No universo acadêmico e militar da Força Aérea Brasileira (FAB), o nome do Major-Brigadeiro Engenheiro Tércio Pacitti (T52) é sinônimo de pioneirismo e excelência. Mas, além de aluno, professor e reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA e precursor da informática no País, o iteano desempenhou o papel de PAI de forma igualmente exemplar, embora menos público.
Nascido em Atibaia – SP, em 1928, ele foi primeiro colocado da turma de 1952 do ITA. Formou-se engenheiro aeronáutico e foi Patrono da Tecnologia da Informação da Aeronáutica, construindo uma carreira de prestígio, com mestrado e doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley. Publicou livros que formaram gerações, como o clássico Fortran Monitor e introduziu a computação tanto no ITA quanto na Aeronáutica, no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Ele presidiu a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), atuou como consultor científico, foi membro da Academia Nacional de Engenharia (ANE) e recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.
Em sua homenagem, na UFRJ, por suas contribuições na área de informática, desde 2010, o Núcleo de Computação Eletrônica tem o seu nome: Instituto Tércio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais (NCE/UFRJ).

À esquerda, Pacitti aparece com os filhos ainda pequenos; e na segunda foto, um registro das bodas de ouro do casal (Eunice e Tércio), agora com os filhos adultos (Márcia, Esther, Tercinho e Marcos) ao lado — uma família construída com amor, raízes e legado
Seu filho caçula e atual membro do Conselho Consultivo da ITAEx, Marcos Pacitti (T90), relembra um pai atento, presente e surpreendentemente companheiro, mesmo diante de uma agenda profissional exigente:
“Era muito comum ele me acordar cedo nos fins de semana para caminharmos juntos na praia de Copacabana. Foi ele quem deu minha primeira prancha de surfe, mesmo havendo receios de minha mãe, e me levava cedo ao Arpoador para as práticas iniciais. Também ensinou-me a dirigir, todo orgulhoso em seu fusquinha vermelho. Ele estava sempre atento aos nossos anseios e fazia questão de estar perto para apoiar.”
Essa presença não se limitava à infância e à adolescência dos filhos. Quando já oficial da Aeronáutica, Marcos Pacitti conta que o pai aparecia de surpresa na Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (CISCEA), onde trabalhava, para tomar um café e conversar sobre a vida, inclusive sobre seus dilemas da terceira idade.

Na primeira foto, Eunice e Tércio com Tercinho e Márcia. À direita, na vila do CTA — a mesma casa onde, 40 anos depois, o filho Marcos voltaria a morar, fechando um ciclo familiar em São José dos Campos
“Meu pai nunca se afastou. Sempre esteve presente, orientando e conversando. E ele poderia ter seguido o caminho de muitos profissionais brilhantes, que acabam por deixar a família em segundo plano. Mas não. Ele foi um pai real, próximo.”
Marcos Pacitti (T90)
Tércinho (T86 – em memória) e Marcos (T90) tornaram-se iteanos como o pai. As filhas, impossibilitadas de ingressar no ITA devido às restrições da época, seguiram carreira na área de informática, uma delas alcançando o doutorado na França. “Se o ITA aceitasse mulheres quando minhas irmãs estavam na idade de fazer graduação, com certeza elas teriam tentado. Era um caminho natural. Além de ser nossa referência, papai sempre motivava-nos a viver na trilha do conhecimento” – afirma Marcos Pacitti.
Tércio Pacitti não se limitava a formar engenheiros, também guiava os alunos e os filhos nos rumos da vida. “Ele sempre atuou para nos manter no caminho sadio, sem sufocar. Gostava de estar com a gente. E essa é uma parte da sua história que pouca gente conhece. Se existiam muitos títulos fora de casa, dentro dela o que importava para ele era o seu papel mais silencioso: o de formar, cuidar e preparar os filhos como pessoas” – conta Marcos.
Um registro da vida do casal Eunice e Tércio no início da jornada. A paternidade e a maternidade foram vividas em parceria por quase seis décadas
Para Eunice permanecem as memórias de um homem dedicado não apenas ao País ou à engenharia, mas à própria família. “Ele acreditava na educação integral: intelectual, moral e espiritual. Sempre esteve atento ao caráter e à formação dos filhos como pessoas, e nisso nós sempre pensávamos igual. Foi um excelente pai e marido. Incentivava a música — tínhamos um órgão em casa para aulas dos filhos, as meninas tocavam piano —, os esportes, a educação cristã, e acompanhava de perto o desempenho deles no colégio”, conta a esposa.

Com a filha Márcia, ainda bebê; e décadas depois, com Eunice e a neta (filha de Marcos)
Marcos reforça a lembrança de um gesto silencioso do pai, que nas posições mais avançadas em sua carreira na Aeronáutica, mesmo precisando servir em diferentes localidades, ele optou por manter a família no Rio de Janeiro, para que os filhos continuassem estudando no Colégio Santo Inácio — uma referência em educação integral na cidade. De segunda a sexta-feira, ele cumpria suas funções longe da família, mas voltava todo final de semana para casa. “Foi um sacrifício pessoal em nome da nossa formação”, reconhece Marcos, reforçando que essa atitude fazia parte de uma visão clara do pai em preparar os filhos para a vida.
No Dia dos Pais, a ITAEx escolheu lembrar e homenagear Tércio Pacitti não apenas como engenheiro e líder, mas como um pai que moldou não só a tecnologia brasileira, mas a vida de seus filhos, com amor, presença e exemplo!
