No Dia do Quadro de Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, a ITAEx destaca o exemplo do Coronel Engenheiro Luiz Fabiano Damy (T06), que simboliza a integração entre formação técnica de excelência, valores militares e compromisso com a Defesa nacional.
O militar é Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN (1999). No Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, tem graduação em Engenharia Aeronáutica (2006), especialização em Engenharia de Armamento Aéreo (2009) e mestrado em Engenharia Aeronáutica e Mecânica (2017).
O Coronel Damy, que hoje lidera a Divisão de Certificação e Engenharia Aeronáutica da Chefia de Material de Aviação do Exército, compartilha experiências que vão da manutenção de helicópteros à certificação de produtos aeroespaciais, destacando como o conhecimento técnico e a Disciplina Consciente do ITA moldaram sua atuação em áreas estratégicas para a soberania nacional.

Ministrando palestra sobre Integração de Sistema de Armas em Helicópteros no IFI
O engenheiro militar, em um cenário cada vez mais tecnológico e dinâmico, contribui para a autonomia, a segurança e a eficácia das operações do Exército Brasileiro
ITAEx – Como a formação no ITA contribuiu para o início da sua trajetória na Aviação do Exército?
Coronel Damy – Foi fundamental durante as mais diversas fases da minha carreira. Após me formar, fui trabalhar com manutenção de helicópteros no Batalhão de Manutenção e Suprimento de Aviação do Exército. O começo foi difícil, pois a impressão que temos ao concluir a graduação é que só sabemos teoria, e que isso teria pouca aplicação prática no dia a dia. Entretanto, é um engano: um batalhão de manutenção de helicópteros apresenta uma grande quantidade de desafios e, ao mesmo tempo, conta com pessoas altamente qualificadas, com muita experiência prática, mas que muitas vezes precisam de um apoio técnico que alguém com a nossa formação pode oferecer. Com humildade para ouvir, aprender e buscar soluções junto à equipe, os resultados começaram a aparecer. Realmente, foi uma fase muito rica e desafiadora, em que tive que lidar com problemas de metrologia, dificuldades em serviço, modificações, identificação de panes, entre outros. Além disso, o contato com diversos amigos da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil, contemporâneos do ITA, foi de grande ajuda.
ITAEx – Como o ITA tem contribuído para o fortalecimento da Aviação do Exército, especialmente na formação de profissionais qualificados e no desenvolvimento de soluções técnicas aplicadas à nossa realidade operacional?
Coronel Damy – Esse apoio aparece de maneira multiforme, especialmente na formação de recursos humanos altamente qualificados. Um exemplo marcante foi a dificuldade enfrentada pelo pessoal de manutenção no balanceamento de rotores de helicópteros. Essa demanda prática motivou o meu mestrado no ITA, onde pude estudar a fundo e entender o problema, de maneira a propor uma solução inovadora. O resultado foi a possibilidade de ministrar cursos sobre a forma mais eficiente de realizar essa tarefa, poupando muitas horas de voo de manutenção. Além disso, desenvolveu-se e validou-se um software de balanceamento de rotores com desempenho equivalente aos principais sistemas utilizados nos EUA.
Em outro momento, surgiu a necessidade de aprofundar o conhecimento na área de armamento aéreo, especialmente em relação à precisão de sistemas de armas como foguetes e mísseis. Fui então designado para um curso no ITA, onde inicialmente estudamos sistemas de aeronaves de asa fixa. Contudo, percebi a oportunidade de adaptar os estudos à realidade da Aviação do Exército, que opera apenas aeronaves de asa rotativa. Esse trabalho foi bastante produtivo, pois permitiu o entendimento de como devem ser estabelecidos e avaliados requisitos de precisão com base em técnicas estatísticas modernas, agregando capacidade operacional e conhecimento técnico à Força Terrestre.
ITAEx – Logo após concluir o seu mestrado, o senhor foi designado para atuar no Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI), ingressando em uma área nova, altamente técnica e repleta de responsabilidades. Como foi esse processo de adaptação e de que forma sua formação contribuiu para superar os desafios dessa nova etapa?
Coronel Damy – De fato, assumir uma função no IFI logo após o mestrado representou um grande salto. Era uma área nova para mim, extremamente técnica, com responsabilidades de alto impacto, especialmente no que diz respeito à certificação de produtos aeroespaciais — algo fundamental para garantir a segurança e a eficácia das operações militares.
O processo de adaptação foi exigente, mas extremamente enriquecedor. A experiência adquirida anteriormente na área de manutenção e no mestrado certamente ajudou, principalmente no desenvolvimento de um raciocínio estruturado, na capacidade de análise crítica e na condução de projetos complexos. No entanto, o verdadeiro alicerce veio da base técnica sólida construída ao longo dos anos de formação nos bancos escolares, especialmente no ITA. Foi essa base que me deu segurança para aprender rapidamente, interagir com especialistas da área e contribuir de forma efetiva com a certificação de projetos estratégicos para a defesa nacional.
ITAEx – Na sua avaliação, qual é o papel do engenheiro militar do EB no cenário atual da Defesa nacional? E quais habilidades considera essenciais para quem pretende seguir esse caminho?
Coronel Damy – O engenheiro militar do Exército Brasileiro tem um papel estratégico no cenário atual da Defesa nacional. Diante de restrições orçamentárias e ameaças crescentes — como drones, ataques cibernéticos e guerra eletrônica —, sua função é garantir a integração e o suporte técnico a sistemas aéreos que apoiem as operações terrestres. Isso exige sólida formação técnica, capacidade de atualização constante, visão multidisciplinar e comprometimento com a missão institucional. A rápida evolução tecnológica impõe ao engenheiro o desafio de dominar tanto os fundamentos clássicos quanto as tecnologias emergentes, tais como a inteligência artificial e suas aplicações. Assim, ele contribui diretamente para a soberania, a autonomia tecnológica e a eficácia operacional da Força Terrestre.
ITAEx – Na sua experiência pessoal, qual a importância da Disciplina Consciente, tão valorizada no ITA, em sua carreira militar?
Coronel Damy – A Disciplina Consciente teve um papel decisivo na minha trajetória, tanto como engenheiro quanto como militar. Tendo iniciado minha formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), já estava familiarizado com a importância da disciplina como pilar da vida militar e do exercício da liderança. No entanto, no ITA, a Disciplina Consciente ganha uma dimensão mais profunda, quando ela é assumida pelo próprio aluno, que se compromete com a honestidade, a responsabilidade e o respeito mútuo — mesmo na ausência de supervisão.
Exemplo disso são as provas realizadas fora do ambiente de sala, nas quais o professor entrega a prova para ser realizada no dormitório e confia que o aluno irá realizá-lo dentro do prazo estipulado, sem consulta e com total integridade. Esse sistema reforça valores essenciais, como a ética e o autocontrole, que são fundamentais para qualquer engenheiro, mas ainda mais cruciais para quem ocupa funções de confiança nas Forças Armadas.
ITAEx – Que mensagem deixaria aos alunos, futuros engenheiros militares do EB, em formação no ITA?
Coronel Damy – Deixo uma mensagem de encorajamento e compromisso. A carreira é exigente, especialmente por lidarmos com tecnologia de ponta e grandes responsabilidades, mas também é profundamente recompensadora. Aproveitem a oportunidade de estudar numa escola tão singular e lembre-se: o que se constrói ao longo desse caminho tem impacto direto na defesa e no desenvolvimento do País.

