Martha Torres: excelência e impacto além da engenharia

Embora não atue diretamente no setor aeronáutico, Martha Priscila Torres (Engenharia Eletrônica – Turma 2006) representa com autenticidade o legado iteano: a capacidade de unir rigor analítico e excelência técnica a uma visão ampla e estratégica para transformar organizações e inspirar pessoas.

Sócia associada da McKinsey & Company, uma das mais prestigiadas consultorias do mundo, Martha acumula quase 15 anos de experiência em projetos que atravessam os setores de varejo, telecom e bancos. A trajetória que começou com medalhas em Olimpíadas de Matemática e Física, e foi moldada por sua vivência intensa no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA — tanto em sala de aula quanto na Associação Atlética Acadêmica, na iniciação científica e em eventos como a Semana da Asa — revela como a formação no Instituto prepara profissionais não só para dominar a técnica, mas para liderar com propósito e visão.
Nesta entrevista, Martha compartilha suas raízes, conquistas, aprendizados e como a cultura do ITA segue guiando suas decisões e seu impacto profissional até hoje.

A relação atual com o trabalho e a formação no ITA

ITAEx – Você atualmente é sócia associada da McKinsey & Company e tem uma longa experiência em consultoria estratégica. De que maneira a formação em Engenharia Eletrônica no ITA contribuiu para construir essa trajetória?

MarthaAcho que o primeiro ponto tem muito a ver com acesso. Eu sou de Fortaleza, saí de casa assim que completei 17 anos, e entrar no ITA me deu acesso ao mundo. Enxerguei que havia múltiplas possibilidades para mim como engenheira, não necessariamente seguir apenas pela parte técnica, mas também atuar no universo dos negócios. Eu não fui para o ITA com essa visão, mas lá percebi que isso era uma possibilidade real.
Além desse acesso, o ITA me equipou com habilidades que vão muito além do conteúdo técnico. A vivência no H8 e, principalmente, nas atividades extracurriculares me ajudaram a entender que eu tinha competências diversas, e que elas também eram valiosas. Organizar uma Semana da Asa como presidente da Atlética foi um grande exemplo disso. Era um evento de grande porte, com muitos desafios, inclusive resistência interna, mas conseguimos fazer acontecer. Essa experiência me preparou de forma muito concreta para a vida profissional que tenho hoje: encarar um desafio e seguir em frente. Claro, essa disposição não veio só do ITA, mas ele certamente me proporcionou experiências fundamentais para desenvolver essa capacidade.

ITAEx – De que maneira a Disciplina Consciente do ITA reflete no seu dia a dia profissional atual?

MarthaNo meu caso, a Disciplina Consciente já era um valor presente em minha jornada pessoal. Contudo, foi no ITA que ela se formalizou e se tornou um pilar fundamental da minha abordagem profissional. A exigência do ambiente acadêmico do Instituto reforçou essa disciplina e me mostrou, na prática, como aplicá-la para alcançar resultados de excelência. Hoje, ela é absolutamente essencial no meu trabalho. Como consultora, chego de fora para entender o que está acontecendo dentro de uma empresa e ajudar a resolver problemas complexos. Muitas vezes, as soluções já existem internamente, mas estão dispersas entre áreas com agendas diferentes, e até com conflitos. Ter um olhar isento, ético e estruturado é o que permite que a nossa opinião seja respeitada, que nossas recomendações sejam ouvidas e, de fato, seguidas. Nesse sentido, a lógica da DC é fundamental. Acho incrível que o ITA incentive isso, mas, no meu caso, vejo mais como algo que foi reconhecido e sistematizado ali — não necessariamente algo que o ITA me deu, mas algo que ele ajudou a consolidar.

ITAEx – A prática de pensar de maneira crítica e analítica, tão presente no ITA, ajuda no seu trabalho atual? Em que situações isso faz a diferença?

MarthaPensar de maneira crítica e analítica não é algo que apenas ajuda no meu trabalho atual, mas sim o coração do que eu faço. Meu trabalho consiste, essencialmente, em entender problemas complexos e buscar soluções viáveis. Então, esse tipo de raciocínio é fundamental. Claro que isso já era algo que vinha sendo desenvolvido antes mesmo de eu entrar no ITA. Mas durante a graduação, o aluno se vê cercado por pessoas que têm essa mesma forma de pensar, de maneira estruturada, lógica, questionadora. Isso cria um ambiente que nos desafia o tempo todo a ir um passo além. Seja nas provas, nos debates, nos projetos, estamos constantemente estimulados a aprofundar, a buscar mais uma camada de entendimento. Essas convivência e exigência elevam ainda mais o nosso padrão de análise. E isso se conecta com o que comentei antes sobre o impacto do ITA na minha trajetória profissional, ele me preparou, sim, para lidar com desafios complexos, justamente porque ajudou a lapidar esse olhar analítico que é indispensável na consultoria.

A decisão de entrar no ITA e a superação de desafios

ITAEx O que te motivou a prestar vestibular para o ITA e seguir por uma carreira tão técnica? Houve um momento decisivo para essa escolha?

MarthaAcho que a motivação tem muito a ver com o espírito de superação que sempre esteve presente na minha vida. Sou filha de uma professora e de um comerciante, e cresci em uma realidade em que o dinheiro era contado. Desde muito nova, aprendi a buscar oportunidades como forma de me preparar melhor para a vida.
Conquistei minha primeira bolsa por meio de um concurso de redação, depois outra pela Olimpíada de Matemática, e assim fui avançando, sempre usando esses desafios como trampolins. As Olimpíadas, em especial, foram fundamentais nesse processo, tanto pelo conteúdo quanto pela confiança que me deram. Minha mãe sempre me passou a mensagem de que não existe nada que a gente não possa fazer. Claro que para algumas pessoas as condições são mais favoráveis do que para outras, mas, mesmo diante de dificuldades, nós sempre buscamos dar o nosso melhor e chegar ao próximo nível.
Essa mentalidade foi o que me impulsionou a tentar o vestibular do ITA. Era um grande desafio, e justamente por isso fazia sentido.

Na formatura, em 2007, Martha com os grandes amigos do ITA


ITAEx – Participar e conquistar uma medalha de prata na Olimpíada Ibero-Americana de Física foi uma etapa importante para você antes do ITA. Como essa experiência contribuiu para sua formação e para o entendimento do seu potencial?

MarthaEu acho que a Olimpíada de Matemática foi o grande divisor de águas na minha vida. Eu diria até mais do que o ITA. Talvez a Olimpíada de Matemática tenha me permitido ir para o ITA, e em tudo o que veio depois.
A lógica da Olimpíada, de resolver problemas não necessariamente com base em fórmulas ou ferramentas técnicas, mas com raciocínio lógico, bom senso, criatividade, olhar por vários ângulos. Isso tudo foi extremamente importante na formação de quem eu sou hoje.
Depois veio a Olimpíada de Física. E eu diria que foi ali que tudo começou. Sou super feliz e muito orgulhosa das minhas medalhas nas Olimpíadas de Matemática e de Física, e da convivência com colegas que tinham um mindset parecido com o meu naquele momento. Quando paro para pensar hoje, vejo que aquelas crianças de 10, 11, 12 anos estavam ali querendo estudar mais, achando bonito encontrar uma solução matemática, enquanto podiam estar fazendo outras coisas. A maioria de nós já tinha facilidade com o colégio em si, então o diferencial começou ali. E não foi só pelo raciocínio analítico, mas também pela disciplina, pela noção de que é possível ir além. A excelência, para mim, deveria ser o que leva o mundo para frente. Infelizmente, o mundo hoje está cada vez mais medíocre, mas isso já é outra conversa.
Ir para a Olimpíada Ibero-Americana foi um marco. Foi a primeira vez que andei de avião. A segunda quando fui para o ITA. Conquistei a medalha de prata e fiquei super feliz. Lembro até hoje do que errei e porque não fui ouro: no meio de uma solução, coloquei errado a altura de um triângulo equilátero. Em vez de colocar L raiz de 3 sobre 2, botei L raiz de 3 sobre 3. Coisa simples, mas que tirou os pontinhos e me custou o ouro. Essas coisas marcam.
Naquela época, minha vida era isso: Olimpíada de Matemática, Olimpíada de Física. Então, ir para o ITA foi quase uma consequência natural. Hoje em dia existe uma preparação muito mais específica, mas, para mim, a preparação vinda das Olimpíadas já foi o suficiente. Fiz o vestibular com 16 anos, passei direto do terceiro ano do ensino médio, e fui para o ITA super novinha, aos 17 anos.
É isso. As Olimpíadas foram a base de tudo. Tenho um orgulho enorme. Meus irmãos seguiram por esse caminho, e hoje meus sobrinhos também participam. Mudaram as gerações da minha família.

Conquistas e aprendizados ao longo da carreira

ITAEx – Sua carreira passa por instituições de destaque como L.E.K. Consulting, Partners, Strategy&, McKinsey e um programa executivo em Stanford. Qual foi o maior aprendizado que levou de cada uma para construir sua identidade profissional atual?

MarthaA McKinsey valoriza muito a excelência e o impacto. A palavra excelência sempre esteve muito presente na minha vida e eu sempre prezei muito por isso.
Na consultoria, a excelência é um verdadeiro pilar. Não só na McKinsey, mas de forma geral. E isso sempre foi algo que me deixou muito feliz: passar por lugares que compartilham um valor que também é meu.
Em todas as instituições pelas quais passei, a excelência esteve presente. E é muito gratificante estar em ambientes que reconhecem e valorizam isso.
Mas um grande aprendizado que fui consolidando ao longo da carreira, especialmente mais recentemente, é que a excelência da solução não é tudo. O impacto real acontece quando conseguimos mobilizar as pessoas, fazer as organizações se moverem para entregar aquela solução ou, às vezes, algo ainda maior do que aquilo que se havia proposto.

ITAEx – A McKinsey destaca seu compromisso com a excelência e impacto. O que isso representa para você e como busca transformar esses pilares em resultados para clientes e para sua equipe?

MarthaEssa ideia de que impacto não é só ter uma solução conceitualmente excelente, mas sim conseguir articulá-la com as pessoas, com o contexto, com as organizações, tem sido cada vez mais central no meu modo de trabalhar.
Ao longo desses anos, esse mindset de sempre buscar o melhor e soluções com mais impacto me trouxe também algo muito importante: confiança. Acho que consegui construir relações de muita confiança com os clientes com quem trabalhei. E isso, para mim, é uma das maiores conquistas da minha trajetória profissional.

É sempre muito recompensador quando um cliente lembra de um projeto ou de uma transformação da qual você fez parte ou procura justamente por confiar no seu trabalho e querer ouvir sua opinião. Ver que a excelência colocada em cada entrega gera impacto real nas empresas é incrível. Mais do que isso, o que realmente marca é a confiança que essa excelência desperta: a certeza de que o compromisso com o melhor caminho e o melhor resultado estará sempre presente.

Acho que isso resume bem o que trago da minha trajetória profissional: algo que já vinha comigo, mas que fui construindo ao longo dos anos. Uma busca constante por mais impacto, mais consistência, e principalmente mais confiança — tanto com clientes quanto com os times com quem trabalho.

O impacto e o legado do ITA

ITAEx – O ITA não forma apenas engenheiros, mas líderes e pensadores críticos para diferentes setores. O que ele representa para você hoje?

MarthaSou muito feliz por ter aproveitado ao máximo o tempo que tive no ITA, não só nas aulas, e nos laboratórios e estudos, mas também em tudo o que pude fazer além do currículo tradicional. Fiz dois anos de iniciação científica na área de Física, no Laboratório de Plasmas e Processos, e isso foi uma experiência incrível. Eu sempre fui apaixonada por Física. Se não tivesse ido para o ITA, provavelmente teria cursado Física na Universidade Federal do Ceará (UFC). Poder viver essa paixão dentro do ITA foi muito especial.
E, ao mesmo tempo em que me dedicava a algo mais acadêmico, como a iniciação científica, tive a oportunidade de me envolver em outras atividades menos acadêmicas, mas que foram fundamentais para o desenvolvimento de competências que uso até hoje na minha vida profissional.
Já no primeiro ano entrei para a Associação Atlética Acadêmica do ITA, e permaneci por cinco anos seguidos. E quando digo que fui da Atlética, não foi apenas como atleta ou frequentadora dos treinos, eu fazia parte da organização. Era do grupo responsável por toda a parte esportiva do H8: desde garantir recursos para os treinos, organizá-los, promover torneios internos e também levar o ITA a torneios externos.
Foi uma experiência muito rica, especialmente considerando que estávamos em um ambiente com cerca de 600 alunos, muitos dos quais não praticavam esportes. A gente ia engajando essas pessoas, incentivando a participação, criando um espaço de convivência e evolução. Eu mesma praticamente comecei a praticar esportes ali, e foi incrível.
Ao mesmo tempo, também lidávamos com alunos que tinham um histórico esportivo mais forte, quase atletas mesmo, e que levavam os treinos e campeonatos com o nível de excelência que é característico dos alunos do ITA. Esse equilíbrio entre diferentes perfis e esse esforço coletivo para fazer acontecer foi algo muito marcante para mim.

Time feminino de todos os esportes!

Era muito legal, porque era um mix bem diferente de experiências. E os desafios que enfrentamos, especialmente para organizar torneios externos, me marcaram bastante. Acho que uma das coisas de que mais me orgulho de ter feito no ITA foram os torneios da Semana da Asa, em especial no meu quarto ano de Engenharia Eletrônica, que é conhecido como o mais difícil do curso. Foi também o ano em que fui presidente da Atlética.
Naquele ano, organizamos um torneio com várias faculdades convidadas: Instituto Militar de Engenharia (IME), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET-RJ), Universidade Federal de Itajubá (EFEI), Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e outras. Foram quatro dias intensos, com alunos alojados nas salas do ITA, dentro do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA). Lembro que usamos camisetas na cor rosa choque para identificar a organização do torneio, uma marca daquele momento.
Organizar um evento daquela dimensão, com tantos jovens juntos, sem que houvesse nenhum problema relevante, foi uma das experiências mais incríveis que já vivi, e não só pela satisfação pessoal, mas pelo aprendizado real de liderar, planejar, executar, resolver situações — enfim, como fazer algo grande acontecer.
Além disso, participei de outras iniciativas marcantes. Tinha um grupo de amigos no Departamento Cultural e, juntos, organizamos vários shows no ITA e na cidade. Levamos Engenheiros do Hawaii, Arnaldo Antunes, Los Hermanos. Foi uma fase muito viva, muito intensa.
A verdade é que os anos de ITA foram muito mais do que estudo. As atividades extracurriculares também foram essenciais para o meu desenvolvimento — e divertidas também. Elas me ajudaram a desenvolver competências fundamentais que uso até hoje.
Outro ponto muito especial para mim foi o senso de comunidade e responsabilidade que criamos ali. Até hoje, por exemplo, volto ao ITA para conversar com o pessoal da Associação Atlética Acadêmica. Fiz isso no ano passado e tive uma experiência forte, porque percebi que, naquele momento, não havia nenhuma mulher na diretoria. E eu fui a primeira presidente mulher da Atlética e acho que teve apenas mais uma depois de mim.

Após 15 anos, Martha visitou a Associação Atlética Acadêmica do ITA

Fiquei surpresa. Foi um choque, na verdade, e conversei com a equipe, tentando entender por que isso estava acontecendo, engajando os meninos e as meninas. Alguns meses depois, recebi a notícia de que uma mulher havia assumido um cargo de liderança na gestão da Atlética. Fiquei muito feliz.
Pode parecer uma coisa pequena à primeira vista, mas, para mim, é muito simbólico. Porque esse tipo de situação antecipa o que a gente vai encontrar mais adiante no mercado de trabalho. Ser uma mulher no ITA te dá, também, a oportunidade de começar a entender essas questões — de representatividade, de espaços de liderança desde cedo. E isso é muito importante.
Enfim, poderia passar horas falando sobre esse tema. Para mim, talvez tenha sido a parte mais especial de toda a minha vivência no ITA. São as melhores lembranças que guardo. E, mesmo não sendo experiências técnicas, elas foram fundamentais para minha formação como profissional. E acho importante destacar isso.

ITAEx – Qual é o impacto direto e indireto do ITA nas suas decisões e nos caminhos que trilhou ao longo da carreira?

MarthaO ITA, para mim, tem um papel muito claro e profundo na forma como enxergo o mundo e tomo decisões.
Se parar para observar o mercado, em praticamente qualquer setor que imaginar, sempre vai ter um iteano. Sempre tem alguém do ITA movimentando as coisas, trazendo uma ideia diferente, seja com energias renováveis, com investimentos, com consultoria ou com engenharia de verdade, como costumamos brincar.
O que eu vejo como um grande legado do ITA é justamente esse olhar de não ser igual. Esse impulso de ir além, de buscar excelência. É algo que se cultiva no vestibular, durante o curso, e continua depois, porque o mercado e a sociedade esperam isso da gente. Para mim, o ITA deixou esse legado muito claro: o compromisso com a excelência.
E esse é um valor que eu levo comigo sempre. Acredito que, independentemente da área de atuação, a sociedade precisa de mais pessoas com essa mentalidade: de entregar o melhor, de se responsabilizar, de buscar evolução. Então, sim, eu trago isso para tudo o que faço.
Claro que existem outras formas de contribuir com o ITA diretamente, mais explícitas ou específicas. Mas o mínimo que um iteano precisa entregar é esse compromisso com a excelência. Isso, para mim, já é uma forma importante de retribuição.
Além disso, procuro estar próxima de ex-alunos, alunos mais novos, e atuar como mentora sempre que possível. Tenho vários mentorados, alguns ainda estudantes. E fico muito feliz de poder trocar experiências com eles. Porque muitas vezes, mais do que ajudar, a gente está mesmo é trocando ideias, visões, caminhos. E é assim que impulsionamos os outros e continuamos trilhando esse caminho de excelência que o ITA nos ensinou.

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