O CFO que nunca deixou de ser professor: Marcelo de Paula do Desterro (T95) e a educação como missão

Marcelo de Paula do Desterro (T95) construiu uma trajetória marcada por disciplina, curiosidade e uma vocação pouco comum entre altos executivos: transformar conhecimento em ponte para outras pessoas.

Nascido em Pirassununga, interior de São Paulo, na Academia da Força Aérea (AFA), mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, onde cresceu em um ambiente familiar que valorizava fortemente estudo e estabilidade. Filho de uma família simples, carrega até hoje a história de sua avó paterna, que precisou deixar o pai dele com familiares em Quissamã (RJ) para trabalhar como empregada doméstica no Rio de Janeiro.

Essas origens moldaram a forma como Marcelo enxerga educação, pertencimento e oportunidade: “tem tanta gente boa que, se tiver uma mínima chance, explode”, costuma dizer. E talvez seja esse pensamento que atravessa toda sua trajetória até hoje, como CFO da Granja Faria.

Do Colégio Militar ao ITA: um mundo se abrindo

Marcelo participou do Movimento Escoteiro dos sete aos quinze anos de idade, e foi aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. A disciplina, os rituais e o ambiente competitivo o aproximaram de uma carreira tradicional, muito ligada às expectativas de seu pai, que via nas Forças Armadas um caminho de solidez e honra. Então, cresceu ouvindo que a vida militar seria o caminho seguro, respeitável e quase o destino natural. Seguiu o desejo do pai, mas cuidou, com uma maturidade rara, de continuar fiel aos seus próprios sonhos.

O Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA foi, para Marcelo, uma mistura de sonho, desafio e continuidade do que a família esperava. Foi aprovado na Engenharia Aeronáutica e depois migrou para Engenharia Mecânica-Aeronáutica. E lá viveu intensamente aquilo que descreve como “a escola da resiliência”: as madrugadas de estudo, as provas que exigiam o máximo, a convivência com colegas brilhantes e a necessidade constante de resolver problemas complexos.

Filho de um militar que construiu a própria carreira do zero, de soldado a major dentista, Marcelo sempre carregou o desejo de homenagear o pai. Foi essa motivação que o levou ao primeiro lugar no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva da Aeronáutica de São José dos Campos CPORAER-SJ e, mais tarde, ao primeiro lugar entre os oficiais engenheiros do ITA. Quando abracei meu pai e disse ‘isso aqui é pra você’, ele desabou”, lembra.

Para ele, excelência não é vaidade, mas consequência de fazer tudo bem-feito. Mas a história de Marcelo vai muito além das próprias conquistas e prêmios estudantis.

O professor que o mercado não esperava

Começou a dar aula em 1991, ainda no primeiro ano do ITA, a orientar alunos, jovens profissionais e pessoas no CASD – Centro Acadêmico Santos Dumont. Também participou da criação do CASD Vestibulares. Esse curso nasceu no ITA para preparar os oficiais aviadores, e muitos brigadeiros e coronéis, inclusive da reserva, foram alunos do curso.

Eu morava no Rio de Janeiro e voltava para lá todo fim de semana para ver a minha família e aproveitava para dar aula no pré-vestibular do Colégio Curso Flama, na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias”, conta Marcelo. Foi nesse período que surgiram histórias que ele guarda como tesouros. Uma delas é que, entre os alunos se destacou Vagner Anacleto, que se tornaria um dos grandes orgulhos dessa jornada: aprovado simultaneamente no ITA e no Instituto Militar de Engenharia (IME), e fez uma carreira lindíssima no Exército. Nesse tempo, Marcelo já identificava talentos onde poucos enxergavam.

A carreira na Aeronáutica e o início da vida profissional

Após se formar no ITA, Marcelo seguiu carreira militar na Diretoria de Engenharia da Aeronáutica (DIRENG). O trabalho técnico e a responsabilidade sobre projetos estratégicos deram a ele a base de engenharia, rigor matemático e estrutura mental que usa até hoje para tomar decisões.

Mas, com o tempo, percebeu que sua verdadeira paixão estava em outro lugar: finanças, estratégia e, acima de tudo, ensino. Ele queria estudar, aprender, aprofundar e ensinar.

Fez uma pós-graduação em Engenharia de Produção, depois outra em Engenharia de Custos, na UFRJ. Foi nesse período que conheceu o mundo das finanças. Seguiu com o mestrado em Finanças na Escola de Negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Instituto COPPEAD/UFRJ. Esse foi o grande ferramental que permitiu sua saída da Força Aérea Brasileira – FAB e a entrada no mundo de finanças corporativas.

Aos 30 anos, recomeçou a carreira na Vale como analista, ao lado de colegas mais jovens e construindo ali sua grande escola profissional. O então 1º Tenente Engenheiro, quase capitão, virou analista financeiro. Foi uma transição construída pelo estudo, se lapidando com curiosidade.
Marcelo é o tipo de profissional que acorda cedo para ler, faz anotações, revisita teorias e gosta de entender a raiz dos problemas. Ele diz que “estou CFO, mas sou professor” – frase que repete com naturalidade, porque descreve exatamente quem é.

Projeto Compartilhando

O projeto nasceu em 2002, quando Marcelo já era aluno do Mestrado em Administração no COPPEAD/UFRJ, junto com amigos mestrandos que compartilhavam o mesmo desejo: usar formação acadêmica e experiências pessoais para abrir caminhos para jovens de baixa renda.

O prédio do COPPEAD/UFRJ, na Ilha do Fundão, tinha apenas três ou quatro andares, e o primeiro era ocupado pela Escola Municipal Tenente Antônio João. Muita gente reclamava do barulho das crianças. Marcelo decidiu olhar aquilo por outra perspectiva. Foi até a diretora, se apresentou e perguntou como poderiam ajudar. “E assim nasceu o Projeto Compartilhando: fomos a primeira turma a se aproximar da escola, oferecendo apoio no contraturno, tirando dúvidas, organizando concursos de redação e ajudando em tudo o que fosse possível” – conta Marcelo.

O Projeto Compartilhando foi estruturado para ser perene: cada turma de mestrado passa o projeto para a turma seguinte. Durante um ano, os alunos do segundo ano apoiam os do primeiro, e assim o ciclo continua. Ele existe até hoje, mais de 20 anos depois.

“Isso é ESG puro. Naquela época ninguém usava esse termo, mas o conceito já estava ali. Esse projeto, inclusive, ajudou o COPPEAD a elevar seu posicionamento internacional e a conquistar certificações importantes, visto que o Compartilhando virou sua referência social. É por isso que eu digo: a educação transforma indivíduos, instituições e comunidades inteiras”.

Outros Projetos

Marcelo fundou o projeto social chamado FnP – Finanças e Práticaque promove palestras aos domingos, às 8h, sempre com um grande nome do mercado financeiro, como os iteanos João R. Pontes (T87), Renê Silva (T95), Daniel Geiger (T94), Bruno Pessoa Serapião (T95), Enio Stein Junior (T95), Gustavo Fonseca (T95), Rodrigo Coutinho (T95), Fernando Ariño (T95), Alexandre Aquino (T95), Patrícia Rodrigues (T00), João Zocca (T06), e outros, como Wilson Brasil Casado Neto (que não concluiu o ITA, formou-se na PUC-RJ). Além das palestras, o FnP oferece diversas trilhas de conhecimento.

Tudo absolutamente gratuito e disponível no canal do FnP no YouTube, que tem mais de oito mil inscritos. É uma comunidade de finanças 100% gratuita, colaborativa e muito ativa, onde também compartilham em um grupo de WhatsApp notícias, planilhas, material, e experiências.

O valor do curso, segundo Marcelo, é “o mais caro que existe”: o tempo de quem se compromete a aprender, já que a FnP forma líderes que crescem num ambiente onde a cooperatividade vale mais do que competição interna, e pedir ajuda não é fraqueza, é parte do processo, e assim os exemplos reais inspiram.

Paralelamente, Marcelo também participa do ITA Financeque aproxima alunos do ITA de executivos do mercado, criando pontes para carreiras em investimento, finanças corporativas e private equity, ampliando a presença dos iteanos em setores antes pouco acessíveis.

“O ITA tem várias iniciativas incríveis, como o projeto ITA Júnior, os grupos de pesquisa, as equipes estudantis e o ITA Finance é uma delas, onde atuo como professor de finanças voluntário aos sábados. E assim começamos. Para mim, é também uma forma de preencher uma lacuna que eu senti na minha formação. Se o aluno do ITA se formasse já com um ferramental sólido de finanças, ele decolaria ainda mais rápido. Por isso, meu objetivo no ITA Finance é deixar conhecimento estruturado dentro da instituição, como material, conteúdo, respostas às dúvidas, algo que sirva para a turma atual e para as próximas. Tudo online, acessível, permanente”.

E o sucesso do ITA Finance mostra algo importante: o mercado financeiro está cada vez mais receptivo ao perfil analítico, rigoroso e estruturado do iteano.

E é exatamente isso que hubs como o ITA Finance proporcionam: um ponto de encontro que aproxima alunos, jovens profissionais e executivos experientes. Esse espírito comunitário cria um ambiente onde a troca é natural.

Outra atividade em que ele está envolvido é a Iluminus Academia de Finanças, um sonho que envolve novamente os amigos de mestrado do COPPEAD. Eles se reuniram para montar a melhor escola de finanças do País. “É um curso de nível máximo, não gratuito, mas que tem os melhores professores do Brasil nessa área. É para quem está se formando ou é recém-formado, totalmente voltado para jovens em começo de carreira”.

Granja Faria: ciência, tecnologia e finanças no coração do agro

Marcelo assumiu há um ano o cargo de Chief Financial Officer (CFO) da Granja Faria – o maior produtor de ovos do Brasil e o 2º maior do mundo com operações no Brasil, Estados Unidos e Espanha – e trouxe ao agro sua bagagem analítica e sua visão estratégica para eficiência, tecnologia e sustentabilidade. No setor, descobriu algo que faz questão de enfatizar: quem trabalha com finanças precisa pôr a botina e ir para o campo. Para ele, não existe respeito ou entendimento real do negócio sem visitar a granja e as operações de ponta a ponta. O trabalho no campo mudou sua visão como executivo.

Um ponto marcante, segundo ele, é o programa de trainees da Granja Faria, liderado pelo CFO global I’smelon Moreira (T97) que atrai jovens talentos, inclusive iteanos, e forma profissionais capazes de transformar o agro do futuro com visão estratégica e profunda capacidade analítica.

“A Granja Faria é muito presente na Feira de Carreiras do ITA e, hoje, há trainees iteanos que são simplesmente fantásticos. Um deles, que se forma agora, é um menino brilhante, curioso, e dedicado. Pela formação no ITA e pela experiência que o I’smelon tem em lidar com o perfil iteano, ele soube exatamente o tipo de carga de trabalho que esse jovem aguentaria. O resultado é que ele, ainda como aluno, já tem uma vivência profissional que eu só fui adquirir muitos anos depois de formado. Essa combinação: capacidade analítica, curiosidade, autonomia e resiliência é um diferencial enorme dos alunos do ITA. Você dá o desafio e ele vai. É um perfil que responde muito bem a ambientes intensos, técnicos, e complexos”, define Marcelo.

E isso vale para qualquer área dentro das finanças ou do planejamento estratégico. Investment bankingprivate equity, mercado de capitais ou finanças corporativas. Por trás desses nomes estão caminhos diferentes de aplicar o ferramental financeiro.

“Se o sonho da pessoa é cuidar das finanças de empresas, ela seguirá para as finanças corporativas. Se o objetivo é atuar no mercado de capitais, ela vai para as Assets. E tem também aquele meio-termo, que é o private equity e o mundo de fusões e aquisições: investir em empresas menores, fazer crescer e vender no futuro. Em todos esses campos, o que destaca o iteano é justamente a capacidade de aprender rápido, resolver problemas e caminhar com as próprias pernas”, esclarece Marcelo.

Para ele, esses hubs e redes de colaboração são essenciais. Marcelo reforça que a comunidade iteana tem um traço único de união: “Isso é muito importante na formação e no senso de responsabilidade com as novas gerações. Muito antes de existir LinkedIn, os iteanos já se ajudavam mutuamente, e que essa cultura de apoio se mantém até hoje, algo que influenciou sua forma de liderar e de construir redes de colaboração”.

Entre o futuro e as raízes

Quanto ao papel do iteano na inovação, Marcelo diz que vale lembrar que “recebemos uma quantidade gigantesca de conhecimento e somos treinados para pensar, resolver problemas, criar soluções. E muitas dessas soluções nascem justamente desse ambiente do ITA. Então, sim, temos uma responsabilidade social sobre como usamos tudo isso em benefício do País!”

Embora tenha alcançado posições de destaque, Marcelo fala sempre como quem está apenas começando. Seus dois filhos gêmeos, João Marcelo e Frederico, de 10 anos, são parte importante da sua reflexão sobre legado e educação.

Ele sabe que chegar nessa posição profissional envolve trabalho, oportunidade e disciplina, mas também responsabilidade com quem está começando.

E é por isso, talvez, que ele se emociona ao falar sobre um sonho antigo: ver crianças em situação de vulnerabilidade social tendo acesso a um ambiente seguro em educação, saúde, espaço para brincar, descansar e descobrir o que gostam. É uma visão de futuro que conecta sua história familiar, seu olhar para o outro e sua crença de que educação pode transformar gerações.

“Eu tenho uma dívida muito grande com o País. Foram sete anos no Colégio Militar, depois mais cinco no ITA, melhor escola de engenharia do Brasil, e depois ainda fiz especialização e mestrado pela UFRJ – estudos bancados pelo povo brasileiro, em última instância. Então, o melhor que eu posso fazer, além de pagar meus impostos, é dividir com todo mundo o que eu ganhei de conhecimento. Esse é o meu objetivo: dividir tudo que eu sei com as pessoas”.

Mas ele ainda tem um sonho a realizar, que é estudar Psicologia: “Acho que é a última grande fronteira, entender o cérebro humano, os sentimentos, e as relações. Tem muita gente adoecida nas empresas, e por motivos diversos: erros da companhia, das pessoas, do ambiente de trabalho. Depois de trilhar a jornada inteira, de analista a diretor financeiro, e ao longo de dez anos como CFO, tenho vontade de voltar ao início para ajudar pessoas nesse caminho. Não com respostas prontas, porque eu não sou oráculo, mas com perguntas abertas e provocativas. Muitas vezes o problema não é a empresa nem o chefe, mas sim a lente com que a pessoa vê o mundo. E, para resolver, é preciso trocar os óculos dos dois lados: da empresa e do colaborador. Não existe certo ou errado absoluto; existe o bom acordo que as pessoas conseguem construir quando se enxergam de verdade.”

Marcelo finaliza dizendo: A vida é assim: no começo, te entregam um fio. A cada etapa, você ganha uma pedrinha e coloca nesse fio. No final, esse conjunto vira um colar bonito. Eu sinto que estou justamente nessa fase, juntando minhas pedrinhas ao longo da caminhada”.

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