Poucos nomes representam tão claramente a tradição, a técnica e a paixão que moldaram a história da engenharia aeronáutica brasileira quanto o do professor Ekkehard Carlos Fernando Schubert (T65)

Filho de Franz Schubert, um entusiasta do voo a vela, Ekkehard transformou, ainda na infância, a curiosidade por objetos voadores em vocação e, mais tarde, em legado. Na foto, ele com o pai, no Clube Politécnico de Planadores (Jundiaí – SP)
Formado engenheiro aeronáutico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA em 1965, participou de alguns dos capítulos mais importantes da aviação nacional: esteve no embrião do Bandeirante, liderou processos industriais no Brasil e no exterior e se tornou referência no uso de materiais compósitos e em sistemas de qualidade.
Paralelamente à carreira industrial, manteve sempre vivo o espírito do volovelista. Campeão brasileiro em diversas ocasiões, acumula milhares de horas de voo e dedicou décadas ao desenvolvimento do P1.
Professor do ITA desde 1998, Schubert é lembrado pelos alunos pela firmeza, pela clareza e pela Disciplina Consciente, marca registrada de sua trajetória. Neste ano de 2025, foi homenageado com o Prêmio Montenegro, reconhecimento de uma vida profissional que reflete o sonho de Marechal Montenegro: formar engenheiros capazes de dar asas ao Brasil.

Na foto, com a filha Flávia, em um voo em altitude na Argentina
Nesta entrevista, Schubert, às vésperas de completar 84 anos (nasceu em 26 de dezembro de 1941), revisita suas origens e comenta sua relação com o ITA, compartilhando a filosofia por trás de seus projetos e refletindo sobre o futuro da aviação, sempre com a calma e a precisão de quem viveu a engenharia em cada detalhe, no chão de fábrica, na sala de aula e nas alturas.
Desde muito cedo, o voo a vela ocupou um espaço especial na vida de Ekki (como ele é conhecido no meio).

O fascínio pelas aeronaves começou ainda na infância, quando improvisou seu primeiro “planador” com bancos e tábuas. O que nasceu como brincadeira transformou-se em paixão duradoura e, mais tarde, em complemento natural à engenharia
“O voo a vela começou para mim como uma atividade fascinante na infância e na adolescência, mas logo se tornou um complemento ao curso de engenharia aeronáutica no ITA”.
Para além da técnica, o planador é também um espaço de convivência:
“Hoje, o voo a vela é mais uma atividade social, onde encontro amigos nos fins de semana.”
Ao longo da formação no ITA, Schubert encontrou não apenas a base técnica que guiaria sua carreira, mas também valores que considera fundamentais até hoje. Entre eles, destaca a Disciplina Consciente, conceito que sempre fez questão de transmitir aos alunos.
“O ITA foi decisivo na minha formação, não só como engenheiro, mas como pessoa. A Disciplina Consciente teve, tem e terá enorme influência na vida das pessoas”.
Para ele, esse princípio é inseparável da aviação:
“Não se fala em atividade profissional na aviação sem Disciplina Consciente. Ela nos ensina que as coisas e as pessoas são o que são, e não adianta esconder a verdade, o respeito a tudo e a todos é fundamental.”
Na trajetória profissional, Schubert esteve envolvido em projetos que marcaram a história da indústria aeronáutica brasileira, desde o IPD-6504, que daria origem ao Bandeirante, às aeronaves Urupema, Ipanema, Brasília, Tucano e AMX. Para ele, a motivação sempre foi clara: criar algo que não existia antes.
“Fazer o que gosta e gostar do que está fazendo, foi isso que me levou à aeronáutica. Projetar um avião é criar algo novo, que nasce, cresce, é fabricado, ensaiado e revela suas qualidades e problemas, que precisam ser resolvidos!”
Ao olhar para a evolução da engenharia no Brasil, ele reconhece os avanços conquistados:
“A Embraer conseguiu vencer nossos problemas crônicos ao atingir um nível que permitiu exportar aviões.”
O planador P1, projeto que o acompanha há décadas, nasceu de uma necessidade concreta do voo a vela brasileiro: a substituição de modelos antigos de treinamento primário. Apesar dos desafios enfrentados para levar o projeto à produção em série, ele se mantém como símbolo de renovação e visão de futuro para o esporte.
“O P1 nasceu de uma clara necessidade: termos um planador nacional seguro para instrução primária. Mas não consegui vencer as dificuldades para chegar à fabricação em série.”
Como professor do ITA desde 1998, Schubert se tornou referência para gerações de alunos, que o homenagearam com o Prêmio Weis em 2016.
“Além da teoria, considero essencial transmitir aos alunos a experiência vivida, oferecendo uma visão holística da engenharia”.
Sua relação com os estudantes equilibra rigor e orientação:
“Sempre fui exigente quanto à matéria e quanto à Disciplina Consciente, mas também um orientador, um colega que eles logo serão.”

Mesmo centrada nas memórias com o pai, fundamentais para entender sua trajetória, esta entrevista também revela o que permanece ao longo de gerações: a força dos laços familiares. Na foto, ao lado da irmã Bárbara, da esposa Márcia e da filha Flávia, ele mostra que os valores que herdou seguem vivos e se renovam
Neste ano, ao receber o Prêmio Montenegro (foi o mais votado entre os indicados das T63, T64 e T65), ele reviveu memórias de um ITA que respirava aviação em cada corredor:
“Recebi com muita honra e orgulho esse prêmio. Minha vida dedicada ao desenvolvimento da indústria aeronáutica corresponde ao sonho do Marechal Montenegro. Na minha época, respirava-se aviação.”
Ao refletir sobre o futuro, ele mantém a crença de que seu propósito de “dar asas ao Brasil” permanece atual, ainda que em novas formas.
“Asas ainda são necessárias para o deslocamento pelas alturas, mas hoje temos outros meios: drones, foguetes, satélites, eVTOLs. Mesmo assim, continuo achando que a aerodinâmica produz formas muito bonitas.”
- Primeiro “planador” aos 4 anos, feito com bancos, tábuas e tijolos.
- Campeão brasileiro de voo a vela 10 vezes, com mais de 4.500 horas de voo.
- Participou do embrião do Bandeirante (IPD-6504) logo no início da carreira.
- Gerenciou o programa Tucano no Egito, entre 1984 e 1986.
- Especialista em materiais compósitos, experiência que adquiriu com o desenvolvimento do planador P1.
