo que a academia possa realizar as pesquisas científicas e os desenvolvimentos tecnológicos no tempo adequado. Igualmente, quando se adquire sistemas no exterior, porque a demanda operacional assim o exige, é preciso também começar os desenvolvimentos nacionais, caso se pretenda que essa demanda seja suprida por sistemas nacionais no futuro.

Um terceiro desafio é a governança complexa do setor espacial. Embora a AEB coordene o programa espacial civil, várias iniciativas ocorrem em paralelo, em universidades, institutos de pesquisa e no próprio governo. Isso se deve, em parte, pela incapacidade da AEB de financiar projetos científicos e tecnológicos que estruturem o setor e atraiam os potenciais atores, como a indústria e a academia. Essa mesma incapacidade de financiamento impede que o setor se prepare para atender demandas operacionais de vários setores do governo. Por exemplo, a Polícia Federal mantém o Programa Brasil Mais, que adquire imagens e serviços da empresa americana Planet e que os distribui para mais de 500 instituições no País. A Polícia Federal tem demandas imediatas de informações diárias para suas necessidades de inteligência e segurança, o mesmo acontecendo para as instituições associadas. Seria interessante, inclusive por questões de autonomia nacional em uma área sensível como a segurança pública, que o País dispusesse de um sistema próprio. A demanda já está comprovada, visto o número de instituições participantes do programa. Já a academia tem desenvolvido seus próprios satélites educacionais, por vezes com apoio da AEB, mas na busca de sua própria capacitação no setor. Isso tem acontecido de forma independente em cada instituição.

Cooperação internacional e protagonismo do Brasil

ITAEx – O Brasil tem ampliado sua atuação em cooperação internacional no setor espacial. Como a AEB tem trabalhado para posicionar o País de forma estratégica nesse cenário global?

Chamon – Ciência e tecnologia em geral, e a área espacial em particular, têm sido usadas ao longo do tempo para ampliar a cooperação internacional. O espaço é considerado uma área de colaboração pacífica e (relativamente) neutra, o que permite uma aproximação entre países com menores tensões políticas e outras. A cooperação no setor espacial pode se estender desde a visita de pesquisadores e envio de estudantes, até o desenvolvimento de uma missão espacial conjunta, passando pela disponibilização de dados espaciais e a formação de pessoal. Dessa forma, é possível construir uma cooperação que comece com pequenos passos (e pequenos investimentos) e evolua para a participação conjunta em um satélite.

A AEB tem buscado posicionar o Brasil no cenário global em três frentes. A primeira refere-se a consolidação e ampliação da presença na América Latina e Caribe (ALC), liderando o setor espacial na região. Dos 33 países da ALC, poucos possuem agências espaciais ou instituições equivalentes, mas todos veem o Brasil como uma referência na região. Há muitas possibilidades de cooperação em áreas como distribuição de dados, direito espacial ou sustentabilidade espacial (questões sobre lixo espacial e uso de órbitas), e mesmo em ações conjuntas. Recentemente, assinamos um acordo com o  CNES – Centre national d’études spatiales na área de balões estratosféricos. Uma base de lançamento de balões está em construção no Tocantins, em colaboração com a Universidade Federal do Tocantins (UFT). Esses balões podem ser usados para testes preliminares de partes, equipamentos ou instrumentos espaciais e para experimentos científicos. Parte da capacidade de carga útil dos balões pode ser oferecida a parceiros na ALC, em cooperações científicas com universidades e instituições de pesquisa no Brasil. Isso amplia nossa presença na região permitindo, a custos razoáveis, a participação de outros países.

A segunda frente é nossa presença global. O protagonismo brasileiro em meio ambiente e mudanças climáticas abre caminhos para cooperação internacional nessas áreas. Além disso, a política de dados abertos praticada pelo Brasil influenciou outras agências no mundo e temos hoje vários países com políticas semelhantes. Esses fatores dão ao Brasil reconhecimento global e facilitam o acesso a outras agências. Nesse caso, buscamos acordos de acesso a dados espaciais, em especial para monitoramento do território e para atividades científicas. Temos acordos com os EUA na área de heliofísica e somos um hub do Copernicus, conjunto dos dados de observação da Terra da ESA (agência espacial europeia). Nossa cooperação com a China tem mais de 35 anos e estamos agora desenvolvendo mais dois satélites da série CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) em conjunto: CBERS-5, um satélite geoestacionário para meteorologia e meio ambiente; e CBERS-6 um satélite de imageamento com tecnologia de radar de abertura sintética. Temos ainda uma cooperação com a Argentina para uma pequena constelação de dois satélites, cada país construindo seu satélite na constelação. Trata-se de uma missão de observação de água: águas costeiras e oceânicas. Os próximos passos na área de cooperação internacional vão na direção da Coreia do Sul, devido a aproximação comercial já existente para uso da base de lançamento de Alcântara, no Maranhão; e com a Índia, que é uma orientação geral do governo brasileiro.

A terceira frente é a inserção do programa espacial brasileiro na exploração do espaço exterior. Nesse caso, a contribuição brasileira está baseada principalmente na ideia da existência futura de bases permanentes na Lua (a previsão é que até 2050 tenhamos duas bases lunares, uma liderada pelos americanos e outra pelos chineses). Somos signatários dos Acordos Artemis, um conjunto de boas práticas para a exploração lunar, liderados pelos EUA. Como contribuição a esses projetos lunares o Brasil apresentou dois projetos: o SelenITA, uma missão espacial conjunta entre o ITA e instituições americanas para estudos sobre campos magnéticos e transporte de poeira na superfície lunar; e o projeto Space Farming, para estudos de agricultura espacial, liderado pela EMBRAPA.

Além dessas frentes, o Brasil abriu para uso comercial o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, e está negociando essa utilização do CLA com empresas estrangeiras que fabricam foguetes lançadores de pequeno porte (de até 30 m de altura) e que buscam um local de lançamento. O primeiro contrato foi feito com a empresa sul-coreana Innospace, que lançou um foguete suborbital em março de 2023 e, recentemente, teve uma tentativa de lançamento (com falha) de um foguete orbital.

Mensagem final aos alunos e jovens engenheiros

ITAEx – Que mensagem o senhor deixaria aos estudantes e jovens engenheiros que desejam atuar no setor espacial e contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil?

Chamon – Comecem a pensar fora da caixa. No Brasil, o setor espacial está fortemente associado ao governo. Assim, quem deseja atuar no setor, se orienta quase que automaticamente para instituições públicas. Para os jovens, eu sugeriria que fossem ousados e buscassem o setor privado, inclusive empreendendo na área espacial. Procurem as experiências de empresas privadas atuando independentemente no setor espacial. Elas existem, particularmente na área de aplicações, mas não apenas nela. Por exemplo, a Bizu Space é uma empresa fundada por jovens engenheiros do ITA (o nome já diz tudo) para desenvolvimento de foguetes a propulsão líquida.

“Deem uma chance a vocês mesmos de empreender e criar algo no setor espacial. É difícil, exige muito esforço e conhecimentos que vão além do científico-tecnológico. Mas essa é a aventura da juventude!”
Marco Antonio Chamon – presidente da AEB

 

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