Funcionário nº 450 da Embraer, formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA em 1964 e integrante do seleto grupo dos pioneiros do Programa Espacial Brasileiro, Satoshi Yokota atravessou quase quatro décadas no coração da engenharia nacional.
Foi engenheiro de sistemas, diretor industrial, vice-presidente executivo e se tornou conhecido como “o pai do ERJ-145”, o jato que tirou a empresa do buraco logo após a privatização. Mais do que isso: idealizou o Programa de Especialização em Engenharia (PEE), responsável pela formação de milhares de profissionais que sustentaram o crescimento tecnológico da companhia.
Hoje, aos 84 anos, já aposentado e afastado da rotina executiva, Yokota olha para trás com a serenidade de quem participou de projetos decisivos para o País, e com o orgulho contido de um líder que sempre acreditou no fortalecimento da técnica brasileira. Em conversa com a ITAEx, ele relembra como tudo começou.
✈️ O ITA e o novo padrão ético
Ao recordar os anos de graduação, Satoshi situa sua formação dentro de um movimento histórico maior. O ITA, criado logo depois da Segunda Guerra Mundial, chegava com conceitos novos e muito rigorosos para a época.
“Foi uma escola construída com bases fortes em teoria, cálculo e com um conceito muito firme de honestidade, que vem justamente da Disciplina Consciente. Os iteanos começaram a estabelecer um novo padrão ético e profissional no Brasil”, afirma.
Segundo ele, o Instituto não inventou esses valores, mas teve papel fundamental em reforçá-los num momento em que o Brasil iniciava seu processo de industrialização.
“Depois da guerra, o Brasil estava começando a se transformar: nasciam a indústria automobilística, as grandes estradas, a engenharia civil moderna, de telecomunicações, de computação. O ITA veio se agregar a esse movimento já existente e ajudou a fortalecer a técnica e o compromisso profissional.”
Para Yokota, havia uma conexão natural entre o projeto educacional do Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho e a necessidade real do País.
“A visão do Brigadeiro Montenegro, muito realista, reforçou o princípio da industrialização. O ITA deu credibilidade técnica e humana para que esse desenvolvimento acontecesse de forma sólida.”
✈️ Do espaço para a indústria
Antes mesmo de ingressar na Embraer, o jovem engenheiro teve uma experiência que ampliaria definitivamente seus horizontes. Em 1965, apenas um ano após formado, Satoshi Yokota foi selecionado para integrar o Grupo de Trabalho de Estudos e Projetos Especiais (GTEPE) e participar do treinamento da NASA nos Estados Unidos, tornando-se um dos 14 Magníficos Pioneiros do Programa Espacial Brasileiro.
“Para mim, aquilo teve várias vertentes. Primeiro, a oportunidade de sair do Brasil e ter contato com profissionais altamente qualificados da NASA. Foi como uma injeção de profissionalismo que recebi”, conta.
O objetivo do convênio era trazer conhecimento para que o Brasil pudesse montar e operar um campo de lançamento de foguetes. O treinamento resultaria, ainda em 1965, na histórica Operação SAFO, primeira ação de lançamento de foguetes realizada em território nacional.
“Também fui forçado a enxergar outros estados brasileiros e outras realidades. Eu conhecia basicamente São Paulo e São José dos Campos. De repente estava no Rio Grande do Norte, no Rio Grande do Sul, em regiões com estruturas e culturas diferentes.”
Ele lembra ainda do impacto humano daquela fase.
“Encontrei muita gente que nunca tinha visto um japonês na vida. Em alguns lugares havia até estranhamento. Aquilo me fez entender melhor o Brasil e suas diferenças.”
Muitos desses aprendizados seriam levados para a vida corporativa anos depois.
✈️ Os primeiros anos e a descrença inicial
Em 1970, Yokota ingressou na Embraer como engenheiro de sistemas, responsável pela parte elétrica dos modelos Ipanema e Xavante. A equipe era mínima: apenas três pessoas. Hoje, o mesmo setor reúne cerca de mil engenheiros.
“Naquela época, pouca gente apostava que ia ser um projeto vitorioso. Quando falavam em vender aviões brasileiros para os Estados Unidos, diziam: ‘isso é loucura!’”, relembra.
Para ele, o clima de ceticismo só foi superado graças à credibilidade dos fundadores.
“Realmente achavam que era só um protótipo. Foi extremamente difícil arranjar recursos. A visão do Brigadeiro Montenegro e de seus colegas foi fundamental para dar respaldo e credibilidade. O ITA e seus professores deram a base técnica que faltava para que o projeto fosse levado a sério.”
✈️ O degrau decisivo: o ERJ-145
Nenhum capítulo, porém, é tão emblemático quanto o do jato regional ERJ-145. Após a privatização da Embraer em 1994, a empresa estava fragilizada, quase sem fôlego financeiro. Era preciso provar ao mercado que a nova Embraer teria futuro. O ERJ-145 teve exatamente esse papel.
“Ele foi um dos degraus que a Embraer precisou galgar na sua busca de competência e competitividade. O movimento da privatização só teve sucesso porque a empresa tinha um produto com muita credibilidade”, explica.
Designado diretor do Programa em 1992, Yokota liderou testes, engenharia, compras, produção e a integração de parceiros nacionais e estrangeiros para que o projeto chegasse ao fim.
“Foi um desafio muito grande. Mas ele permitiu aos investidores acreditar que aquela empresa que estava saindo da falência seria capaz de desenvolver um avião e transformá-lo em sucesso comercial.”
A partir desse marco, sua carreira executiva ganhou novas dimensões: foi vice-presidente responsável pelo lançamento dos jatos Legacy e da família 170/190, e mais tarde sustentou o acesso da Embraer ao mercado de jatos leves com os modelos Phenom 100 e 300.
✈️ Formar gente para sonhar grande
No fim da década de 1990, com o sucesso do ERJ-145 consolidado, a Embraer buscava novos caminhos. Surgia a necessidade de crescer rapidamente o quadro técnico para dar suporte a programas cada vez mais complexos. Foi nesse ponto que nasceu a visão do Programa de Especialização em Engenharia – PEE.
“Havia uma estimativa de que precisaríamos recrutar algo como 400 engenheiros por ano. E simplesmente não existia essa fonte. Escolas como o ITA formavam 30 ou 40 por ano, ou seja, um décimo do que a empresa precisava.”
A primeira tentativa foi trazer engenheiros estrangeiros contratados por tarefa. Para Yokota, a experiência fracassou.
“Esses profissionais não tinham apego pelo projeto. Não tinham empenho em fazer o bem, bom e barato. Quando a tarefa acabava, ia embora o conhecimento.”
A solução foi outra, e inteiramente brasileira.
“A Embraer decidiu selecionar, entre milhares de engenheiros formados no Brasil, a nata para ser treinada no processo de engenharia aeronáutica. Escolhia 40 ou 50 por turma. Graças a Deus, a ideia funcionou.”
O PEE se tornaria um dos programas mais respeitados da indústria brasileira e ajudaria a sustentar o salto tecnológico da Embraer nos anos seguintes.

Em 2017, Satoshi foi homenageado durante o V Encontro de Escritores e Jornalistas de Aviação e do Fomento à Cultura Aeroespacial
✈️ Academia e indústria: uma união necessária
Ao analisar o sucesso da Embraer, Satoshi define o processo como gradual e estratégico.
“Do Bandeirante ao Tucano, do Xingu ao Brasília, cada projeto se tornava mais complexo e mais avançado. A Embraer cresceu passo a passo. Quando os gigantes começaram a perceber nossa competição, já era um pouco tarde.”
Ele reforça que nada disso acontece de forma isolada.
“Em qualquer lugar do mundo, o progresso é mais rápido e sólido quando você junta o cabedal tecnológico das universidades com o poder de inovação do setor privado. Tentar fazer isso só com governo ou só com iniciativa privada dificilmente funciona.”
✈️O presente com olhos experientes
Questionado sobre sua atuação atual, Yokota é fiel ao próprio estilo.
“Eu já estou com 84 anos e tenho o luxo de me considerar aposentado”, diz com objetividade. “Acompanho o setor, mas faço pouca coisa hoje em dia.”
Mesmo afastado, mantém interesse intelectual pelas grandes transformações da aviação.
“O mundo vive desafios cada vez mais difíceis, principalmente na questão ecológica e na redução da poluição. A eletrificação dos pequenos aviões é um passo no sentido certo, mas ainda limitada a aeronaves de pequeno porte.”
Para ele, o grande entrave continua sendo o armazenamento de energia.
“Os carros elétricos já são realidades, mas o peso das baterias é muito grande para viabilizar um avião de longo percurso. As baterias de lítio são a solução do momento, mas não serão a definitiva. Um dia vai aparecer alguém com um conceito novo e resolver essa questão.”
Enquanto isso, prefere a postura de quem aprendeu a vida inteira a planejar sem ansiedade.
“Existem hoje centenas de empresas e institutos pesquisando motores elétricos e novas formas de armazenamento. Vamos aguardar e torcer para que os pesquisadores consigam chegar lá.”
✈️ Retribuir e somar gerações
Para encerrar, Satoshi Yokota fala de um tema que dialoga diretamente com a missão da ITAEx: a colaboração entre iteanos.
“Esse é um item muito importante. Há muitos engenheiros formados no ITA que avançaram bastante em diferentes setores industriais. Colocar esse pessoal em contato facilita o progresso, porque reúne conhecimentos técnicos não necessariamente coincidentes.”
Segundo ele, a soma sempre acelera o futuro.
“A troca promovida pela ITAEx e por outras entidades vai permitir uma aceleração gradativa e tecnológica. A engenharia cresce quando as gerações conversam.”

Em 2014, na reunião do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – foto de Helcio Nagamine/Fiesp
✈️ Orgulho sem exagero
O depoimento de Yokota traduz bem sua personalidade: firme e direto, mas profundamente comprometido com a técnica, com as pessoas e com o Brasil. Um visionário que nunca teve medo de projetos grandes, desde que fossem conduzidos com Disciplina Consciente.
“Olho para trás e sinto muito orgulho em ter construído alguma coisa não só para mim e para a Embraer, mas para o meu País”, conclui.




