No quarto episódio da série, os dois últimos alunos que carregaram o caixão do Marechal Montenegro relembram o dia em que a despedida se transformou em legado, responsabilidade e compromisso com o futuro do Brasil.
A notícia da morte do Marechal chegou de maneira abrupta. Para Giovanni Ribeiro Gabriele (T00), o impacto foi imediato. Ao saber que Casimiro havia expressado o desejo de que alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA conduzissem seu corpo no último percurso, sentiu-se profundamente honrado. Não se tratava de uma formalidade. Era, para ele, a materialização de um gesto pensado por alguém que compreendia, como poucos, a força dos símbolos.
No H8, onde Meton Barreto de Morais Neto (T00) recebeu a informação oficialmente, o clima foi de silêncio coletivo. Os seis alunos já estavam definidos para representar o ITA no cortejo. A juventude dos alunos contrastava com o peso histórico daquele chamado. O sentimento de responsabilidade se impôs imediatamente.
A reação inicial de Giovanni foi de conflito. O luto, para ele, costumava ser íntimo, reservado à família. Mas Montenegro não havia sido uma pessoa comum. Até sua despedida foi pensada como uma última lição. Foi essa compreensão que transformou o conflito em honra e gratidão. Para Meton, a primeira reação também misturou honra e humildade. O Marechal não era apenas o fundador do CTA e do ITA: era a figura que havia materializado um projeto nacional de ciência, engenharia e soberania tecnológica.
Naquele momento, carregar o caixão significava muito mais do que integrar um cortejo. Para ambos, era assumir, simbolicamente, o peso de uma instituição que transformou suas trajetórias.
Giovanni percebeu que o ITA nunca foi apenas uma escola de engenharia, mas um projeto de transformação do País.
Meton sentiu que carregava, junto ao corpo do Marechal, a própria história de sua formação: valores, disciplina, ética e irmandade para a vida.
O simbolismo dos três civis e três militares era evidente para os dois. Na época, já se percebia algo especial naquele equilíbrio. Hoje, passados 25 anos, essa imagem ganha ainda mais força: representava a essência do ITA idealizado por Casimiro: ciência e defesa caminhando juntas, sem barreiras artificiais, com abertura de pensamento, Disciplina Consciente e espírito de serviço ao Brasil.
Para Giovanni, havia ainda um elo pessoal: ele e Meton também eram cearenses, assim como o Marechal. Mais tarde, refletiria que Casimiro não apenas planejava e executava projetos: ele pensava, inclusive, em como seus atos seriam lembrados. Não era apenas engenheiro ou militar. Era também um estrategista da memória e da transformação.
Durante o sepultamento, os pensamentos se voltavam à dimensão histórica daquele homem. Giovanni sentia que estava diante do encerramento de um ciclo que, ao mesmo tempo, se tornava um prólogo. A despedida de um visionário que, em silêncio, transferia aos mais jovens a responsabilidade de continuar sua obra. Meton pensava na relevância alcançada pelo Brasil na história aeroespacial e em como isso se devia, em grande parte, à semente plantada por Casimiro. Engenheiros, instituições, programas e empresas surgiram a partir daquele sonho materializado.
Ambos acreditam que o Marechal tinha plena consciência da grandeza do que estava construindo. Talvez não previsse todos os desdobramentos do ITA, mas sabia que estava fundando algo maior do que ele próprio e maior do que o campus. Um projeto pensado para atravessar gerações.
Com o passar dos anos, aquele dia ganhou novas camadas de significado. Para Giovanni, a experiência se transformou em um símbolo íntimo de propósito, um ponto de ancoragem que até hoje o inspira a pensar além de objetivos pessoais e a se vincular a projetos maiores que o próprio tempo. Para Meton, o episódio reforçou a compreensão de que o ITA vai muito além de um diploma: é formação humana, visão de longo prazo e compromisso com causas coletivas.
Entre todos os registros daquele dia, a lembrança mais forte de Giovanni é o silêncio denso, respeitoso, quase pedagógico. “Não era ausência de som: era a presença da história.”
Meton guarda com nitidez os momentos de reflexão dentro da aeronave militar que os levou ao Rio de Janeiro. Seis jovens carregariam, literalmente, um legado inteiro nos ombros. A sensação inequívoca de que não participavam apenas de um funeral, mas de um capítulo da história do Brasil.
Quando olham para os alunos de hoje, ambos reforçam que é fundamental ir além da biografia factual. Datas, cargos e feitos são importantes, mas não suficientes. É preciso compreender que o ambiente acadêmico, os valores, a convivência entre civis e militares, o rigor tanto técnico quanto humano não surgiram por acaso – são frutos diretos da visão de um brasileiro que acreditava profundamente que ciência e educação transformam uma nação.
Giovanni resume aquela experiência como um testamento silencioso de responsabilidade: “Receber, em silêncio, o compromisso de transformar em realidade aquilo que, sem empenho, poderia parecer apenas um sonho”.
Meton define o gesto como “carregar, por alguns passos que representavam gerações, o peso simbólico de uma visão que transformou o Brasil”.
Duas trajetórias, duas formas de sentir, mas unidas pelo mesmo instante histórico. O último gesto de um fundador que segue vivo na memória, nos valores e nos caminhos de cada geração de iteanos.
Há pouco mais de 25 anos, o gesto permanece vivo na memória desses ex-alunos, e ainda mais presente no significado para as gerações que vieram depois. Para Giovanni e Meton, carregar o caixão de Casimiro não foi apenas participar de um cortejo histórico, mas receber, em silêncio, uma missão: preservar, fortalecer e ampliar o projeto de Brasil que ele sonhou por meio da educação, da ciência e da engenharia.
A nossa série chega agora a um novo capítulo. No próximo episódio, a história será contada sob o olhar de professores do ITA que também estiveram presentes naquele momento decisivo, que acompanharam de perto a trajetória do Marechal e o impacto definitivo de sua obra sobre alunos, instituições e sobre o próprio Brasil.
O legado continua e a memória segue sendo construída.



