Homenageado com a Medalha Montenegro em 2025, o engenheiro rememora sua trajetória, os valores que moldaram seu caminho e o papel transformador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA em sua vida pessoal e profissional. Há dois anos, o iteano faz parte do Conselho Curador da Fundação Casimiro Montenegro Filho (FCMF) e está como Presidente do Conselho da ONG Agente.
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Filho de um imigrante japonês que chegou ao Brasil em 1957, numa das últimas levas de imigração, e de mãe descendente de japoneses, Sílvio Kiyoharu Maemura cresceu em São Paulo, no bairro dos Jardins, onde seu pai e seu avô materno administravam uma quitanda. Foi justamente esse avô, com quem morava, que exerceu forte influência sobre sua formação, estimulando-o desde cedo a estudar.
Aos 14 anos, quando ainda cursava o ginásio, descobriu nas páginas da revista Como Funciona sua paixão por aviões e tomou a decisão de se tornar engenheiro de projetos aeronáuticos.

Como não havia cursos técnicos na área, escolheu estudar eletrônica e ingressou no Colégio Técnico Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo, formando-se em 1978
Começou a trabalhar como técnico em telecomunicações aos 17 anos, na Philips-Inbelsa, experiência que lhe permitiu financiar o cursinho pré-vestibular enquanto trabalhava de dia e estudava à noite. Nessa época, também participava de um grupo de jovens da igreja Metodista, onde conviveu com universitários que o inspiraram a sonhar com a Universidade de São Paulo – USP e, mais tarde, a conhecer o Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA. Prestou apenas dois vestibulares: USP e ITA, já que não conseguiria custear uma faculdade particular.
Em 1980, concretizou seu objetivo ao ingressar no ITA. Rapidamente integrou-se à rotina intensa do H8 e ao convívio próximo com os colegas.
No segundo ano, recebeu uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq para desenvolver pesquisa em Física Fotônica, área que se tornaria base para tecnologias modernas como fibras ópticas e sistemas fotônicos. Destacou-se pelo excelente desempenho acadêmico, recebendo Menção Honrosa do Departamento de Física e de Matemática por obter notas acima de 9,5 em todas as avaliações.
Seu conhecimento técnico prévio facilitou o início do curso profissional, e foi também quando ganhou o apelido de “Mãe Mura” pela disposição constante em ajudar colegas nas vésperas de prova. Estudar em grupo tornou-se parte importante de sua formação, uma troca que, segundo ele, o fez aprender ainda mais. Chegou a se esconder na biblioteca para ter momentos de estudo individual, mas reconhece que as amizades criadas nessa fase foram tão valiosas quanto o aprendizado acadêmico. Em um dos episódios que guarda com mais carinho, dedicou-se a ajudar um amigo que tinha dificuldades em determinada disciplina; quando ambos foram aprovados, comemoraram como uma vitória compartilhada.
Nos anos finais, fez estágio no Instituto de Aeronáutica e Espaço – IAE, desenvolvendo sistemas de medição de velocidade de ondas de explosão nos veículos lançadores de satélites e fabricando placas eletrônicas. Atuou também como representante de turma, criando vínculos importantes com professores que mais tarde seriam decisivos em sua carreira. Seu trabalho de graduação foi desenvolvido na Itautec, onde projetou, em hardware e linguagem de máquina, uma mini-impressora para terminais bancários, implementada no Banco Itaú e nos pontos de venda que a empresa lançava em 1984.
Após concluir o ITA, Maemura iniciou uma trajetória profissional marcada por desafios relevantes e pela aplicação direta de sua formação técnica. Atuou em projetos de grande impacto, ocupando posições que exigiam precisão, liderança e visão sistêmica, características que atribui em grande parte à sua passagem pelo Instituto. Sempre próximo da comunidade iteana, manteve relações sólidas com colegas e professores, participando de iniciativas e contribuindo com sua experiência para novas gerações.
Sua carreira é reflexo de consistência, rigor e espírito colaborativo que cultivou desde a formação. A Disciplina Consciente, os valores e a cultura de excelência do ITA continuaram presentes em cada etapa de sua atuação profissional, consolidando-o como um engenheiro respeitado e um exemplo de dedicação, evolução e compromisso com a técnica e com as pessoas.
Na entrevista a seguir, conheça um pouco mais desse iteano.
Reconhecimento e Legado
ITAEx – O Prêmio Montenegro celebra iteanos que geraram impacto duradouro no Brasil e no mundo. O que esse reconhecimento representa para o senhor, especialmente vindo da própria comunidade iteana?
Sílvio Maemura – Sempre acreditei que boa performance é condição para gerar impacto, e por isso busquei a excelência em todas as etapas da minha vida, como estudante, engenheiro, vendedor e executivo. Ainda assim, receber a Medalha Montenegro representou para mim uma mudança de paradigma. Trouxe uma nova compreensão sobre o que significa, de fato, impactar o mundo.
Confesso que nunca imaginei ser eleito. Ao ler o currículo de tantos iteanos, tenho plena consciência de que muitos realizaram contribuições ainda maiores para o País e para o mundo, como o Ozires Silva (T62), a quem admiro profundamente e tive a honra de conhecer no Conselho da Fundação Casimiro Montenegro Filho – FCMF. Fiquei feliz ao vê-lo reconhecido na edição anterior.
Tenho convicção de que não fui escolhido apenas pelas minhas realizações, mas pelo apoio dos iteanos: da minha turma, que me indicou e votou; dos professores com quem trabalhei em projetos pela FCMF; e dos colegas que encontrei ao longo da carreira. Muitos talvez não conhecessem meus resultados objetivos, mas conheciam a qualidade das relações que construímos, vínculos de amizade, conversas em que trocamos ideias, sonhos, dúvidas e apoio mútuo, como nos tempos de ITA.

Hoje, percebo que o reconhecimento veio menos pelas conquistas formais e mais pela força dessas relações. As mensagens que recebi após o anúncio deixaram claro que não são apenas os projetos que transformam o mundo, são as pessoas. E, quando cultivamos relações verdadeiras, impactamos vidas que, por sua vez, impactam o País e o mundo.

Família Maemura presente na homenagem na ocasião da medalha Montenegro, no Sábado das Origens 2025
Para mim, essa homenagem simboliza o legado das relações humanas: dos vínculos, das trocas, dos gestos que constroem confiança e permitem realizações conjuntas. As conquistas vão para o currículo; as relações, nós guardamos no coração das pessoas. Esse é, para mim, o legado mais duradouro.
Compromisso com a Educação
ITAEx – Sua atuação na ONG Agente há mais de 35 anos mostra um compromisso contínuo com a transformação pela educação. O que o motivou a iniciar e sustentar esse projeto por tanto tempo, e quais resultados mais o orgulham?
SM – O trabalho da ONG começou de forma simples, quando um grupo de mulheres da Igreja Metodista passou a dar reforço escolar para algumas crianças da Comunidade de São Remo, atrás da USP, na casa de uma cozinheira local. Nós a conhecemos porque um tio meu havia mobilizado pessoas para ajudá-la a reconstruir sua casa, que havia sido destelhada por uma forte chuva.
Com o tempo, o número de crianças foi aumentando. Em 2002, graças a uma doação significativa feita por uma pessoa do Havaí, foi possível comprar um terreno e construir um prédio no coração da comunidade. Minha contribuição, naquela época, foi principalmente financeira, por meio de um programa de apadrinhamento que garantia material escolar todos os anos. Fomos padrinhos de duas crianças durante muito tempo, e acompanhei de perto o crescimento da iniciativa. Há dois anos, já aposentado, decidi ingressar no conselho da ONG, por acreditar profundamente no poder transformador da educação, não apenas para crianças, mas também para adultos da própria comunidade.
Minha motivação pode ser resumida na história real de uma menina chamada Angélica, que por muitos anos, frequentou as aulas de reforço da Agente. Ao terminar o ensino médio, planejava trabalhar para ajudar a família, como faz a maioria das crianças da comunidade, que começam a trabalhar por volta dos 14 anos. Angélica é inteligente, e algumas pessoas perceberam isso e conversaram com ela sobre a possibilidade de fazer um curso superior, algo que jamais havia considerado ou sonhado.
Com apoio emocional e financeiro dessas pessoas, Angélica decidiu tentar um pré-vestibular. Não passou na primeira tentativa e ficou frustrada. Mas, incentivada, insistiu mais um ano. Passou, não em uma faculdade privada, mas para Enfermagem na USP, ao lado da sua própria comunidade. Formou-se, ingressou no Hospital Albert Einstein, comprou um apartamento e tirou a família da São Remo. Hoje, volta regularmente à Agente para contar sua história e inspirar outras crianças, e a mim também.
Assim como Angélica, muitos outros jovens trilharam caminhos semelhantes e se tornaram jornalistas, advogados, profissionais que jamais imaginariam ser. Tudo porque encontraram pessoas que os ensinaram a sonhar e a enxergar para além da realidade de seus pais. Pessoas que lhes ofereceram orientação, incentivo, apoio e amor, e que foram verdadeiros agentes de transformação. Foi assim que a ONG recebeu esse nome.
Aprendi, ao longo desses anos, que educação é essencial, mas não suficiente. É preciso gente disposta a doar tempo, atenção, escuta. Uma conversa simples pode mudar a vida de uma criança. Não basta contribuir financeiramente, é necessário presença, inspiração, vínculo. Porque é isso que transforma destinos.
Relação com o ITA e contribuição institucional
ITAEx – Como curador da FCMF, o senhor tem contribuído para fortalecer o ecossistema do ITA. Que aprendizados destacaria dessa experiência de conectar o Instituto a empresas e parceiros privados?
SM – Os projetos da Fundação são fundamentais para manter a relevância e a reputação do ITA no País, além de complementar a renda dos professores e abrir oportunidades de pesquisa para alunos, mestrandos e doutorandos. Quando ingressei na FCMF, os projetos com a Financiadora de Estudos e Projetos – Finep, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp e a Embraer haviam diminuído, e por isso começamos a buscar empresas privadas que, incentivadas pela Lei do Bem, precisavam destinar parte de seu faturamento à pesquisa e ao desenvolvimento. Conseguimos viabilizar alguns projetos na área de ciência de dados com professores da Engenharia de Computação, mas enfrentamos muitas dificuldades: o Brasil ainda não tem a cultura de aproximar universidade e empresa para desenvolver novas pesquisas, como acontece nos países desenvolvidos.

O principal aprendizado é que faltam ao País políticas públicas sólidas que incentivem esse tipo de parceria. Também carecemos de estímulos fiscais para fundos patrimoniais (endowments) universitários. É frustrante constatar que doações via Lei Rouanet são dedutíveis, enquanto não há legislação similar que estimule investimentos em pesquisa básica dentro das universidades.
Existem fundos como o FUNTTEL – Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações, destinados a fomentar inovação tecnológica, mas esses e outros recursos raramente chegam às universidades, e muitas vezes por falta de regulamentação que permita seu uso nesse contexto. Precisamos de um esforço conjunto entre instituições de ensino e o Ministério da Educação – MEC para criar leis e normativas que promovam a cooperação em pesquisa e desenvolvimento. Sem isso, continuaremos dependentes do orçamento governamental, o que limita nossa capacidade de inovar.
Para os professores e alunos do ITA, que têm um imenso capital intelectual aplicável à inovação, o papel da FCMF é essencial. Ela viabiliza a gestão dos projetos, fortalece a reputação do Instituto no Brasil e amplia sua capacidade de atuação.
Fico muito satisfeito em ver que, neste ano, a FCMF cresceu substancialmente. Na gestão do Brigadeiro Luiz Sergio Heinzelmann, a Fundação foi reposicionada como entidade de apoio institucional a outros institutos do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial – DCTA, como o Instituto de Aeronáutica e Espaço – IAE , além de fortalecer parcerias com instituições de referência nacional, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, ampliando significativamente seu impacto para além do ITA.
Tecnologia e Liderança
ITAEx – Depois de liderar grandes empresas de tecnologia, como vê os papéis da inovação e da gestão tecnológica na formação dos engenheiros e líderes do futuro?
SM – No segmento de tecnologia de onde venho, inovação e gestão tecnológica são dimensões essenciais. Os ciclos de mudança são curtos, a competição é global e a capacidade de adaptação define quem prospera. Nesse contexto, vejo alguns aspectos fundamentais para a formação dos engenheiros do ITA como futuros líderes desse setor.
Em primeiro lugar, é fundamental formar engenheiros capazes de resolver problemas complexos, aqueles que não têm respostas pré-definidas. Isso exige pensamento crítico, criatividade, experimentação e, claro, sólido domínio técnico. Por isso acredito que a formação deve ser mais abrangente do que os currículos atuais, incorporando também disciplinas de ciências humanas, economia, psicologia e áreas que ampliem a compreensão do comportamento humano, da sociedade e dos negócios.
Quando falo em gestão tecnológica, refiro-me à competência de transformar tecnologia em valor. Nossos engenheiros precisam ser capazes de responder a questões estratégicas, como:
- Qual tecnologia e qual modelo de negócio adotar?
- Quanto e quando vale a pena investir?
- Como escalar uma inovação e posicioná-la no portfólio da empresa?
Então, precisamos formar profissionais que sejam mais do que “resolvedores de problemas técnicos”, necessitamos de protagonistas estratégicos, capazes de conectar engenharia, negócios e impacto.
Outro ponto essencial é preparar engenheiros para liderar equipes multidisciplinares. O setor de tecnologia depende de integração permanente entre negócios, engenharia, design, dados e operações. Isso requer uma liderança colaborativa, madura na gestão de riscos e incertezas, e orientada a propósito.
Também necessitamos de engenheiros com alta capacidade de adaptação em um ambiente de mudanças aceleradas. Tecnologias emergentes, como Inteligência Artificial (IA), computação quântica, biotecnologia e energias renováveis – área em que o ITA Fortaleza deve se destacar – demandam atualização constante. Nesse sentido, acredito que os engenheiros do ITA já carregam uma vantagem: o gosto pelo estudo faz parte de seu DNA.
Em um mercado onde a tecnologia avança de forma exponencial, essas habilidades deixam de ser diferenciais e passam a ser absolutamente essenciais.
Pontes entre o setor privado e o social
ITAEx – Sua trajetória combina alta gestão executiva, docência e trabalho voluntário. Como essas diferentes dimensões se alimentam e o que o setor privado pode aprender com a lógica das organizações sociais?
SM – Vejo essas três dimensões como partes de um ciclo virtuoso de aprendizagem, inovação e impacto. Cada uma delas oferece perspectivas, valores e práticas que fortalecem as demais.
A gestão executiva traz visão estratégica, capacidade de alocar recursos (humanos, financeiros e de conhecimento), tomada de decisão e liderança. Essa vivência corporativa me ajuda, como docente, a dar aulas mais conectadas à realidade do mercado, com exemplos concretos e incentivo ao desenvolvimento de competências comportamentais como liderança, colaboração e comunicação.
A docência, por sua vez, desenvolve clareza na comunicação, capacidade de estruturar ideias e empatia ao ensinar. Essas habilidades são valiosas para qualquer executivo, tornando-o mais pedagógico na liderança, mais atento à formação de equipes e mais apto a estimular a aprendizagem contínua.
Por fim, o voluntariado adiciona uma dimensão humana e social que muitas vezes faz falta no ambiente corporativo. Foi no trabalho voluntário que aprimorei minha capacidade de reconhecer desigualdades, incorporar propósito às metas e praticar uma liderança mais humilde. Tem uma frase que levo comigo desde então:
“Há grandes homens que fazem os outros se sentirem pequenos,
mas o homem de verdade é o que faz os outros se sentirem grandes.”
As organizações sociais ensinam lições profundas. A primeira delas é que instituições devem ter não apenas metas, mas também propósito e impacto social claros. Lembro-me de um jantar com Dave Packard, fundador da HP, em 1996. Pouco da conversa ficou na memória, exceto uma mensagem central: a HP no Brasil deveria gerar um impacto positivo para a sociedade brasileira, especialmente nas regiões onde mantinha fábricas e escritórios. Esse entendimento reforçou em mim a importância do propósito como parte da estratégia.

Em 2001, a HP concedeu a Maemura uma licença e patrocinou o curso SEP (Stanford Executive Program) na Stanford University, que complementou sua formação em gestão com os aspectos mais estratégicos de uma empresa. Em 2001, recebeu o Prêmio “President’s Club” de Carly Fiorina, presidente mundial da HP.
As organizações sociais também demonstram uma eficiência admirável: trabalham com poucos recursos, o que as obriga a buscar soluções simples, criativas e colaborativas. Em vez de competir, operam em rede, formando alianças e parcerias. Além disso, a necessidade de prestação de contas a patrocinadores e doadores exige transparência e governança robusta, práticas extremamente valiosas para o setor privado.

Maemura com o certificado de conclusão da Graduação em Stanford
Visão sobre o papel do iteano
ITAEx – Como exemplo de iteano que leva os valores do ITA para além da engenharia, qual deve ser o papel do ex-aluno do ITA na sociedade de hoje?
SM – Acredito que precisa ir muito além da excelência técnica. Em um mundo marcado por inovação acelerada, desafios sociais complexos e exigências crescentes de sustentabilidade, somos chamados a exercer uma atuação que combine dimensão tecnológica, visão estratégica, responsabilidade ética e sensibilidade humanista.
Devemos ser mais do que engenheiros: precisamos ser guardiões dos valores do ITA e da ética, profissionais capazes de integrar conhecimentos multidisciplinares, criativos e inovadores, comprometidos com a sustentabilidade e preparados para atuar como agentes de transformação social.
Em síntese, nós, iteanos, temos a responsabilidade de construir o futuro com inteligência, ética, humanidade e propósito.
Mensagem às novas gerações
ITAEx – Que conselho deixaria aos alunos e jovens ex-alunos do ITA que desejam unir carreira, propósito e impacto social, como o senhor fez?
SM – Nós somos engenheiros, não é? Somos formados para resolver problemas. Por isso, o primeiro passo é simples e profundo ao mesmo tempo: escolham um problema – na verdade, um desafio – que vocês amariam resolver. Dedique-se a compreendê-lo profundamente e busque excelência no desenvolvimento da solução. É aí que nasce o propósito e a realização.
Será um compromisso com um desafio real da sociedade: mobilidade, educação, saúde, desigualdade, sustentabilidade, inclusão, tecnologia ética, energia, moradia – qualquer tema que faça seus olhos brilharem. E façam isso com excelência, como aprendemos no ITA. Isso sustentará uma carreira sólida nos caminhos que vocês escolherem trilhar.
O impacto social surge justamente dessa capacidade de transformar conhecimento, dedicação e excelência em benefício concreto para pessoas, organizações, comunidades e para o País.
Alguns conselhos pragmáticos: explorem, participem de projetos, estágios, pesquisas, hackathons, empresas juniores, voluntariado. Descubram o que realmente os move. Depois, conectem-se a grupos ligados ao tema de interesse – centros de pesquisa, empresas, startups, ONGs, escolas, movimentos. Conversem, entendam, validem, proponham, testem. Quando vocês se tornam protagonistas, as oportunidades surgem naturalmente com o tempo.
E, por fim, mantenham sempre curiosidade e humildade. Conversar e ouvir atentamente as pessoas vale, muitas vezes, mais do que buscar respostas prontas em mecanismos de busca ou em sistemas de IA.
Disciplina Consciente
ITAEx – O senhor costuma mencionar a importância da Disciplina Consciente (DC) na trajetória profissional e pessoal. Como esse princípio orientou suas escolhas desde a formação no ITA até a atuação como executivo, professor e voluntário?
SM – Quando ingressei no ITA, eu acreditava que DC era apenas não colar nas provas. Com o tempo, e convivendo com veteranos, professores e, mais tarde, com iteanos nas empresas, compreendi que ela vai muito além disso. Trata-se de um código de valores e de ética adotado voluntariamente, não por imposição.
Hoje entendo a DC como uma postura que nos chama a ser íntegros e a fazer “o que é certo porque é certo”, mesmo quando ninguém está olhando. Ela não se limita à excelência técnica: é também formação de caráter, compromisso com a verdade, senso de dignidade e construção de uma ética comunitária baseada no respeito.
A Disciplina Consciente também é crítica, e me ensinou a não aceitar regras, sejam de empresas, universidades ou organizações sociais, de maneira automática, mas a compreendê-las, questioná-las e, quando necessário, propor mudanças. Esse espírito de autorregulação fortalece confiança e maturidade institucional, seja na atuação como executivo, professor ou voluntário.
Outro aprendizado profundo veio da forma de resolver conflitos. Desde o ITA, a DC me orientou a buscar abordagens restaurativas: diálogo sereno, aconselhamento mútuo, reconstrução de confiança – em vez de punição, sanções ou represálias. Carreguei isso para toda a vida profissional.
Por fim, a DC influenciou meu estilo de liderança. Sempre incentivei as equipes a assumirem responsabilidade pessoal, para que fizessem o que é certo sem depender de supervisão constante. Acredito que isso gera ambientes mais justos, maduros e colaborativos, baseados em confiança e respeito, valores tão essenciais quanto qualquer competência técnica.
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