Na série que retratamos os 25 anos sem o Marechal Casimiro Montenegro Filho, cada novo episódio revela não apenas lembranças, mas também sentimentos e aprendizados daqueles que tiveram a honra de participar de seu cortejo fúnebre. Depois de ouvirmos Celso Faria de Souza (T00) e José Normando Bezerra Junior (T01), damos continuidade à série em seu terceiro episódio com os depoimentos de Luciano Ferreira Secchin (T02) e Leandro Silva Galvão de Carvalho (T00).
Eles estiveram no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2000, quando Montenegro foi sepultado no Cemitério São João Batista, na Cripta dos Aviadores. Ambos carregaram sua esquife. Mas cada um guardou memórias diferentes — que, juntas, compõem um retrato ainda mais nítido do que significou aquele momento.
A lembrança
Secchin recorda o despertar abrupto de um dia que ficaria marcado para sempre. “Eu acordei com meu colega Lucas Rubiano de Souza Cruz (T02) me avisando que o Marechal Casimiro havia falecido. Como eu era um dos membros do Centro Acadêmico Santos Dumont – Casd, fui escolhido como um dos representantes dos alunos para ir ao sepultamento no Rio de Janeiro”, conta o iteano.
A comitiva seguiu em duas aeronaves Bandeirante da Força Aérea Brasileira (FAB), saindo do aeródromo de São José dos Campos. Professores como Alberto Adade Filho, então chefe da Divisão de Alunos, e Cláudio Jorge Alves acompanharam a viagem. Secchin lembra que eram oito alunos no total: três civis do alojamento — ele próprio, Celso Faria e Giovanni Gabriele — e outros cinco militares, entre eles dois aviadores, André Luiz Pimentel Uruguay (T03) e Marcelo Melato Marcucci (T02), além de outros três moradores do H8.
“Eu não sei como houve essa definição de quem carregaria o caixão. Contaram que era um pedido da família do Marechal: que alunos do ITA assumissem essa missão”, diz.
Naquele instante, a mente de Secchin ainda estava atônita: “No dia não passava muita coisa na minha cabeça, foi tudo muito de supetão. Depois vi, com calma, a sorte — pode-se considerar isso — que tive de representar várias gerações de alunos no último agradecimento ao Marechal Casimiro.”
A experiência não foi apenas um gesto de despedida, mas também um convite à reflexão sobre o legado de Montenegro. Secchin fala da visão de longo prazo de Casimiro. Na época, argumentava-se que o Brasil não tinha potencial industrial e que seria mais barato mandar pessoas estudarem fora:
“Se não houvesse ousadia, visão e perseverança do Marechal Casimiro Montenegro Filho, e também de outros que o sucederam, como o o Brigadeiro Paulo Victor da Silva e o Coronel Ozires Silva – não teríamos esta indústria pujante que temos hoje no Brasil.”
Ele também resgata uma história que o marcou ao estudar a vida do Marechal, mostrando o quanto ele valorizava a instituição: “Um professor reclamou que não havia ar-condicionado no laboratório, e que isso poderia comprometer seus equipamentos. Na hora, o Marechal retirou o aparelho de sua própria sala e o enviou para o laboratório. É o tipo de atitude rara entre nossas lideranças, e que faz muita falta no Brasil.”
A experiência
Enquanto Secchin foi despertado com a notícia, Leandro vivenciou aquele dia de outra forma: “No dia do falecimento do Marechal Casimiro, eu estava em meu apartamento no H8, quando recebi um telefonema do prof. Adade. Ele informou que havia um avião da FAB saindo para o Rio de Janeiro e perguntou se eu gostaria de participar do cortejo, pedindo que eu convidasse colegas civis e militares que também desejassem ir ao enterro”.
Leandro estava no quinto e último ano do curso de Engenharia Eletrônica, e – como aspirante-a-oficial da FAB, se mobilizou imediatamente. O grupo foi fechado com ele, Celso, Giovanni, Meton, Normando e Secchin.
Quando a aeronave chegou à Base Aérea do Galeão, foram levados ao Cemitério São João Batista. “O convite para conduzir o caixão surgiu ali, durante as despedidas”, relata.
O primeiro impulso de Leandro foi recusar, pois considerava que esse papel caberia às pessoas mais próximas. “Eu tinha acabado de completar 22 anos no dia anterior, não tinha maturidade para lidar com situações de perda. Mas, após conversar com colegas e professores, percebi que nada mais natural seria que os alunos, frutos do ITA, fossem incumbidos dessa tarefa.”
Ele aceitou, e transformou aquele instante em aprendizado profundo: “Apesar de não ter conhecido Casimiro em vida, eu o admirava profundamente pela forma pragmática com que lidava com grandes desafios. Nos quatro anos em que cursei o ITA, antes do seu falecimento, procurei as mais diversas fontes sobre o Marechal — feitos, histórias, causos, inclusive no jornal A Cova, do Casd, onde fui editor e colaborador.”
Naquele dia, o simbolismo da união ficou claro para Leandro: “O caixão ter sido carregado por três civis e três militares simbolizava a essência do ITA. Foi justamente isso que me fez aceitar: um chamamento para representar um dos maiores ensinamentos do Marechal — a solução de problemas envolve união de habilidades, não divisão de rótulos.”
O velório também o levou a refletir sobre o impacto histórico do fundador. “Em um país agrário nos anos 1940, Casimiro concebeu criar uma escola para formar quem fomentaria a indústria aeronáutica. E conseguiu reunir pessoas que acreditaram nessa visão. Sua influência foi além da Aeronáutica, alcançando telecomunicações, computação e outros setores.”
Leandro acredita que Montenegro tinha consciência da durabilidade de seu projeto, mas não de todos os seus desdobramentos:
“Ele se cercou das pessoas certas e soube articular contra quem se opunha, mas não podia prever a dimensão global que o ITA e seus egressos teriam.”
O impacto pessoal foi profundo: “Percebi que meu papel não deveria se limitar a consumir recursos e oportunidades do ITA. Era meu dever contribuir também. Aprendi que o momento certo de agir é sempre o hoje. E a maior lição foi que nossa contribuição tem prazo de validade — tão importante quanto implementar é preparar pessoas para dar continuidade ao legado.”
Ao resumir sua experiência, Leandro é categórico: “Carregar o caixão de Montenegro significou participar do ocaso solene de uma estrela, que deixou em seu rastro uma constelação como legado.”
Registro e memória coletiva
Enquanto Secchin enfatiza a surpresa e a honra de ser escolhido, Leandro sublinha o peso do simbolismo e das lições aprendidas. Ambos, no entanto, convergem em um ponto essencial: a experiência não foi apenas pessoal, mas também coletiva.
Esse caráter coletivo se expressa de forma marcante no trabalho jornalístico que o próprio Leandro realizou meses depois. Na edição de março de 2000, o jornal A Cova publicou uma reportagem de sua autoria sobre a morte de Casimiro Montenegro Filho. Um testemunho que, mais do que noticiar, preservou para a comunidade iteana a memória de um gesto e de um legado.
Aos olhos desses alunos, ainda em formação, a cena ganhou contornos de rito de passagem. Foi um aprendizado que não estava nos livros. Ali, entenderam que ser iteano era também assumir uma responsabilidade diante da memória e dos valores que Montenegro deixou para o Brasil.

📌 Assim, o terceiro episódio da série reafirma que a despedida do Marechal não pertenceu apenas àquele fevereiro de 2000, mas atravessou os anos como memória, exemplo e inspiração.
Uma história que não se encerra, pois a cada voz que se soma, o legado de Montenegro se renova.


