José Renato Oliveira Melo (T71): Engenharia, Memória e Retribuição

Formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA em 1971, o engenheiro aeronáutico José Renato Oliveira Melo construiu uma trajetória profundamente ligada à história da Embraer e ao desenvolvimento da engenharia aeronáutica brasileira. O iteano foi diretor de Engenharia e diretor de Anteprojetos da Embraer, e participou de praticamente todos os programas desenvolvidos entre 1972 e 2010, entre eles o Xingu, o Brasília, o CBA 123, a Família ERJ 145 e o Legacy. Em sua carreira, aliou rigor técnico, capacidade de aprendizado contínuo e uma visão humana da engenharia, valores que atribui diretamente à formação recebida no ITA.

Origens e ingresso no ITA

Nascido em 20 de janeiro de 1946, em São Luís, no Maranhão, José Renato mudou-se para São Paulo aos 16 anos, em 1962, onde cursou o colegial científico. Após uma primeira tentativa frustrada de ingresso no ITA, foi aprovado em 1967, depois de frequentar o cursinho Politécnico, conciliando trabalho durante o dia e estudos intensivos à noite.

“Foi um período de dedicação total, resolvendo provas antigas e aprendendo com professores de altíssimo nível”, recorda.

Foto geral da Turma de 1971 do ITA

Curiosamente, o interesse específico pela engenharia aeronáutica só se consolidaria mais tarde. Como ele próprio resume:

“O ITA me ensinou principalmente a aprender, a enfrentar desafios e a tentar resolver problemas mesmo sem ter todos os dados”.

Durante a graduação no ITA, a vocação foi se delineando aos poucos, mas ganhou forma definitiva após o ingresso na área de Aerodinâmica da Embraer. Ainda assim, o ITA foi determinante para sua formação. Segundo José Renato, mais do que conteúdos técnicos, a instituição ensinou a aprender, a enfrentar desafios complexos mesmo sem dispor de todos os dados e a trabalhar de forma colaborativa. O convívio no H8, como destaca, teve papel fundamental tanto em sua vida pessoal quanto profissional.

Desafios da formação

A trajetória no ITA não foi isenta de dificuldades. No segundo ano, enfrentou dependências acadêmicas ao tentar conciliar as exigências do curso com intensa participação no Centro Acadêmico Santos Dumont – o CASD, especialmente durante o conturbado ano de 1968. Já no quarto ano, quase teve a matrícula trancada por excesso de faltas, consequência de sua atuação em atividades musicais na cidade. Para ele, essas experiências foram decisivas para a formação de caráter e disciplina que levaria para a vida profissional.

Os primeiros anos na Embraer e o aprendizado na prática

Ao ingressar na Embraer, José Renato encontrou um cenário desafiador. Sobre esse início, relembra que tudo era feito praticamente do zero, com poucos recursos e muita disposição para aprender. Um dos primeiros grandes testes foi a certificação do Bandeirante no Brasil e no exterior, a primeira experiência do tipo tanto para a empresa quanto para a autoridade aeronáutica brasileira. Com poucos recursos e nenhuma experiência prévia, o processo exigiu aprendizado acelerado e cooperação intensa entre as equipes.

Entre os programas iniciais, o Xingu teve papel central em sua formação técnica, especialmente nas áreas de aerodinâmica, mecânica de voo e desempenho.

Muitos problemas precisaram ser resolvidos apenas durante os ensaios em voo, o que exigiu agilidade, criatividade e trabalho coletivo.

Já no programa Brasília, o desafio foi atender metas de mercado altamente inovadoras e cumprir, pela primeira vez, os rigorosos requisitos da certificação FAR 25.

Nesse caso, os maiores obstáculos se concentraram nas áreas de estruturas e sistemas.

 

Liderança técnica e grandes programas

A ascensão à liderança veio em um momento crítico da Embraer. Em 1998, três anos após a privatização, José Renato assumiu a Diretoria de Engenharia com a missão de ampliar significativamente os recursos humanos e técnicos para sustentar o desenvolvimento simultâneo de diversos programas, incluindo o início da família E-Jets. Diante da escassez de engenheiros aeronáuticos no Brasil, foi necessário buscar profissionais no exterior e, paralelamente, criar soluções estruturantes. Uma delas foi o Programa de Especialização em Engenharia Aeronáutica (PEE), desenvolvido em parceria com o ITA e que permanece ativo até hoje como mestrado profissionalizante.

Treinamento de gerentes da Embraer após a privatização da empresa

Em 2001, passou a liderar a recém-criada Diretoria de Anteprojetos, responsável pelos estudos conceituais e preliminares de novos programas, com o objetivo de reduzir mudanças durante a fase de desenvolvimento. Sob sua coordenação, nasceram projetos como o Legacy 600, primeiro jato executivo da Embraer, além dos Phenom 100 e 300 e do Legacy 500 (atual Praetor). A partir de 2008, participou ainda dos estudos conceituais do KC-390, último grande programa antes de sua aposentadoria, em 2010.

Entre tantos desafios, José Renato destaca o ERJ 145 como o mais marcante. Para ele, tratou-se de um projeto inovador em sua categoria, desenvolvido em um momento crítico da empresa, que exigiu ousadia técnica e grande capacidade de superação. Inovador por ser o primeiro jato regional da categoria, o projeto exigiu o estudo de diversas configurações e foi desenvolvido em um contexto de forte restrição de recursos, anterior à privatização da empresa. Já o CBA 123 permanece como um exemplo emblemático de excelência técnica. Com asa limpa e grande alongamento, apresentou desempenho superior aos concorrentes em diversos aspectos. Ainda assim, deixou uma lição clara: vantagem técnica, por si só, não garante viabilidade de mercado. Preço e sustentabilidade econômica são igualmente decisivos.

Em Belfast (Irlanda do Norte), durante um intervalo de uma reunião da Embraer sobre o Tucano, José Renato se aventura em uma foto na cerca do hotel que hospedava o evento.

Inovação, tecnologia e visão de futuro

Ao refletir sobre a evolução da engenharia aeronáutica, José Renato avalia que os avanços recentes foram mais incrementais, impulsionados sobretudo por melhorias em propulsão, materiais e digitalização. Para o futuro, o iteano enxerga oportunidades na integração entre novas tecnologias, desde que acompanhadas de rigorosos critérios de segurança e viabilidade econômica. Para os engenheiros de hoje, além do domínio de ferramentas computacionais, ele destaca a importância de uma visão generalista e de competências humanas essenciais ao trabalho em equipe.

Atuação após a Embraer e interesses atuais

Após deixar a Embraer, atuou por muitos anos como consultor de engenharia aeronáutica no Brasil e no exterior. Atualmente, dedica-se a interesses pessoais, como o estudo de teoria musical, a prática do teclado e a resolução de problemas matemáticos por prazer intelectual.

ITA, retribuição e compromisso com o futuro

A relação com nossa Alma Mater, no entanto, permanece central. Para José Renato, cabe aos ex-alunos retribuir ao País tudo o que receberam do ITA, seja por meio da geração de resultados tecnológicos e sociais, seja pelo apoio a jovens talentosos que não dispõem de condições financeiras para se preparar e se manter durante o curso. Preservar a cultura e o espírito do H8 também faz parte desse compromisso.

Memórias aerodinâmicas

A visão de memória e legado de José Renato se materializou recentemente no seu livro Memórias Aerodinâmicas: do Bandeirante ao ERJ145, publicado em 2024. Segundo o autor, a obra busca mostrar “como era fazer engenharia aeronáutica quando ainda estávamos todos aprendendo, sem as ferramentas disponíveis hoje, registrando uma memória que não podia se perder”.

No livro, ele intercala relatos técnicos sobre o desenvolvimento aerodinâmico dos primeiros aviões da Embraer com passagens pessoais de sua trajetória, desde o Maranhão até os anos marcantes no ITA. Ao revisitar esses episódios, reforça a importância de aprender com os erros, experimentar com ousadia e valorizar a cooperação entre pessoas: pilares que, segundo ele, seguem vivos na cultura da Embraer.

Mensagem aos alunos e ex-alunos do ITA

Para os alunos do ITA que sonham em atuar em grandes programas aeronáuticos, sua mensagem é clara: “O ITA não nos entrega respostas prontas, mas nos ensina a aprender e a usar as ferramentas ao longo de toda a vida profissional”.

Ele sugere, ainda, escolher uma área que desperte prazer genuíno, entender que o aprendizado é contínuo e que o ITA ensina sobretudo a aprender. Mais do que buscar ganhos imediatos, José Renato afirma que é preciso focar em entregar resultados, trabalhar em equipe e manter vivo o espírito colaborativo e curioso dos tempos de estudante.

Aos ex-alunos em posições de liderança, deixa uma recomendação simples e profunda: nunca esquecer que a engenharia é feita por pessoas, e também que mantenham sempre o coração de estudante.

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