Angelo Duarte: a mente iteana por trás do Pix e da inclusão financeira no Brasil

Engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA e doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas – FGV,  Angelo José Mont’Alverne Duarte (T94) tem ampla trajetória no setor público, e é uma das figuras centrais por trás do Pix — o sistema de pagamentos instantâneos que transformou a vida de milhões de brasileiros.
Com raízes em Fortaleza (CE), ele construiu uma carreira marcada por excelência técnica, compromisso público e um olhar atento à inclusão financeira e à educação como motores do desenvolvimento.
Ao longo de sua jornada, ele ocupou posições de destaque no Banco Central e no Ministério da Fazenda, e atuou como economista visitante no escritório do Banco de Compensações Internacionais (BIS) para as Américas. Em comum, todas essas experiências refletem o espírito de formação iteano: Disciplina Consciente, capacidade analítica, resiliência e a busca por soluções de alto impacto.
Nesta entrevista exclusiva à ITAEx, o chefe de Gabinete da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central fala sobre sua trajetória profissional, os bastidores do Pix, os desafios da educação pública no Brasil, o papel da formação técnica no enfrentamento das desigualdades e o legado dos primeiros nordestinos a ingressarem no ITA fora do eixo RJ-SP.

ATUAÇÃO ATUAL E DESAFIOS PROFISSIONAIS

ITAEx – O senhor foi economista visitante no escritório para as Américas do The Bank for International Settlements – BIS. Pode nos contar mais sobre suas atividades e como vê o papel dessa instituição na economia global?
Angelo Duarte – Sim, isso foi entre 2013-2016. Naquela época eu tinha um foco de atuação profissional mais ligado a macroeconomia e política fiscal. No escritório do BIS para as Américas eu tive a oportunidade de conhecer melhor sobre os instrumentos de política monetária e cambial nos EUA, Canadá e países da América Latina, e ainda me aprofundar em temas como operações de carry trade e intervenção cambial.

ITAEx – Como sua experiência anterior no Banco Central (BC) e no Ministério da Fazenda (MF) influenciou sua atuação atual no cenário internacional?
Angelo Duarte – Encarei como uma continuação natural. Esse fluxo de pessoas entre os órgãos de governo e organismos internacionais proporciona ganhos para ambos os lados. No meu caso específico aprendi bastante e pude compartilhar um pouco da minha experiência no BC e MF com os colegas de outros países.

ITAEx – O que mais o motiva em sua atuação profissional hoje? 
Angelo Duarte – Acho que é ver as nossas ideias produzidas no BC ajudando os cidadãos e os empreendedores.

ITAEx – Trabalhando diretamente com questões estruturais do sistema financeiro, como vê o equilíbrio entre a estabilidade macroeconômica e a inclusão social? 
Angelo Duarte – Entendo que não são objetivos conflitantes. A inclusão de mais pessoas e pequenas empresas no mercado de crédito pode, inclusive, aumentar a potência da política monetária e contribuir para a estabilidade macroeconômica. O Brasil é referência entre países emergentes em termos de inclusão financeira. Temos cerca de 90% da população adulta com acesso a uma conta e a meios de pagamento digitais, e cerca de 2/3 das pessoas recebem sua renda por meio de uma conta. Isso tem possibilitado o acesso de mais indivíduos e empreendedores a serviços financeiros. Como brasileiro e servidor do Banco Central, tenho muito orgulho de ver a profunda transformação digital que o sistema financeiro tem vivenciado ao longo da última década — fruto da atuação conjunta e inovadora do BC e do setor privado.

Expondo sobre o PIX com bancos centrais da Europa

DISCIPLINA CONSCIENTE E VALORES

ITAEx – O conceito de Disciplina Consciente (DC) tem ganhado espaço, especialmente em áreas que demandam decisões de alto impacto. Como esse princípio se manifesta em sua trajetória e na sua rotina profissional? 
Angelo Duarte – A DC é um dos pilares da formação diferenciada do ITA, e creio que a tenha aplicado durante toda minha trajetória profissional. Os valores da DC são importantes no meu dia a dia que envolve a discussão e a decisão em relação a temas que podem ter grande impacto sobre a estratégia comercial e tecnológica de grandes empresas.

RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO

ITAEx – O senhor foi coautor de um estudo que mostra o impacto da escolaridade na distribuição de renda no Brasil. Como enxerga o papel da educação no desenvolvimento econômico sustentável? 
Angelo Duarte – A escolaridade é um fator determinante da produtividade das pessoas, e consequentemente da taxa de crescimento de longo prazo de um país ou região. Há outros fatores como acumulação de capital, arcabouço institucional etc.
No Brasil, infelizmente, o aumento dos anos de escolaridade formal tem contribuído menos do que o esperado para o avanço da produtividade. Precisamos repensar o foco da educação pública. Novas tecnologias — como a Inteligência Artificial (IA) generativa — podem contribuir, mas seu impacto é limitado quando se trata de deficiências em habilidades básicas, como leitura e álgebra elementares. A propósito, um dos maiores especialistas nesse tema é o iteano Ricardo Paes de Barros (T77), referência internacional em economia da educação e políticas públicas.

ITAEx – Que papel a formação no ITA e o doutorado na FGV tiveram na construção da sua visão crítica sobre o País? 
Angelo Duarte – Por incrível que isso possa parecer, uma formação em economia calcada em métodos quantitativos cria uma boa combinação com a de engenharia. Há muitos iteanos atuando na área de economia. O ex-reitor do ITA (de novembro de 2001 a setembro de 2005) Michal Gartenkraut (T69), com quem trabalhei depois de me formar, me inspirou a tomar esse caminho.
O bonito da coisa é que você passa a querer entender a racionalidade dos fatos do dia a dia das pessoas ou das decisões das empresas e do Governo, assim como o engenheiro procura explicar os fenômenos físicos. Nesse diapasão, o ferramental de economia permitiu que entender melhor as causas e consequências de muitas das decisões ocorridas na esfera pública, e a compreender com mais racionalidade nossa história e os caminhos que podem ser percorridos.

ITAEx – Como acredita que a educação técnica pode (ou deve) dialogar com as demandas sociais do Brasil? 
Angelo Duarte – Como mencionei antes, acho que temos que repensar o foco da educação pública no País. Um maior investimento e valorização do ensino técnico, por exemplo, pode trazer ganhos significativos. Ao contrário do que muita gente pensa, o gasto em educação pública no Brasil não é baixo, mas os resultados ainda são ruins, o que sugere que a “máquina” que transforma recursos em aprendizado e habilidades está operando de forma ineficiente. Além disso, parece haver um descompasso entre o que é ensinado e as demandas reais da economia, o que compromete a inserção produtiva dos jovens no mercado de trabalho.

RELAÇÃO COM O ITA

ITAEx – Por que escolheu o ITA para sua formação? foi um processo difícil? Imaginou um dia estar nessa posição de destaque? 
Angelo Duarte – Eu sempre gostei de matemática, e encarei o vestibular como um desafio. A escolha do ITA em si foi claramente pela qualidade e renome da Escola. Foi difícil, mas os professores em Fortaleza na época ajudaram muito na preparação. Em relação à onde estou hoje, nunca imaginei realmente.

ITAEx – Que memórias mais marcantes guarda do tempo no ITA? 
Angelo Duarte – O que mais me marcou foi o estilo de vida intenso e exigente que o ITA impõe, algo que molda profundamente quem passa por lá. A rotina puxada, combinada com o convívio no H8 — com todas as suas peculiaridades — deixa memórias muito vívidas. Sobretudo ficam as amizades. Os laços que a gente constrói ao longo dos cinco (ou mais) anos são fortes e duradouros, muitas vezes tão resilientes quanto a própria família.

No encontro de 30 anos da T94 | Angelo Duarte é o sexto (em pé), da esquerda para a direita

ITAEx – Como a cultura iteana influenciou suas escolhas e estilo de liderança ao longo da carreira? 
Angelo Duarte – Tem alguns elementos da cultura iteana que são bem importantes na vida profissional, um deles é a cultura de resolvedor de problemas. O engenheiro formado no ITA é treinado para encarar desafios complexos, analisar cenários com profundidade e encontrar soluções eficazes — mesmo sob pressão. Aliado a isso tem a característica de resiliência no iteano, que é importante para enfrentar as dificuldades do dia a dia.

ITAEx – Que conselho daria para os jovens iteanos que desejam atuar no setor público ou em organismos internacionais? 
Angelo Duarte – O setor público tem suas vantagens e desvantagens em relação ao mundo privado, acho que cada pessoa tem que avaliar isso à luz das suas aspirações profissionais e do seu perfil, e no Brasil a transição entre os dois mundos não é algo tão comum como em outros países. Minha sugestão é que avaliem cada carreira, pois o setor público é bem heterogêneo.

PIX E INOVAÇÃO

ITAEx – O senhor liderou a equipe no Banco Central responsável por uma das maiores inovações do sistema financeiro brasileiro — o PIX. O que mais te orgulha nesse projeto? 
Angelo Duarte – O maior orgulho é ter entregado para a sociedade, junto com uma equipe, uma plataforma pública de pagamentos de reconhecida qualidade num país onde o Estado é identificado por não entregar serviços públicos adequados à população.
Desde o início do projeto, nosso foco sempre foi o cidadão comum e o pequeno empreendedor — o pipoqueiro, o vendedor de coco. Por isso, me emocionei quando, um dia, um vendedor de coco na Praia do Futuro me contou que o Pix tinha facilitado muito a vida dele. Foi nesse momento que percebi, de forma muito concreta, o impacto real do que estávamos construindo.

ITAEx – Que tipo de resistência ou desafio sua equipe enfrentou na implementação do PIX? E como foi superado? 
Angelo Duarte – O Banco Central tem uma excelente equipe técnica que trabalhou no projeto do Pix por vários anos antes do seu lançamento em 2020. As restrições de recursos humanos foram e são sem dúvidas o maior desafio. Na reta final, logramos fazer o onboarding de cerca de 500 instituições para que todas oferecessem os serviços desde o primeiro dia. Contou muito o sentimento de trabalho em equipe e de que todos estavam se esforçando para ofertar algo relevante para a sociedade. Acho que a pandemia ajudou também, tanto por ter tornado os pagamentos digitais mais essenciais quanto para obter uma maior dedicação da equipe.

ITAEx – Como vê o futuro do sistema de pagamentos instantâneos? Há espaço para mais avanços com base nessa tecnologia? 
Angelo Duarte – Vários países estão implementando sistemas de pagamentos instantâneos com participação do setor público. O sucesso do Pix e do sistema indiano têm influenciado bastante a expansão dessa modalidade de sistema de pagamentos. O Pix está em constante aperfeiçoamento. Em 16 de junho foi lançada a funcionalidade para pagamentos recorrentes, o Pix Automático, que torna o débito automático em conta mais acessível a empresas e usuários . Para os próximos anos, estamos trabalhando também em funcionalidades que agregam oferta de crédito às operações de pagamento.

PROPÓSITO E LEGADO 

ITAEx – O que quer deixar como legado — para sua cidade natal, para o ITA, e para o Brasil? 
Angelo Duarte – Acho que a minha geração de nordestinos que foram para o ITA no início dos anos 1990 deixou um legado de maior participação de estudantes fora do eixo RJ-SP na Escola.
Naquela época, eu e o Fabrício Monteiro Cavalcante, de Fortaleza, junto com o Herbetes de Hollanda Cordeiro Júnior, de Recife, e o Alexandre Xavier Ywata de Carvalho, de Salvador, formávamos um pequeno grupo na T94 que se preparou para o ITA em nossas cidades natais. Outros colegas aprovados se prepararam em cursos do Rio e de São Paulo. A partir dali, vimos essa presença nordestina crescer e se fortalecer a cada ano.

Recorte de um jornal de Fortaleza, quando da sua aprovação no ITA

ITAEx – Em que projeto ou causa ainda está em seus projetos futuros? 
Angelo Duarte – No momento estou buscando novos caminhos profissionais e por conseguinte de novos projetos.

ITAEx – O que diria para ex-alunos se envolverem e contribuírem para o crescimento e o fortalecimento dos alunos em curso no ITA? 
Angelo Duarte – Acho que todos os ex-alunos deveriam, na medida das suas possibilidades, tentar fortalecer a Escola. É uma questão de solidariedade com as gerações futuras e de valorização de si próprio, do seu esforço passado.
O ITA, por ser uma entidade pública, vai sempre carecer de recursos, e isso pode ser mitigado com o ingresso de recursos privados. Nesse sentido, eu louvo os colegas mais engajados nas iniciativas de capação de recursos, a exemplo da ITAEx.

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