O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) se prepara para apresentar, no próximo dia 2 de outubro, um espaço que representa um marco na evolução de seu modelo educacional: o HangarLab. O laboratório nasce da revitalização do antigo MOF (Máquinas Operatrizes e Ferramentas), um dos prédios mais antigos da instituição e fundamental nos primeiros projetos do ITA/IPD (Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento).
Do histórico MOF ao HangarLab
O MOF foi, durante décadas, palco da fabricação de peças e da formação prática dos alunos em manufatura. Com o tempo, no entanto, perdeu equipamentos, pessoal e relevância. Agora, ganha uma nova identidade, alinhada às demandas do século XXI, com estrutura moderna voltada para fabricação, prototipagem e integração de projetos acadêmicos.
“O HangarLab surge do inconformismo diante de situações inaceitáveis. Tínhamos um prédio central e de grande relevância subutilizado, enquanto o País enfrenta desafios sérios no ensino de engenharia. A pergunta natural foi: o que podemos fazer para melhorar esse cenário?”, explica o Prof. Dr. Anderson Borille, coordenador do projeto.
Mais do que um laboratório: um ecossistema
O HangarLab não será apenas um espaço físico. Ele se posiciona como ecossistema de integração acadêmica, reunindo equipes e projetos multidisciplinares de alunos — de aeromodelos a foguetes, robôs, veículos autônomos e até eVTOLs.
“O objetivo do HangarLab não é desenvolver soluções tecnológicas isoladas, mas criar um ambiente onde pessoas e instituições possam identificar oportunidades, organizar discussões, estruturar projetos e, por fim, implementar ideias. Queremos ser uma verdadeira ‘maternidade de projetos'”, reforça Borille.
Para o Reitor do ITA, Prof. Dr. Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, a iniciativa está plenamente conectada à estratégia institucional: “É inegável que as transformações na sociedade ocorrem em ritmo cada vez mais acelerado. Nesse cenário, torna-se essencial desenvolver não apenas competências tecnológicas, que podem rapidamente se tornar obsoletas, mas também habilidades socioemocionais. Aprender a aprender é hoje um requisito indispensável. O HangarLab materializa essa visão, alinhado à Política de Inovação do ITA e ao Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação da Aeronáutica.”
Estrutura para ensino, pesquisa e inovação
A nova infraestrutura permitirá desde aulas práticas de disciplinas introdutórias, como MTP03 (Introdução à Engenharia), até o apoio a iniciativas técnicas tradicionais do ITA, como ITAndroids, Formula ITA e ITA Baja.
“Além da oficina de fabricação, teremos áreas para dinâmicas em grupo, espaços de prototipagem e recursos audiovisuais modernos. O suporte técnico será garantido por novos profissionais, já previstos em edital de contratação, mas que devem ser complementados por outras formas de vínculo, dado o volume de demandas”, detalha Borille.
Segundo ele, nem sempre o foco dos alunos é aprender a operar equipamentos, mas sim desenvolver seus projetos. “Por isso, o HangarLab contará com apoio técnico especializado, garantindo segurança e eficiência” – justifica o coordenador.
Visão e propósito institucional
O Prof. Dr. Marcos Maximo, presidente do Comitê de Iniciativas Técnicas da ITAEx, acredita que o HangarLab responde a uma necessidade histórica:
“O ITA sempre teve uma forte cultura de iniciativas. Mais recentemente, inclusive em parte por conta do apoio da ITAEx, essas iniciativas se fortaleceram e se tornaram uma das principais motivações para os alunos estudarem Engenharia no Instituto. Entretanto, historicamente, as iniciativas sofrem com falta de instalações adequadas. O HangarLab busca prover essa infraestrutura, com a vantagem de ser um espaço compartilhado, de modo a alimentar sinergia entre elas. Toma inspiração no D:Dream Hall de Delft, que adota estrutura semelhante.”
Curadoria, inclusão e disciplina consciente
O funcionamento do HangarLab seguirá o princípio da inclusão. “Tenta-se incluir todas as iniciativas que assim desejarem, respeitando-se os limites de recursos. Adota-se uma postura de confiança, conforme dita a Disciplina Consciente. Cada equipe descreve suas necessidades e, a partir disso, buscamos um balanceamento que atenda ao maior número possível de iniciativas”, explica Maximo.
Embora o foco esteja nas iniciativas técnicas ligadas a desafios estudantis, não há restrição quanto às áreas da Engenharia. O objetivo é estimular a diversidade de projetos e fomentar o protagonismo estudantil.
Um novo paradigma pedagógico
A apresentação do HangarLab coincide com mudanças nas Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia (DCNs), que enfatizam a formação por competências.
“As recentes reformas do Ministério da Educação e Cultura (MEC) ratificam a importância de desenvolver competências como visão empreendedora, liderança e comunicação. Esses aspectos precisam ser treinados em projetos práticos, não apenas apresentados em livros. O HangarLab amplia justamente essa possibilidade”, afirma Borille.
Lorenzi reforça: “O ITA preserva suas singularidades pedagógicas, mas abre espaço para novas metodologias. O HangarLab se integra a esse modelo, ampliando o impacto social e fortalecendo o protagonismo estudantil.”
Segundo Maximo, o Comitê de Iniciativas Técnicas da ITAEx foi decisivo na concepção do HangarLab: “Coletamos as necessidades das iniciativas e elaboramos, junto com professores orientadores e lideranças técnicas, um projeto que combina experiência prática e visão estratégica. A ideia é maximizar a relevância do espaço, fortalecer o aprendizado e melhorar os resultados nas competições nacionais e internacionais.”
Conexão com a sociedade e a indústria
Mais do que formar engenheiros, o HangarLab conecta o ITA com empresas e governo.
“Projetos acadêmicos devem, em escala aproximada, reproduzir a vida real. Isso exige participação de entidades externas, com modelos rápidos e simples de entrada e saída. A desburocratização é fundamental”, ressalta Borille.
Lorenzi concorda: “A integração entre academia, indústria e governo é essencial para sustentar a excelência em educação e pesquisa. O HangarLab surge justamente como facilitador dessa aproximação, com instrumentos adequados e infraestrutura moderna.”
Parceria ITAEx e futuro do projeto
A viabilização do HangarLab só foi possível graças ao apoio da ITAEx, que aprovou o projeto de modernização do antigo MOF na chamada de 2023, viabilizando recursos para mobiliário, dispositivos audiovisuais e projetos de reforma elétrica.
“A ITAEx tem se mostrado um recurso eficiente e dinâmico no apoio às ações desenvolvidas dentro do ITA, ampliando o impacto na formação acadêmica e fortalecendo, ao mesmo tempo, os valores fundamentais e tradicionais da escola”, afirma o Reitor.
Expansão, sustentabilidade e legado
O mote “pense grande, comece pequeno e aja rápido” resume bem o espírito do HangarLab.
“Temos confiança de que é possível criar esse ambiente e cultura de inovação de modo a manter a perenidade das atividades. Nosso sonho é que o modelo inspire outras universidades a criarem seus próprios mecanismos, pois acreditamos que bons engenheiros são fundamentais para a construção de uma sociedade melhor”, conclui Borille.
Para Maximo, o impacto será imediato: “Espera-se que, devido à maior facilidade em prototipagem, os alunos se envolvam mais em projetos práticos de Engenharia. A sinergia existente permitirá uma rápida troca de conhecimento, benéfica para todos os envolvidos. A realização de projetos práticos de Engenharia é difícil e requer persistência. Muitas vezes, exige habilidades que não se aprendem em sala de aula. Se o aluno tem paixão pela Engenharia, sugiro que envolva-se em projetos, participe de iniciativas técnicas e ganhe experiência. Com isso, estará muito mais apto a transformar suas ideias em realidade.”
