Da cabine de caça à vanguarda científica: o aviador iteano que honra o espírito de Santos Dumont

No mês em que o Brasil celebra o Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira, a ITAEx homenageia um iteano que representa o elo entre o céu e a ciência: o Coronel Aviador R1 Vilson Rosa de Almeida (T97), referência internacional em fotônica e óptica integrada.

Formado pela Academia da Força Aérea (AFA) e graduado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com distinção Magna Cum Laude, Vilson construiu uma carreira que une rigor técnico, disciplina e inovação, marcando presença em instituições como o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Suas pesquisas alcançaram reconhecimento mundial, com publicações em periódicos de ponta como a Nature Materials e presença constante na lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo. Nesta entrevista à ITAEx, Vilson reflete sobre o significado de ser aviador, engenheiro e cientista, e o papel da ciência na defesa nacional, deixando uma mensagem inspiradora aos jovens que sonham em seguir caminhos que unem aviação, tecnologia e conhecimento, três pilares que continuam a elevar o nome do ITA e do Brasil.

Dia do Aviador e Carreira Militar

No Centro de Aplicações Táticas e Recompletamento de Equipagens (CATRE), em Natal (RN) | 1988

ITAEx – O senhor é formado em Ciências Aeronáuticas e Administração, com especialização em Aviação Militar na AFA e fez carreira como aviador antes de se destacar no meio científico. O que significa celebrar o Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira (FAB) e ser retratado pela ITAEx?

Coronel Aviador Vilson – É uma honra ser retratado como aviador, engenheiro e cientista nesta data tão especial e significativa. Entendo que a minha trajetória profissional represente, em uma escala muito menor, o verdadeiro espírito de grandes protagonistas da aviação brasileira, como Santos Dumont.

ITAEx – Quais aprendizados da vida militar mais marcaram sua trajetória pessoal e profissional?

Coronel Aviador Vilson – A experiência como piloto de caça da FAB foi determinante na minha formação, ensinando-me a ser perseverante e autodisciplinado. São valores que influenciaram fortemente todos os meus passos seguintes, desde a graduação e o mestrado no ITA, até a minha atuação em pesquisa científica, gestão institucional e nas diversas funções que exerci ao longo da carreira.

ITAEx – Como foi a transição da cabine de comando para os laboratórios e centros de pesquisa?

Coronel Aviador Vilson – Desde a infância, já havia em mim um forte viés de pesquisador e cientista. Então, a passagem da atividade operacional na aviação militar para a formação acadêmica em engenharia, e depois para a pesquisa científica, foi bastante natural para mim. Inclusive, um dos motivos que me levou a ingressar na FAB foi justamente saber que, como Oficial, teria a oportunidade de cursar o ITA e aprofundar minha vocação pelo conhecimento.

O ITA e a Formação Acadêmica


Durante a cerimônia de formatura do ITA, em 1997, o então aluno Vilson Rosa de Almeida recebeu a Láurea Magna Cum Laude, sendo cumprimentado pelo Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e pelo Ministro da Aeronáutica, Lélio Viana Lobo

ITAEx – Graduado em Engenharia Eletrônica com distinção Magna Cum Laude e mestre em Micro-ondas e Eletro-Óptica pelo ITA, seguiu para o doutorado na Cornell University e construiu uma carreira acadêmica brilhante. O que o ITA representou nessa trajetória?

Coronel Aviador Vilson – O ITA foi a base sólida para minha carreira em pesquisa científica. O currículo e a metodologia de ensino me forneceram conhecimentos fundamentais em Matemática, Física, Química e outras áreas, permitindo-me absorver conceitos de diferentes campos científicos e tecnológicos. Essa formação foi essencial para que eu pudesse enfrentar desafios acadêmicos e profissionais em múltiplos níveis.

ITAEx – Como a experiência de ser aluno e, depois, professor no ITA influenciou sua visão sobre ciência e tecnologia aplicadas à defesa e ao setor aeroespacial?

Coronel Aviador Vilson – Ao longo da minha carreira, alternei várias vezes entre os papéis de aluno e de instrutor, tanto na aviação militar quanto no ciclo entre discente e docente no ITA. Essa dinâmica me mantém em constante aprendizado, colocando-me novamente na posição de estudante, enquanto me permite também compartilhar minha experiência e meu conhecimento como professor. Esse movimento cíclico é extremamente saudável e essencial para quem busca o contínuo aperfeiçoamento, especialmente em áreas de alta tecnologia e relevância estratégica como a defesa e o setor aeroespacial.

Registro publicado na revista comemorativa da Turma de 1997 do ITA, marcando o encerramento de um ciclo e o início de muitas trajetórias de sucesso

ITAEx – Em 2017, o senhor coordenou o Programa de Formação Complementar (PFC), também conhecido como Minor, em Engenharia Física, o primeiro do ITA, que exigiu intenso trabalho de articulação acadêmica e administrativa. Depois disso, foram criados mais cinco Minors. A partir dessa experiência, como enxerga a evolução da formação de engenheiros no ITA diante das novas demandas tecnológicas e científicas?

Coronel Aviador Vilson – A carreira e a formação de engenheiros no Brasil e no mundo vêm se transformando rapidamente, impulsionadas por novas demandas tecnológicas e mudanças no perfil das sociedades. É praticamente impossível prever como esse cenário evoluirá nas próximas décadas. Nesse contexto desafiador, o ITA mantém um elevado padrão de excelência em sua graduação, capacitando seus egressos a se adaptarem com agilidade às transformações que a engenharia enfrenta. O conceito de Engenheiro de Concepção, que norteia a formação no ITA, diferencia o Instituto de outras instituições de ensino, oferecendo aos graduados a capacidade de se posicionar em nichos profissionais que melhor correspondam ao seu talento e vocação.

ITAEx – A Disciplina Consciente (DC) do ITA se conectou, de alguma forma, com suas atividades de aviador, pesquisador e professor?

Coronel Aviador Vilson – A DC sempre fez parte da minha formação pessoal, desde o ambiente familiar, e foi fortalecida pela doutrina semelhante cultivada na AFA e na atividade operacional da aviação de caça. Por isso, a Disciplina Consciente integrou-se naturalmente à minha trajetória como aluno do ITA e tem permeado todas as minhas ações profissionais, tanto nas áreas científica e tecnológica, quanto nas de gestão e administração.

Pesquisador de Impacto Mundial

ITAEx – Seu nome foi incluído diversas vezes na lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo e teve artigos entre os mais citados da história da Optics Letters. Como recebe esse reconhecimento internacional?

Coronel Aviador Vilson – Sinto-me muito honrado por integrar essa lista desde o ano de referência de 2020 até o mais recente, de 2024, tanto na categoria de desempenho ao longo da carreira quanto no anual. E considero esse resultado um reconhecimento à qualidade e ao impacto das pesquisas que venho desenvolvendo desde o início dos anos 2000. Um dos fatores que certamente contribuíram para isso foi meu envolvimento em áreas científicas emergentes, que possibilitaram o desbravamento de propostas originais e promissoras, e que, por essa razão, têm sido amplamente citadas e reconhecidas pela comunidade científica internacional.

ITAEx – Suas pesquisas em fotônica e óptica integrada têm aplicações em setores como telecomunicações, saúde e aeroespacial. Qual dessas áreas o senhor considera mais transformadora para o futuro?

Coronel Aviador Vilson – As áreas em que tenho atuado apresentam um alto potencial de dualidade em suas aplicações, beneficiando simultaneamente múltiplos setores científicos e tecnológicos. Não seria possível apontar qual delas será a mais transformadora, pois acredito que todas, e até mesmo outras ainda em gestação, deverão colher benefícios significativos das inovações em fotônica e óptica integrada, cada uma à sua maneira e em seu tempo.

ITAEx – O senhor participou de estudos publicados em revistas como Nature Materials. O que mais o entusiasma em ver resultados de pesquisas brasileiras ganhando espaço em veículos de ponta no cenário científico global?

Coronel Aviador Vilson – O artigo publicado na Nature Materials foi especial em vários aspectos. Tivemos o privilégio de conquistar a capa da edição de fevereiro de 2023, o que representou um reconhecimento extraordinário do trabalho desenvolvido. Esse estudo contou com a participação imprescindível de um aluno de doutorado do ITA, William dos Santos Fegadolli, sob minha orientação, que realizava estágio no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em parceria com o renomado pesquisador Prof. Axel Scherer. Hoje, o William ocupa o cargo de Diretor de Tecnologias Ópticas na Nokia, o que me enche de orgulho. É muito gratificante ver um ex-aluno superar o próprio mestre. Acredito que, até o momento, essa seja a única capa de um periódico da família Nature publicada por pesquisadores de todo o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), o que inclui o ITA, o que torna essa conquista ainda mais meritosa. Tenho um apreço especial por esse resultado, pois a contribuição da equipe brasileira foi essencial para o sucesso e o destaque internacional que o artigo alcançou.

Legado, Futuro e Inspiração

No exercício da função de Diretor de Cooperação Institucional do CNPq (2019–2020), contribuindo para o avanço da ciência e para a integração entre instituições de pesquisa no Brasil e no exterior

ITAEx – O senhor foi Diretor do IEAv de 2012 a 2014, e também atuou como Diretor de Cooperação Institucional no CNPq (2019-2020). Atualmente, dentre outras atividades, exerce o cargo de Gestor de Área de Engenharias e Computação da FAPESP – sempre ligado ao desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. Como vê os papeis da ciência e da inovação para o fortalecimento da defesa nacional?

Coronel Aviador Vilson – A ciência e a inovação são elementos essenciais para a Defesa nacional, como demonstram inúmeras lições extraídas da história dos conflitos e das estratégias de dissuasão ao longo dos séculos. Essa relevância tem se tornado ainda mais evidente no contexto contemporâneo, diante da evolução tecnológica dos conflitos atuais. Não há soberania sem domínio científico e tecnológico. No entanto, é importante reconhecer que esse domínio exige investimento contínuo, esforço sustentado e tempo prolongado para ser conquistado, e pode, infelizmente, ser perdido em um período muito mais curto do que aquele necessário para alcançá-lo. Essa consciência é fundamental para orientar políticas de Estado voltadas à manutenção e ao fortalecimento da capacidade científica e tecnológica do País.

Durante sua gestão como Diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEAv), entre 2012 e 2014, período de incentivo à pesquisa científica e à inovação em defesa e tecnologia aeroespacial

ITAEx – O que poderia dizer para os jovens cadetes da AFA e engenheiros do ITA que sonham em trilhar uma carreira que conecte aviação, ciência e tecnologia?

Coronel Aviador Vilson – Meu conselho é que eles absorvam, com atenção e humildade, cada ensinamento técnico e moral ao longo de suas jornadas, permitindo que esses valores os acompanhem em cada novo desafio. Isso enriquecerá não apenas suas próprias experiências, mas também as das pessoas ao seu redor. Devem trilhar seus caminhos com perseverança, disciplina e dedicação, pois esses pilares os tornarão mais resilientes e sábios a cada obstáculo superado, e mais bem preparados para lançarem-se em novas e promissoras jornadas.

Em voo de planador em Ipuã (Caçapava), em 2022, uma atividade que reflete sua paixão permanente pela aviação e pelo domínio técnico do voo

ITAEx – Olhando para sua trajetória, o que mais tem orgulho como aviador da FAB, engenheiro do ITA e cientista reconhecido mundialmente?

Coronel Aviador Vilson – Sinto-me especialmente orgulhoso por ter influenciado e contribuído para a formação e o sucesso de tantos colegas e alunos, que hoje seguem brilhando em suas próprias trajetórias. Também me sento gratificado ter atuado na condução e no fortalecimento de instituições públicas e privadas, sempre com foco na ciência, na tecnologia e no desenvolvimento do Brasil. Essas oportunidades, de contribuir para algo maior do que a realização individual, são, para mim, a verdadeira medida do êxito profissional.

Ao revisitar sua trajetória, o Coronel Vilson reafirma o que há de mais genuíno no espírito do aviador: a busca incessante por conhecimento, superação e serviço ao País. Sua carreira, que atravessa os domínios da aviação, da engenharia e da pesquisa científica, simboliza a força transformadora da Disciplina Consciente e da curiosidade intelectual, valores que também definem a missão do ITA. No Dia do Aviador e da Força Aérea Brasileira, a ITAEx presta homenagem não apenas ao oficial que alçou voo pelos céus do Brasil, mas também ao cientista que segue abrindo novas fronteiras para a ciência e a tecnologia nacionais. Um exemplo vivo de que, onde há propósito e dedicação, o voo do conhecimento não tem limites.

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