Natural de Belém do Pará, o engenheiro mecânico-aeronáutico Ricardo Pereira Malato (T01) trilhou uma jornada marcada por resiliência, coragem e espírito empreendedor. De uma viagem solitária de ônibus ao Sudeste para prestar vestibulares, até assumir a presidência da EFIX Aviation Support, sua carreira reflete a força da formação recebida no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA e a capacidade de transformar desafios em oportunidades.
Ex-diretor técnico da Webjet e hoje à frente de uma operação integrada a um grupo global, Malato se mantém próximo ao ITA como Ponto Focal da T01, contribuindo para o fortalecimento da comunidade iteana e incentivando colegas a se engajarem.
Nesta entrevista à ITAEx, ele compartilha sua trajetória, os aprendizados ao longo da carreira e sua visão sobre a importância de retribuir ao ITA e ao Brasil o legado que recebeu.
──◇── HISTÓRIA PESSOAL
Desde a adolescência, Malato cultivava o sonho de estudar em uma boa universidade no Sudeste do Brasil. Esse desejo ganhou força quando mudou de escola para cursar o ensino médio, e teve a oportunidade de conhecer o diretor da nova instituição, Manoel Leite — um grande entusiasta das escolas militares no Pará, tornando-se um importante incentivador nesse período da sua vida.
“Já naquela época, meu interesse por disciplinas da área de exatas era evidente. Inspirado por esse ambiente e motivado por meus objetivos, comecei a me preparar para os vestibulares das escolas militares. Na Academia da Força Aérea (AFA) fui aprovado ainda no 2° ano do ensino médio. E, com relação ao ITA, não fui aprovado na primeira tentativa. No ano seguinte, enquanto já cursava uma graduação na Universidade Federal do Pará (UFPA), persisti e embarquei sozinho em uma viagem de ônibus até o Rio de Janeiro, utilizando os poucos recursos que havia conseguido economizar. Transitei entre Rio e São Paulo, fazendo as etapas de provas do Instituto Militar de Engenharia (IME), ITA e Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), sendo aprovado nas três. Diante dessa conquista, optei por seguir minha jornada acadêmica no ITA”.
──◇── FORMAÇÃO NO ITA E CARREIRA PROFISSIONAL
ITAEx – Após se formar como engenheiro mecânico-aeronáutico no ITA, como foi a sua transição para o mercado de trabalho?
Malato – Inicialmente fiz um estágio na NEC do Brasil e, em 2002, logo após me formar no ITA, comecei minha carreira no Banco Itaú. Gostei muito da experiência — era uma função desafiadora e interessante — mas não me via construindo uma carreira de longo prazo no setor bancário. Foi então que surgiu uma oportunidade que mudou completamente meu rumo profissional.
Recebi um convite de Shailon Ian Abdala Menezes (T98), para integrar uma consultoria na área de aviação. Aceitei na hora. Meu primeiro projeto foi como gerente de manutenção em um táxi aéreo em Macaé, RJ. Foi uma experiência extremamente intensa, que me permitiu não apenas aprender bastante sobre o setor aeronáutico, mas também desenvolver competências importantes como liderança e gestão de equipes.
Depois desse projeto, assumi outras iniciativas, especialmente na área de qualidade e certificação de empresas, com destaque a minha participação no processo de certificação de uma companhia aérea, assim nascia a Webjet, uma empresa low cost low fare com muitas inovações no setor. Apesar de muito novo, tive de deixar a consultoria para assumir o cargo de diretor técnico da Webjet, quando ajudei expandir consideravelmente as operações da empresa nos anos seguintes até o seu fim, quando foi adquirida pela Gol linhas aéreas.
Registros da atuação de Malato na Webjet



Após essa transição, tomei mais uma decisão difícil: voltei para a área de consultoria, dessa vez com foco em processos de redelivery de aeronaves, porém tinha de viajar muito, e meu primeiro projeto era em Honolulu, Hawai. Como era recém-casado, tive que dar mais uma guinada na carreira para permanecer no Rio de Janeiro com minha esposa. Foi então que busquei uma oportunidade como gerente de engenharia e manutenção da Concessionária MetroRio. Gostei muito deste setor e do impacto do trabalho, mas já havia um sonho e um objetivo muito maior: empreender. E, durante esse período comecei a amadurecer e estruturar um plano de negócio que mudaria em definitivo minha carreira e vida.
Na Concessionária MetroRio, Malato atuou como gerente de engenharia e manutenção

Quando chegou o momento certo, já com o meu primeiro filho com um ano de idade, com coragem abri mão da posição no MetroRio, e mudei a família para São José dos Campos, SP, onde comecei do zero, juntamente com meu sócio Joel Josende, a EFIX Aviation Support, empresa especializada em manutenção e venda de componentes aeronáuticos. Com capital próprio e um apoio financeiro do João Luis Abreu Jorge Teixeira (T94), liderei a estruturação da empresa, e, com muito trabalho e visão estratégica, conseguimos crescer ano após ano.
Em 2020, conduzi o processo de venda da EFIX para uma multinacional americana, a PAG – Precision Aviation Group, representando um grande passo para a empresa. Desde então, sigo à frente da operação da EFIX como presidente, agora integrando um grupo global e com ainda mais possibilidades de expansão no Brasil e América Latina. Além disso, minha família aumentou nesse período, e atualmente temos três filhos – de 9, 6 e 4 anos.


ITAEx – Como a formação no ITA contribuiu para o seu sucesso profissional como um dos fundadores da Webjet e na liderança da EFIX Aviation Support?
Malato – Foi fundamental para minha trajetória profissional, pois o ITA não forma apenas engenheiros com base técnica sólida, mas também prepara pessoas para lidar com cenários complexos, alta pressão e tomada de decisões com responsabilidade.
Lá, desenvolvi um raciocínio lógico mais apurado, que me acompanha até hoje na resolução de problemas estratégicos e operacionais. Além disso, a cultura do ITA valoriza muito o desafio constante, que me deu confiança para enfrentar problemas difíceis, que exigem criatividade, resiliência e foco.
Sua rotina intensa também me ensinou a trabalhar sob pressão com serenidade, sem perder a qualidade na entrega. Isso foi essencial, por exemplo, nos primeiros anos da Webjet, quando estávamos estruturando uma empresa do zero, em um setor altamente regulado e competitivo. E mais tarde, na EFIX, esses mesmos aprendizados foram colocados em prática desde o planejamento até a consolidação do negócio.
Outro ponto que considero decisivo foi a noção de responsabilidade e Disciplina Consciente que o ITA transmite — ou seja, fazer o que precisa ser feito, com excelência, mesmo quando ninguém está olhando. Esses valores moldaram a forma como lidero equipes e toco projetos até hoje.
A DC tem um papel central na minha vida profissional. Disciplina Consciente é agir com integridade em todas as situações — ser transparente, direto com as pessoas, e principalmente, manter coerência entre o que se fala e o que se faz.
Esse tipo de postura, ao longo do tempo, gera algo muito valioso: confiança, que é a base de qualquer relação profissional sólida — seja com colaboradores, clientes, fornecedores ou parceiros.
Mais do que uma regra, a DC virou uma prática natural no meu dia a dia. Ela inspira as equipes, fortalece a cultura da empresa e ajuda a construir reputação. E é essa consistência que me acompanha até hoje como líder e empreendedor.
“O ITA foi uma base não apenas técnica, mas também comportamental. A escola me ensinou a pensar, decidir e agir com consistência — características que, sem dúvida, tiveram impacto direto nos resultados que consegui ao longo da minha carreira.”
ITAEx – Suas experiências moldaram seu olhar para inovação e gestão no setor de aviação?
Malato – Com certeza. Todas as experiências anteriores, tanto na aviação quanto em outros setores, antes de empreender, foram fundamentais. Elas me trouxeram maturidade para entender que nem toda decisão certa gera um resultado imediato — e que, muitas vezes, é preciso ter paciência e resiliência para sustentar uma visão no longo prazo.
Ao lidar com projetos desafiadores, operações sob pressão e mudanças estruturais — como na Webjet e no Metrô do Rio — fui acumulando um conhecimento prático que hoje me ajuda a guiar a EFIX.
Essas vivências me ensinaram a olhar para a inovação não só como algo tecnológico, mas também como a capacidade de adaptar o negócio, rever processos, formar boas equipes e responder com agilidade às mudanças do mercado. E, acima de tudo, a tomar decisões com responsabilidade, mesmo nos momentos mais difíceis.
ITAEx – Depois de mais de 20 anos de atuação na aviação e infraestrutura, o que significa retribuir ao ITA e ao Brasil parte do que recebeu na sua formação?
Malato – É um gesto que carrega um forte senso de dever cumprido. O ITA foi fundamental na minha formação, tanto técnica quanto pessoal. Foi onde desenvolvi valores que carrego até hoje, e onde construí laços importantes que me acompanharam ao longo da minha trajetória.
Poder contribuir com a formação de novos engenheiros e talentos é uma forma de retribuir tudo o que recebi. É como plantar uma semente para o futuro do País — ajudando a formar pessoas preparadas para enfrentar os desafios do Brasil com competência, responsabilidade e visão. É uma forma de agradecer e devolver à sociedade o investimento que um dia fizeram em mim.

No ITA desenvolveu valores que carrega até hoje
ITAEx – Quais desafios e oportunidades enxerga hoje para os jovens engenheiros que estão se formando no ITA e querem seguir carreira no setor aeronáutico?
Malato – Acredito que os jovens engenheiros têm um enorme potencial de contribuição, mas também enfrentam alguns desafios como a rápida evolução das tecnologias — desde novas plataformas digitais e sistemas embarcados até tendências como mobilidade aérea urbana e sustentabilidade. Além disso, é essencial entender as necessidades reais dos operadores, que hoje buscam soluções mais eficientes, seguras e economicamente viáveis.
Ao mesmo tempo, há grandes oportunidades. O Brasil continua sendo um polo relevante na aviação, com a presença da Embraer, que é referência global em inovação e engenharia, além das companhias aéreas, operadores de táxi aéreo e um setor de manutenção que está em expansão e cada vez mais profissionalizado.

ITA – T01, a jornada acadêmica

“Vejo espaço para quem tiver disposição de aprender continuamente, entender o mercado e se conectar com os desafios reais da indústria. O setor precisa de engenheiros com visão técnica, mas também com capacidade de adaptação e pensamento sistêmico — exatamente o tipo de formação que o ITA oferece.”
──◇── LEGADO, VÍNCULO E GRATIDÃO
ITAEx – O que representa manter esse vínculo com o ITA e construir um legado de apoio e gratidão, mesmo tantos anos após a formatura?
Malato – Recebemos muito do ITA, não apenas conhecimento técnico, mas valores que moldaram nossa forma de pensar e agir. Manter esse vínculo é uma forma de reconhecer tudo o que a instituição representa na minha vida e de garantir que sua missão continue com as novas gerações. Para mim, é mais do que uma retribuição: é um compromisso com o futuro da engenharia e do Brasil. Saber que minha contribuição pode impactar positivamente a vida dos alunos de hoje me dá um enorme senso de propósito, orgulho e pertencimento.
──◇── ENGAJAMENTO E INSPIRAÇÃO
ITAEx – Como se tornou um Ponto Focal da sua turma?
Malato – Fui indicado por um amigo da minha turma, Bruno Marques de Oliveira, que já havia percebido meu envolvimento com alguns projetos da ITAEx, tanto presencialmente quanto com contribuições financeiras. Continuo ajudando dentro das minhas possibilidades. Embora eu não me considere muito eficaz em convencer ou cobrar o apoio dos colegas da minha turma, procuro dar o exemplo com minhas ações, na esperança de que isso possa incentivá-los a contribuir também.
Acredito que a conexão entre ex-alunos e a instituição é fundamental. Para os alunos, esse contato oferece uma visão realista e inspiradora dos caminhos que podem seguir, além da oportunidade de aprender com experiências práticas e histórias de quem já passou por ali.
Por outro lado, nós, ex-alunos, também ganhamos muito com essa interação.
“A nova geração traz novas perspectivas, ideias e talentos que nos desafiam a refletir, evoluir e até inovar em nossos próprios negócios. Essa troca é uma via de mão dupla que fortalece a comunidade e mantém viva a essência da instituição, conectando passado, presente e futuro de forma muito enriquecedora.”
ITAEx – De que forma acredita que sua atuação como Ponto Focal da T01 pode aumentar o engajamento dos colegas e inspirar outros ex-alunos a se envolverem com a nossa Associação?
Malato – Acho fundamental manter todos bem-informados e mostrar com clareza o impacto real das ações da ITAEx. Quando compartilhamos resultados e experiências positivas, os colegas percebem que mesmo uma contribuição pequena pode fazer diferença. Minha iniciativa individual pode servir de exemplo de que é possível conciliar a vida profissional com o compromisso voluntário — seja com tempo, apoio financeiro ou expertise. No fim, são esses pequenos esforços somados que fortalecem nossa comunidade e inspiram outras gerações a se engajar também.
──◇── INCENTIVO AOS EX-ALUNOS
ITAEx – Que mensagem e convite deixaria aos ex-alunos do ITA — especialmente aos colegas da T01 — sobre a importância de se engajar e contribuir para a formação das próximas gerações de iteanos?
Malato – Meu recado é simples: toda ajuda conta. Cada um pode contribuir de um jeito — seja doando, participando de eventos ou compartilhando conhecimento. Às vezes, o que parece pouco para nós pode representar muito na vida de um aluno.
“Participar é reconhecer o que recebemos e assumir o compromisso de retribuir, fortalecendo não só o legado do ITA e do Brasil, mas também nossa própria rede de contatos e oportunidades. Convido meus colegas da T01 e todos os ex-alunos a se engajarem: juntos podemos construir um legado duradouro para as próximas gerações.”






