Fernando Toshinori Sakane: Seis Décadas de História e Disciplina Consciente no ITA

Esta é a sexta entrevista da série Disciplina Consciente do ITA, uma iniciativa da ITAEx para resgatar e refletir sobre um dos pilares mais significativos da formação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA.
Dessa vez, o convidado é o Prof. Dr. Fernando Toshinori Sakane (T68), ex-aluno de Engenharia Eletrônica, ex-professor e ex-reitor, cuja trajetória de mais de 60 anos no ITA representa uma memória viva e uma fonte de inspiração para todas as gerações de engenheiros formados pela Escola.
Sakane coordenou o primeiro Plano de Desenvolvimento Institucional do ITA, que não só previa a expansão do Instituto, mas também contemplava novas obras de infraestrutura e o aumento do número de vagas na graduação. Foi sob sua gestão, em 2015, que o ITA lançou seu primeiro mestrado fora da sede de São José dos Campos, no Ceará — uma iniciativa considerada o embrião para a unidade do ITA em Fortaleza.
Na entrevista, ele compartilha suas percepções sobre a importância da Disciplina Consciente, sua influência nas mudanças e crises ao longo do tempo e seu impacto duradouro para o sucesso e relevância do ITA no Brasil e no mundo.

ITAEx – O senhor ingressou no ITA como aluno em 1964 e concluiu a graduação em 1968. Qual era a atmosfera e a cultura de Disciplina Consciente (DC) naquela época? Houve mudanças ou evoluções ao longo do tempo?
Sakane – Houve muitas mudanças ao longo do tempo. O próprio conceito de DC já era discutido. No ano anterior à minha entrada, 1963, havia sido realizado uma Assembleia Geral do Centro Acadêmico Santos Dumont – Casd para discutir uma tese sobre a Disciplina Consciente. O trote era o principal mecanismo de aculturação, o que pode ser observado na foto (abaixo) da turma de bixos em1964, onde há uma representação clara das tradições e rituais de integração característicos do ITA naquela época. Os alunos, todos com gravatas-borboleta, junto ao sininho preso à calça e à placa de “bixo” no peito — não são simples acessórios, mas sim partes do “uniforme” simbólico utilizado para distinguir e identificar os calouros.

Sacizal em frente ao E2 em 1964 

A atmosfera dos ingressantes na época era totalmente distinta do que tenho observado nos últimos anos, assim como a relação entre os veteranos e bixos, entre os professores e alunos, entre o ITA e o restante do Centro Técnico de Aeronáutica – CTA. Lembrando, ainda, que após cerca de um mês de normalidade, aconteceu o golpe de 1964 com profundo impacto na Escola. Outro aspecto importante é que não havia a divisão entre alunos optantes e não optantes: ou éramos alunos civis, ou alunos militares que eram oficiais de carreira da Força Aérea Brasileira – FAB. O Curso de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR não era obrigatório e o contato inicial era com a Escola. Não havia o período de instrução militar integral de um mês antes do início das aulas, como agora, quando ocorre a doutrinação militar antes da inserção no “ITA Universidade”. O CTA era o ITA e o Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento – IPD, sem este aspecto de área de segurança militar. Os professores tinham tempo para se dedicar à graduação, que era o foco do Instituto. Hoje, o professor tem de se dedicar também à pesquisa, pós-graduação, projetos com indústrias, sendo sujeito à cultura do publish or perish, eventos externos e outros. O aconselhamento, bem ou mal existia, com normas que forçavam a interação conselheiro-professor e existiam reuniões departamentais, competições entre alunos e professores e outras atividades. O CTA era isolado da cidade e havia eventos culturais, promovidos pelo Casd, nos quais havia boa participação de professores, familiares e pessoal do CTA. A comunicação com familiares e amigos era dificultada pela tecnologia de comunicações existente, assim como havia dificuldade de deslocamento para os locais de origem. Não havia internet, redes sociais. Éramos de uma geração diferente. Houve, portanto, mudanças radicais.

ITAEx – Nos anos 1960 e 1970, quando começou sua carreira como professor e pesquisador, como percebia a importância da DC para formar engenheiros e líderes?
Sakane – Pode parecer estranho, mas essa questão não passava pela minha cabeça. A DC era como o ar que respiramos: não pensamos nela (DC) como não pensamos nele (ar), pois fazia parte do nosso cotidiano. O assunto só aparecia à tona quando ocorria algum problema, no caso, de quebra de DC.

ITAEx – O ITA sempre teve uma forte cultura de excelência e compromisso. Qual o papel da DC nesta formação?
Sakane – O principal objetivo era formar alunos que não recorressem a “atalhos” para alcançar resultados, mas que adquirissem a capacidade de enfrentar dificuldades e desenvolver resiliência. Atalhos como colar nas provas, nas listas de exercícios ou nos relatórios de laboratório não eram tolerados. Os desafios, muitas vezes representados por problemas aparentemente sem solução ou de extrema complexidade, serviam para ensinar a perseverança, o pensamento crítico e a superação pessoal. Dessa maneira, cultivava-se não só a confiança do aluno em si mesmo, mas também a confiança mútua entre professores e colegas, fortalecendo uma cultura de integridade e compromisso com a excelência.

Sakane marcando presença no Sábado das Origens, em 2008

ITAEx – O senhor viveu todas as etapas do ITA: aluno, professor, chefe de departamento, vice-reitor e reitor. Qual foi o impacto da prática de uma DC (pessoal e institucional) para lidar com todas as responsabilidades e mudanças ao longo da sua carreira?
Sakane – O principal impacto foi aprender a confiar no trabalho de colegas, subordinados e superiores — e a construir uma cultura em que todos dão o seu melhor e esperam o mesmo dos demais. E que não se desiste diante dos desafios.

O Prof. Dr. Sakane foi reitor do ITA por 11 meses, em 2015

ITAEx – Nos momentos de crise ou mudança, como a DC o ajudou a tomar decisões importantes para o ITA?
Sakane – Para ser sincero, nunca pensei em termos de Disciplina Consciente ao tomar decisões, como quando apoiei o Reitor Michal Gartenkraut durante a crise dos alunos desligados por motivos políticos. Da mesma forma, quando era aluno, não associei à Disciplina Consciente o fato de não me envolver ativamente nos desdobramentos do golpe de 1964 — e nas suas sequelas, como a prisão e o desligamento de colegas. Essas decisões não foram pautadas por um conceito formal, mas por uma percepção pessoal de compromisso e integridade diante das situações que enfrentei.

ITAEx – Como cultivar a DC ao longo da carreira?
Sakane – Sendo honesto consigo mesmo e com os colegas. Trabalhar com ética. Não levar vantagem indevida. E cobrando o mesmo dos demais.

ITAEx – O ITA completou 75 anos em 2025. O que não pode faltar para as futuras gerações de seus engenheiros?
Sakane – Acredito que não pode faltar uma formação sólida, tanto profissional quanto ética. No ‘profissional’ entram a Disciplina Consciente e a ética, assim como a capacidade de acompanhar e gerar novos conhecimentos.

ITAEx – Qual impacto a Disciplina Consciente teve, e ainda tem, para o sucesso e a relevância do ITA no País e no mundo?
Sakane – O impacto e a relevância do ITA no Brasil e no mundo continuarão a depender de sua habilidade de formar líderes comprometidos com a integridade e de promover uma cultura de inovação — não apenas para criar, mas para inspirar e permitir que se crie.

ITAEx – Em tempos tão acelerados e pautados por tecnologia, qual mensagem o deixaria para as novas gerações sobre a importância de uma Disciplina Consciente?
Sakane – A importância da DC, após o término do curso no ITA, vai depender da sua capacidade de cobrar de outros o mesmo comportamento ético e profissional que se deve manter. Ser honesto e cobrar honestidade. Ser ético e cobrar ética. Confiar e ter confiança.

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