Série 25 anos Sem Casimiro – Episódio 2 – A Escolha dos Alunos

Na madrugada silenciosa que sucedeu à notícia da morte do Marechal Casimiro Montenegro Filho, fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, seis alunos foram chamados a cumprir uma missão que uniria simbolismo, emoção e história: carregar o caixão daquele que dera asas à engenharia brasileira. Entre eles, estavam Celso Faria de Souza (T00) e José Normando Bezerra Junior (T01), cujas lembranças se entrelaçam para compor um retrato vivo de um momento inesquecível.

O chamado inesperado

Celso, então no quinto ano, foi surpreendido por uma ligação do professor Alberto Adade Filho, já tarde da noite. Adade conhecia seu interesse pela história do ITA e pelo papel dos fundadores, e não hesitou em confiar-lhe uma responsabilidade rara: escolher os seis alunos que representariam a comunidade iteana no funeral.

“Eu sabia que seria um desafio escolher. Não podia indicar alguém do primeiro ou segundo ano, pois não sabíamos se eles se formariam. Então, priorizei minha turma, já no quinto ano. Incluí um colega do terceiro, um do quarto e mais três da minha turma. O Leandro Galvão, militar e apaixonado pela história do ITA, não podia faltar. Para equilibrar, chamei também dois civis”, relembra Celso.

Foi assim que se formou o grupo:
Civis: Celso Faria de Souza (MEC T00), Giovanni Ribeiro Gabriele (INFRA T00) e Luciano Ferreira Secchin (MEC T02)
Militares: Meton Barreto de Morais Neto (ELE T00), José Normando Bezerra Junior (COMP T01) e Leandro Silva Galvão de Carvalho (ELE T00).

A escolha, feita com cuidado, já trazia o simbolismo que marcaria toda a cerimônia: civis e militares, ombro a ombro, refletindo a essência do ITA.

Entre o dever e a emoção

Normando, ainda no quarto ano, recebeu a notícia no alojamento do H8, pelo professor Adade e por Leandro. “Acordar com a notícia da morte do fundador do ITA foi um choque. Logo depois, veio a honra e a responsabilidade: eu seria um dos seis alunos a participar do seu funeral.”

Sem possuir o uniforme 5A, Normando usou o 7A, acompanhado pelos demais colegas militares, para manter a unidade. “Talvez eu não compreendesse toda a simbologia na época, mas hoje vejo claramente: três civis e três militares, lado a lado, representavam a essência do ITA. Naquele instante, não éramos apenas estudantes. Éramos o sonho de Montenegro em movimento.”

A despedida do visionário

A viagem ao Rio de Janeiro, em um Bandeirante, também trouxe momentos marcantes. No mesmo voo estavam professores de diferentes gerações. Para Normando, aos 20 anos, foi como tocar a própria história da aviação brasileira.

Chegando ao Cemitério São João Batista, os alunos se depararam com a grandiosidade do ritual militar: o corpo de Montenegro, ao repousar na Cripta dos Aviadores – onde também estão sepultados Santos Dumont e Eduardo Gomes – ouviram disparos de fuzis, salvas de canhão, sobrevoo de aviões. Celso recorda: “Enquanto carregava o caixão, pensava: como esse homem, tão frágil naquele instante, havia sido capaz de erguer algo tão duradouro? O caixão era leve, mas o legado que ele deixava era imenso.”

A viúva de Casimiro, Maria Antonietta Spinola Montenegro (in memoriam), emocionou-se ao agradecer aos alunos, dizendo que Casimiro teria ficado feliz em receber “seus queridos alunos” em sua casa. Normando, ao ouvir isso, sentiu um misto de alegria e tristeza: “Se soubéssemos que ele desejava esse contato, organizaríamos visitas todos os anos.”

Reflexões que atravessam o tempo

O episódio marcou cada um de forma diferente. Para Celso, já próximo de concluir o curso, não alterou sua trajetória profissional, mas deixou uma marca profunda em sua vida pessoal: “Jamais conseguirei fazer algo da dimensão que Montenegro fez, mas sinto que trago um pedaço do sonho dele. Tudo o que fiz, foi com energia e força, porque sei que também carrego o nome da minha escola.”

Normando, por sua vez, transformou aquele dia em guia de sua própria caminhada: “A figura do fundador deixou de ser apenas um nome. Tornou-se alguém real, que sonhou, lutou e construiu. Montenegro foi um arquiteto de País. Ele nos ensinou que é possível transformar o futuro a partir de um sonho — com parcerias, disciplina e visão.”

O silêncio e o legado

Se há uma lembrança que permanece viva, é a do silêncio. Normando resume: “A memória mais forte foi o silêncio respeitoso — de alunos, professores, autoridades, todos unidos para homenagear um visionário.”

Celso guarda a mesma impressão, traduzida em um símbolo: “Carregar aquele caixão tão leve me fez entender que, no fim, não levamos nada. Mas também me fez perceber que o peso verdadeiro está no legado que deixamos.”

Entre salvas de canhão e memórias que atravessam gerações, a despedida do Marechal Montenegro não foi apenas um funeral. Foi a reafirmação de um projeto de País, que vive em cada iteano que passou pelo H8, em cada avião que cruza os céus do Brasil, em cada ideia que nasce nos corredores do ITA.

Depois de 25 anos daquela despedida, o reconhecimento ao fundador do ITA ganhou um novo capítulo. Em 21 de maio deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.135, que inscreve o Marechal Casimiro Montenegro Filho no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Um desfecho que reafirma o tamanho de sua contribuição e garante que sua memória siga iluminando as próximas gerações.

📌 Este é o segundo episódio da série especial sobre os 25 anos da despedida do Marechal Casimiro Montenegro Filho.

Nas próximas edições, traremos mais duas vozes que viveram esse momento e carregam até hoje a força do seu legado.

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