Em 26 de fevereiro de 2000, dia do falecimento do Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, alunos e professores do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA embarcaram na mesma aeronave rumo ao Rio de Janeiro para acompanhar o funeral do fundador do ITA e do CTA, cuja visão tornou possível a indústria aeroespacial brasileira. Casimiro recebeu, naquela tarde, uma despedida que se tornaria parte da memória afetiva do ITA.
Mais de 25 anos depois, quatro professores que estavam naquele voo relembram, com emoção, o que viram, sentiram e aprenderam naquele dia. Suas histórias ajudam a entender a presença dos alunos, civis e militares, carregando o caixão do fundador do ITA, e seguem como um dos momentos simbólicos mais fortes da trajetória iteana.
A mobilização urgente e a missão de representar o ITA
Na manhã em que o falecimento do Marechal Casimiro Montenegro Filho foi comunicado à Reitoria, o então chefe da Divisão de Alunos, Prof. Dr. Alberto Adade Filho, recebeu a incumbência de organizar a ida de uma comitiva de estudantes ao funeral no Rio de Janeiro. A missão era clara: o ITA precisava estar presente naquele momento histórico e não apenas institucionalmente, mas com seus alunos.
“Conversamos sobre a importância, eu diria mandatória,
de termos professores e alunos do ITA presentes ao funeral”
Alberto Adade Filho
Em poucas horas, ele mobilizou o Centro Acadêmico Santos Dumont – CASD, reuniu a comitiva, alinhou civis e militares que representariam o alunado e seguiu com eles até a aeronave que partiu do aeroporto do CTA. Entre os professores no voo estava também Wolney Ramos Ribeiro (T58) – in memoriam.
O gesto simples e profundo de ver civis e militares lado a lado acompanharia aquele dia até o fim. “Para mim eram os alunos do ITA que estavam ali, não os distingo como civis e militares”, considera Adade. A cena que se seguiu, dos estudantes carregando o caixão, teria impacto duradouro: “Nada seria mais emblemático do que aquilo.”
A relação que atravessou décadas
Entre os que vivenciaram a despedida estava o Prof. Dr. Nizam Omar (T74), cuja história com o fundador do ITA atravessou décadas. Seu primeiro contato com Casimiro foi em 1974, quando o Marechal, escolhido paraninfo de sua turma, teve o nome excluído da cerimônia por decisão das autoridades da época. Montenegro, ainda assim, compareceu. Quase 50 anos depois, a T74 oficializaria aquela homenagem com uma placa no corredor do E2.
O segundo momento marcante de Nizam com o Marechal ocorreu num almoço organizado pelo Brigadeiro Tércio Pacciti, na casa de Casimiro, em Petrópolis (RJ), onde conversaram longamente e plantaram as primeiras sementes do livro de memórias que Montenegro viria a escrever.
O terceiro encontro foi justamente no funeral que reuniu aqueles alunos e professores em fevereiro de 1999.
“O espírito de Montenegro ainda se perpetua em
iteanos de todas as épocas, e precisa ser mantido.
Suas ideias servem para acreditarmos
que é possível construir um Brasil melhor”
Nizam Omar
Para ele, ver os alunos conduzindo o caixão selou a dimensão do legado do Marechal: não apenas a criação do ITA e do CTA, mas a visão que abriu caminho para os cursos de Engenharia de Computação e Engenharia Aeroespacial e, hoje, a expansão do ITA em Fortaleza, a cidade natal de Casimiro Montenegro Filho.
O impacto sobre os alunos e o símbolo que se tornou mito
Do ponto de vista dos estudantes que estavam ali, o momento tinha outra energia, mais visceral, quase mítica. O Prof. Dr. Cláudio Jorge (T77) relembra que, nos anos que antecederam o falecimento, Montenegro ainda visitava o ITA, já com severa limitação visual, mas cercado de entusiasmo pelos alunos.
“Era um símbolo. O criador do ITA, do DCTA,
da indústria aeroespacial, num País que muitos
achavam incapaz até de fazer bicicletas,
ousando formar gente para produzir aviões”
Claudio Jorge
Para o professor Cláudio Jorge, estar no funeral significou acompanhar a despedida de um personagem que transcendeu sua própria época. “Ver os alunos carregando o corpo do fundador foi, para eles, ‘um momento mágico’, e que vai ficar guardado no coração Ad aeternum, sempre como um exemplo, uma meta: desenvolver coisas da melhor maneira possível, comprometendo-se com algo maior do que a si mesmo”.

Foto cedida pela editora Companhia das Letras
Ele relembra ainda a simplicidade e o desprendimento de Montenegro, que destinava os recursos que conseguia não ao conforto pessoal, mas à construção da instituição: prédios, alojamentos, laboratórios, professores, alunos. “Um homem que mirava longe e agia. Talvez não tenha visto tudo se concretizar, mas viu a semente germinar.”
Recursos permanentes para um ITA forte
Para o professor Osamu Saotome (T74), a presença de Casimiro Montenegro ainda se manifesta no cotidiano acadêmico e na própria identidade do ITA. De forma simples e direta, ele resume a essência dessa influência em uma ideia que considera central:
“As engenharias constroem
o alicerce do futuro”
Osamu Saotome
A visão que guiou Montenegro ao idealizar o ITA permanece viva na formação dos iteanos e na maneira como o Instituto se posiciona diante dos desafios nacionais.
Osamu define o legado de Casimiro em uma única palavra: “mérito”. Montenegro deixou como herança a convicção de que o ensino de engenharia deve ser acessível a todos os jovens brasileiros que demonstrem talento, esforço e dedicação, independentemente de origem ou condição. Essa democratização do acesso, sustentada pela qualidade e pela exigência, traduz o espírito que ainda sustenta o ITA.
O professor Osamu destaca que esse legado só se manterá vivo se houver compromisso contínuo com a sustentabilidade institucional, dizendo ser necessário criar e garantir uma fonte permanente e estável de recursos para manutenção, modernização e expansão do ITA.
É primordial assegurar que a visão de Montenegro se projete para o futuro, fortalecendo as condições que permitam ao ITA continuar formando líderes, inovadores e cidadãos comprometidos com o País.
Quatro professores, quatro perspectivas, um mesmo sentimento: naquele dia, no voo para o Rio de Janeiro e depois no retorno silencioso a São José dos Campos, eles testemunharam não apenas o fim de um ciclo, mas a confirmação de que o ideal de Casimiro Montenegro não terminou ali. Ele seguiu e segue sendo carregado pelos iteanos.
Montenegro partiu, mas seu ideal permanece. A imagem dos alunos carregando seu caixão não simbolizou o fim, mas sim a continuidade, um lembrete de que o ITA foi criado para ir além, e continua seguindo, guiado pela mesma visão que, 75 anos atrás, ousou imaginar um Brasil capaz de voar mais alto.
Para a ITAEx, reunir esses relatos não é apenas revisitar um acontecimento histórico; é compreender que valores como excelência, Disciplina Consciente, compromisso público e visão de futuro sobreviveram ao tempo e moldam gerações de iteanos até hoje.
NOTA DA ITAEx
A despedida de Casimiro Montenegro não foi apenas o fim de um ciclo, mas sim a prova de que sua visão permanece viva em cada aluno que passa pelos corredores do ITA.
No silêncio respeitoso daquele cortejo, civis e militares lado a lado, estava a síntese do projeto que ele sonhou: uma escola capaz de formar profissionais brilhantes e cidadãos comprometidos com algo maior do que si mesmos.
Mais de 25 anos passados, os valores que ele defendeu: excelência, responsabilidade, coragem para inovar e servir ao País continuam pulsando no ITA, no DCTA, na Aeronáutica e em toda a indústria que ele ajudou a criar.
A cada nova turma, a cada novo curso, a cada novo desafio acadêmico ou tecnológico, a obra de Casimiro Montenegro se renova.
O que aqueles seis alunos carregaram em seus ombros, naquele dia, não foi apenas um caixão, e sim um legado inteiro, que segue sendo transportado pelas mãos e mentes de todas as gerações de iteanos.
A ITAEx agradece aos ex-alunos e professores que se dispuseram, com alegria e boa memória, a compor essa série.
Viva o Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho!
FIM










