No Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, a ITAEx homenageia aqueles que transformam conhecimento em soberania, inovação e desenvolvimento. Entre os nomes que representam com excelência esse compromisso está Carlos Fernando Rondina Mateus (T96).
Formado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA, hoje Coronel Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira, ele construiu uma carreira exemplar no cruzamento entre ciência, tecnologia e Defesa Nacional.
Com mestrado pelo ITA (1997), doutorado em Eletrônica Quântica pela University of California em Berkeley (2004) e pós-doutorado em Sensores MEMS no Centre Suisse d’Électronique et Microtechnique (2011), o pesquisador tem um percurso científico marcado pela excelência e pela visão estratégica.
No Instituto de Estudos Avançados (IEAv), foi pesquisador, chefe da Divisão de Fotônica e Vice-Diretor Técnico, liderando uma equipe de mais de 200 pesquisadores, incluindo 70 doutores. Atuou ainda como Gestor da Inovação no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e professor colaborador em programas de pós-graduação do ITA e da Universidade da Força Aérea (UNIFA).
Publicou o livro técnico internacional Tunable Optoelectronic Devices, voltado ao desenvolvimento de lasers, detectores e filtros ópticos sintonizáveis em semicondutores — obra que sintetiza décadas de pesquisa aplicada nas áreas de comunicações ópticas e nanotecnologia.
Atualmente, reside nos Estados Unidos, onde já atuou como consultor internacional pela Delphos Aerospace e Coordenador do Cluster Aeroespacial Brasileiro, contribuindo para a internacionalização de empresas e o fortalecimento da indústria de defesa e inovação. Hoje é Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Bandwidth10.

Entre 2013 e 2015, Mateus coordenou o Cluster Aeroespacial Brasileiro, liderando a criação da marca Aerospace Brazil e impulsionando as exportações do setor aeroespacial nacional
A seguir, confira a entrevista sobre os desafios da pesquisa científica, o papel da inovação no desenvolvimento nacional e a importância de formar novas gerações de cientistas e líderes tecnológicos.
ITAEx – O que o motivou a seguir a carreira científica, mesmo já tendo uma sólida formação e carreira como Oficial Aviador?
Mateus – Minha carreira como Oficial Aviador não estava acontecendo como esperada. O início da década de 1990 estava bastante complicado para o serviço público – época de alta inflação e Plano Collor. As Forças Armadas foram afetadas profundamente e houve grandes cortes em horas de voo e manutenção. Minhas horas de voo diminuíram de cerca de 500h/ano para 80h/ano. A frustração era grande e gerou evasão de muitos pilotos militares para a aviação comercial. No meu caso, e também de vários outros aviadores, tentei aproveitar a oportunidade de estudar e obter outras qualificações. Assim, fiz a prova em 1991 e ingressei no ITA em 1992.
ITAEx – O senhor foi Vice-Diretor Técnico do Instituto de Estudos Avançados (IEAv), liderando projetos de altíssimo risco tecnológico. Como é conduzir ciência em ambientes de tanta complexidade e responsabilidade?
Mateus – O IEAv é uma instituição com recursos humanos invejáveis que trabalham em áreas altamente sofisticadas, como energia nuclear, hipersônica e fotônica, apenas para citar algumas. Para esse tipo de profissional, quanto maior o desafio, maior a motivação. A dificuldade de gestão residia no orçamento incerto e nos entraves da administração pública, como contratação de recursos humanos temporários e compras públicas para projetos de alto teor tecnológico. Isso causava constantes atrasos na execução e necessidade de replanejamento constante dos projetos. Todo esse atrito, no entanto, nunca foi suficiente para desmotivar a equipe e o IEAv sempre produziu mais do que o esperado, apesar de todas essas dificuldades. Esse foi um momento bastante desafiador na minha carreira, mas talvez o mais gratificante.

Abertura do 3º Workshop em Nanotecnologia Aeroespacial, realizado em 2007 no IEAv, sob organização do então Tenente-Coronel Mateus
ITAEx – Seu livro Tunable Optoelectronic Devices reúne conhecimento técnico de ponta em dispositivos ópticos e microfabricação. O que motivou essa publicação e qual a sua importância no contexto científico atual?
Mateus – Esse livro foi uma evolução da minha tese de doutorado. Fui procurado pela editora que notou que minha tese era bastante acessada eletronicamente. Propuseram a publicação em um livro e aceitei o desafio. Foi muito interessante revisar os conceitos e adicionar novo conhecimento ao material. Eu tive o privilégio de fazer meu doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Naquele momento, a Engenharia Elétrica de Berkeley era considerada a número 1 dos EUA tanto em fotônica como em dispositivos micro-eletro-mecânicos (MEMS = Micro-Electro-Mechanical-Systems). O livro foca no uso de fundamentos das duas áreas para produzir dispositivos com novas funcionalidades. A Bandwidth10, empresa na qual trabalho atualmente foi criada para produzir um laser sintonizável utilizando conceitos propostos nesse livro.
ITAEx – Como as tecnologias de micro e nanofabricação podem transformar áreas estratégicas como defesa, aeroespacial e até saúde?
Mateus – Micro e nanofabricação têm o potencial de reduzir drasticamente o volume, peso e consumo de energia de dispositivos variados, como sensores e atuadores. Hoje, há empresas microfabricando implantes eletrônicos que conseguem monitorar e equilibrar problemas variados do corpo humano, como osteoporose ou diabetes. A empresa na qual trabalho tem vários clientes utilizando os lasers que produzimos para monitorar diversos órgãos do corpo humano de maneira não invasiva, como o nervo óptico ou coração, fazendo uma tomografia a laser (OCT = Optical Coherence Tomography). Já nos setores de defesa e aeroespacial, diminuir a tríade peso/volume/energia é fundamental para viabilizar produtos cada vez mais sofisticados, compactos e com longo tempo de vida. Alguns dos exemplos de sistemas viabilizados por essas tecnologias são nanossatélites e computadores de bordo supercompactos, presentes em submarinos atômicos, mísseis inteligentes e aviões de caça. Até mesmo os smartphones só foram possíveis graças a essas tecnologias.

Dezembro de 2008, durante o kick-off do projeto de transferência de tecnologia em MEMS (Micro-Electro-Mechanical Systems) da Suíça (CSEM) para o Brasil, com o então Tenente-Coronel Mateus atuando como articulador e gerente executivo da iniciativa
ITAEx – O senhor teve experiências internacionais marcantes, como seu doutorado em Berkeley e o pós-doc na Suíça. O que esses contextos ensinaram sobre fazer ciência de forma global?
Mateus – A ciência que desenvolvemos no Brasil é tão competitiva e atual como nos Estados Unidos e Europa. No entanto, a gestão por trás da ciência e os ambientes científicos são bem diferentes. Nos países mais desenvolvidos há a preocupação constante em criar tecnologia a partir da ciência. Os projetos são organizados de maneira mais aplicada e há um ambiente favorável à criação de novas empresas ou transferência de tecnologia. É bastante comum que pesquisadores fundem novas empresas ou migrem para o setor privado de maneira a criar novos produtos a partir da ciência.
No Brasil, há grande concentração de ciência em órgãos públicos, como institutos de pesquisa do governo e universidades, e pouca participação do setor privado. Poucos recursos (e incertos) acabam por gerar ciência, mas quase nada de tecnologia (pífia produção industrial a partir da ciência).
Além disso, o bom pesquisador no Brasil é aquele que publica bastante, não aquele que viabiliza novos produtos e conceitos. Há pouca motivação para empreendedorismo ou migração de pesquisadores para o setor privado. Nos Estados Unidos e Suíça, as patentes são mais importantes que os papers e há grande motivação para criação de novas empresas a partir de investidores com capital de risco, ainda pouco disponível no Brasil para novos bens de capital.
ITAEx – Na sua visão, qual o papel da ciência e da inovação tecnológica para a soberania de um país como o Brasil?
Mateus – Ciência e inovação tecnológica são fundamentais para qualquer país. Hoje vemos a transformação que ocorreu em países do sudeste asiático, como Tailândia, Malásia e Taiwan, como resultado dos investimentos e fomento da indústria de semicondutores, principalmente. A base industrial de sustentação da produção de semicondutores também é de alto teor tecnológico, oferece empregos com alto valor agregado e grande retorno do investimento. Numa recente visita à Tailândia pude verificar que a nova geração trabalha muito pouco em mercados ou restaurantes, pois migraram para as áreas de alta tecnologia. O mesmo acontece em Taiwan, para onde vou com frequência visitar a planta de manufatura da Bandwidth10.
Infelizmente, o Brasil caminhou para ser fornecedor de alimentos e commodities. Algumas poucas empresas, como Embraer e Weg, conquistaram espaço no exterior com produtos tecnológicos, mas ainda muito poucas. No caso da Embraer, todos os aviônicos são importados para serem instalados nas aeronaves e reexportados como parte do todo.
As políticas públicas de ciência e inovação no Brasil nunca foram suficientes nem contínuas para gerarem impacto na formação e fixação de recursos humanos capacitados. A indústria caminha muito longe da academia e recursos para financiar novas empresas com base tecnológica esbarram nos juros astronômicos e na insegurança jurídica do País. Para mim, muito ainda precisa mudar tanto no arcabouço jurídico como na estrutura econômica, de maneira a proporcionar condições mais favoráveis para criação e crescimento de novas empresas com alto risco tecnológico.
ITAEx – O senhor já atuou como professor e orientador em várias instituições. Como enxerga o papel da docência na formação de novos cientistas e líderes em tecnologia?
Mateus – Eu vejo o docente não como transmissor de conhecimento, mas sim como inspirador do aluno. Acho que todos tivemos aquele professor que ensinava com grande energia e paixão pelo assunto a ponto de tornar a matéria interessante. O que acontece em sala de aula é muito importante na trilha que o aluno seguirá. Muitos de nós desistimos de alguma área por alguma frustração em sala de aula ou perseguimos uma outra área em função dessa inspiração. Espero que cada vez mais apareçam professores capazes de inspirar jovens a perseguirem o conhecimento e desenvolvimento das engenharias.
Quanto mais engenheiros sólidos o Brasil conseguir formar, mais a ciência e a inovação se beneficiarão, com grande retorno ao País.
ITAEx – Qual foi o momento mais marcante em que percebeu o impacto concreto de seu trabalho científico fora do ambiente acadêmico?
Mateus – Isso aconteceu quando fiz minha primeira patente e uma empresa a licenciou. Eu era aluno de doutorado em Berkeley e a patente foi concedida em apenas seis meses pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO) e licenciada logo no mês seguinte. Tudo muito rápido.
A universidade era a dona da patente, mas pagou 50% de royalties aos inventores. A empresa ainda me contratou como consultor para ajudar a implementar a tecnologia. Foi tudo muito rápido e em pouco mais de um ano, havia um novo produto no mercado.
ITAEx – O senhor participou da implementação do programa de pós-graduação conjunto IEAv/ITA. Como vê o papel da academia na formação de pesquisadores para a Defesa e setores estratégicos?
Mateus – Esse programa foi um desafio muito grande, pois as atribuições e compensações eram diferentes entre professores e pesquisadores. Mas, o momento era oportuno. O IEAv dispunha de dezenas de doutores com alta qualificação e conhecimento; o ITA estava preparando a expansão da pós-graduação. Foi natural que o IEAv tomasse parte no processo. Os então Reitor e Vice-Reitor do ITA, Tenente-Brigadeiro do Ar Reginaldo dos Santos (T70) e Prof. Dr. Fernando Toshinori Sakane (T68), respectivamente, foram fundamentais no processo. Criamos uma comissão ITA/IEAv que se reuniu por mais de um ano até conseguir equalizar as aspirações e responsabilidades de cada parte.
Ao final de dois anos, o ITA estava oferecendo dezenas de novos cursos na pós-graduação e com possibilidade de treinamento dos alunos nos laboratórios do IEAv. Ainda, a nova configuração ajudou bastante aos projetos do IEAv, com acesso a mão de obra qualificada e contratada com bolsas de estudo. Acredito que foi um ganha-ganha para as instituições e alunos.

Em 2006, com a equipe da Subdivisão de Sensores a Fibra Óptica, onde atuava no desenvolvimento de tecnologias avançadas
A academia sempre será peça fundamental da ciência em qualquer área. Porém, a implementação da tecnologia depende muito de bases favoráveis à criação de novas empresas (estabilidade jurídica, financiamento, capital de risco) e contratação de mão de obra qualificada – inserindo mestres e doutores na indústria.
ITAEx – Como a formação no ITA contribuiu para sua atuação em ambientes internacionais como os EUA e a Suíça?
Mateus – O ITA é um grande transformador. A carga de estudo é elevada e a qualidade dos alunos é excepcional. Se bobear ou não estudar, fica para trás. Assim, cada aluno tem que aprender a desenvolver disciplina suficiente para manter sua rotina de muita dedicação e pouco lazer. Parece perverso, mas a recompensa aparece no futuro.
Nos ambientes em que trabalhei no Brasil, incluindo IEAv e indústria aeroespacial, sempre convivi com vários iteanos e a diferença da postura é marcante. O iteano é aquele que trabalha sob pressão e não tem medo do “gagá”, que abre um livro novo no prefácio e aprende o que precisar para resolver o problema do momento com rigor analítico. Essa postura não se encontra em muitos lugares ao redor do mundo; o mais fácil é deixar o problema de lado ou mesmo ir atrás de um especialista. O iteano simplesmente resolve! A instituição o tornou desse jeito. O Iteano está pronto para atuar em qualquer mercado, qualquer cultura, e liderar pelo exemplo. Vários fatores contribuem para isso, como a união e convivência no H8, Disciplina Consciente, campus do DCTA, disciplina e preparo do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), professores competentes e exigentes. Difícil dizer qual é a fórmula, mas espero que seja replicada no novo campus do ITA em Fortaleza e em outros locais num futuro não muito distante.
ITAEx – Qual mensagem deixaria para os jovens iteanos e pesquisadores brasileiros que sonham em transformar conhecimento em soluções para o Brasil?
Mateus – Continuem a acreditar em vocês e a aproveitar as oportunidades de aprendizado e amizade. Não tenham medo de empreender e utilizar seu conhecimento e potencial na criação de novas tecnologias.
A sólida formação do ITA vai garantir a base para aprendizado e adaptação contínuos ao longo da vida.
