Tutor de conselheiros e facilitador em sucessão de empresas familiares, Helder de Azevedo (T85) mostra como os valores aprendidos no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA moldam decisões corporativas há mais de 30 anos
Nosso entrevistado tem 63 anos de idade e nasceu no Rio de Janeiro, mas há décadas construiu sua vida profissional em São Paulo. Seu interesse pela engenharia surgiu cedo. Ele sabia que essa seria sua vocação e, também, que o futuro dependeria de uma formação de excelência. “Por que não estudar na melhor escola?”, lembra. Preparou-se no tradicional curso Impacto, no Rio de Janeiro, e ingressou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA.
Em um jantar icônico com os amigos da T85 (1984)

Foto de formatura no ITA
Para Helder, este foi apenas o primeiro desafio. “Sempre me pareceu mais fácil passar no vestibular do que me graduar no ITA”, brinca.

Em uma das aulas de Física Nuclear no ITA com o professor José Pantuso Sudano (falecido em 1998)

No Laboratório de Física, em seu primeiro ano do ITA
O rigor acadêmico, a convivência com colegas altamente qualificados e o ambiente pautado por ética e responsabilidade moldaram sua maneira de pensar. Um aprendizado que ele resume hoje de forma direta: “método e disciplina se transformam em valores para toda a vida.”

Helder de Azevedo ao lado de Marcos Poubel, com quem compartilhou toda a jornada da graduação no ITA. Poubel era seu melhor amigo e parceiro até o final do curso, mas faleceu tragicamente seis meses antes da formatura. A família doou ao ITA o carro que lhe pertencia, um Passat 1979, que acabou se tornando a base do projeto pioneiro desenvolvido por alunos e pesquisadores: o primeiro veículo construído no Brasil com fibra de banana, batizado em sua homenagem com o seu nome. Mais que uma lembrança pessoal, a foto simboliza amizade, ciência e a capacidade do ITA de transformar perdas em inovação e legado.
ITA como escola de caráter
“Penso que a alta exigência intelectual do ITA vira também uma autoexigência permanente.”

Em 1985, discutindo em Copenhagen
Após formado, iniciou a carreira como engenheiro eletrônico. Em São José dos Campos, na ABC Sistemas, trabalhou na transferência de tecnologia e no aprimoramento de 16 aviônicos do caça AM-X, projeto que reuniu muitos ex-alunos do ITA. Depois vieram empresas globais de tecnologia e inovação, como IBM, Nokia, Nextel, Globalstar e Here.
Foi justamente na Nextel que sua trajetória tomou novo rumo. Aos 34 anos, Helder foi alçado a diretor estatutário. A posição o colocou frente a sócios e investidores com visões distintas sobre os caminhos da companhia. Ali ele teve sua primeira grande exposição aos dilemas societários. “Percebi na prática que o conhecimento em Governança é fundamental para tornar os empreendimentos longevos”, conta.
O ponto de virada
“Comecei a me confrontar com decisões para as quais eu não estava preparado.”
Depois de mais de 20 anos reportando a conselhos, com um MBA em Sustentabilidade, Helder decidiu se reinventar. Ingressou no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e tornou-se Conselheiro de Administração Certificado (CCA). Ao se aprofundar no tema, notou que o arcabouço das grandes sociedades anônimas pouco dialogava com a realidade das empresas limitadas e familiares.
Movido pela busca de aplicabilidade prática, voltou para a universidade e obteve, aos 59 anos, o título de Mestre em Governança Corporativa, com pesquisa focada em empresas familiares. “Citei pelo menos três ganhadores de Prêmio Nobel recentes em minha dissertação”, relata, como exemplo do nível de rigor que passou a adotar.
Fundador do Instituto Empresa DE Família, Helder hoje atua como conselheiro independente, palestrante, instrutor e consultor. Por meio de workshops e programas de tutoria, já beneficiou mais de 50 negócios em diferentes países.
É autor do livro “Empresa DE Família“ e coordenador da série “Perpetuando a Empresa DE Família”.
Disciplina Consciente na prática
“Disciplina Consciente demanda, antes de tudo, um compromisso com a verdade.”
No trabalho com sócios e herdeiros, Helder lida diariamente com emoções, conflitos de papéis e sucessões delicadas. Para manter a integridade dos projetos, define o tom desde o início: “não vim aqui para falar o que você quer ouvir.” Segundo ele, esse posicionamento adulto e transparente é essencial para reduzir a chamada solidão do poder.
“Quanto mais solitário é o poder, maior o risco de decisões erradas”, alerta. Para Helder, conselhos existem para direcionar e monitorar sociedades, não para substituir executivos; e devem funcionar como parceiros estratégicos, mentores do C-Level e guardiões da saúde das organizações.
À comunidade iteana, ele deixa uma mensagem objetiva e humana: olhar longe, escutar mais, não ter vergonha de perguntar e estruturar bem as relações societárias desde cedo. E reforça seu vínculo com a escola que o formou: “minha relação com a Alma Mater é absolutamente prioritária.”
