Série Hexavirato – A História de Ripper e da T61 – A Luta pela Flexibilidade e União no ITA

Até a adolescência, José Ellis Ripper Filho tinha poucos amigos e não sabia muito sobre o Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA. Seu contato com a escola aconteceu apenas nas férias de julho, quando, acompanhado de seu pai, visitou o campus em São José dos Campos – SP.

O entusiasmo de seu pai foi maior que o de Ripper, pois foi ali que ele começou a experimentar uma vida social intensa, algo que até então lhe faltava. A inscrição para o vestibular foi feita em cima da hora, mas, surpreendentemente, ele passou. Decidiu, então, focar sua trajetória acadêmica no ITA, onde logo se envolveu com o Centro Acadêmico, tanto no Conselho de Representantes quanto no Departamento de Esportes.

Foi no segundo ano, em 1958, que um incidente marcante fez ele perceber a força da união entre os alunos. O ITA tinha uma regra rígida: uma nota abaixo de 50 em qualquer disciplina resultava em desligamento do aluno. Embora a prática não fosse automática e normalmente discutida em reunião entre os professores, onde o caso específico do aluno era decidido. Se fosse dada uma nova chance, o professor envolvido mudava a nota.

O incidente foi que um determinado professor resolveu não seguir o costume. Em uma turma de 16 alunos, cinco foram desligados sem consulta aos outros professores. A greve era esperada por todo mundo com consequências imprevisíveis, certamente ocorreria uma reação forte do Ministério da Aeronáutica: o problema era como evitá-la.

Após longas discussões, suspenderam a assembleia sem uma decisão e levaram o caso ao Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho, fundador do ITA e diretor do Centro Tecnológico do qual o ITA fazia parte. Poucos dias depois, o Diário Oficial publicava a anulação dos desligamentos. A reunião dos professores foi realizada e apenas um desligamento confirmado.

Esse episódio foi fundamental para unir ainda mais a turma de 1961 e gerar a percepção de que o ITA poderia enfrentar grandes desafios à medida que o Brigadeiro Montenegro se aposentasse. Mas esse movimento foi um marco, uma estratégia para evitar pressões externas e fortalecer o poder de ação dos alunos e professores do ITA. Isto se provou necessário mais tarde, quando o Brigadeiro Montenegro se aposentou e foi substituído por um outro mais linha dura, que chegou a ameaçar de prisão um professor.

A união dos alunos da T61 ficou ainda mais evidente durante a organização de uma viagem à Europa, no final do quarto ano. Eles souberam que na viagem da turma anterior, apenas parte dos alunos participaram. Ficou decidido, então que, no caso da T61, ou iriam todos que quisessem ou ninguém iria, independente de situação financeira. Mesmo quem não tivesse recursos próprios, a turma garantiria, além do custo da viagem, mais 500 dólares para despesas pessoais. O apoio financeiro veio de empresas que seriam visitadas, dos governos português e francês e, em particular, do Brigadeiro Montenegro, que conseguiu que a FAB disponibilizasse lugares no voo de apoio à missão brasileira na ONU no Canal de Suez.

O Brigadeiro Montenegro pediu que a turma levasse dois professores e suas esposas, o que se provou muito conveniente nas visitas às empresas. Os professores e alguns alunos viajaram em voos comerciais.

A turma de 1961 foi um exemplo raro de união. A grande maioria queria usar isso para ajudar o Brasil a progredir. Nesse contexto, subgrupos como o “triunvirato” e o “hexavirato” surgiram, mas eram mais estruturas informais que se formavam em função de oportunidades para influenciar o ambiente do ITA.

Benedicto Ivan Perotti, falecido em setembro de 2015, foi um dos grandes organizadores da T61, realizando reuniões anuais. João Gomez também teve papel fundamental na organização, assim como o Rômulo Villar Furtado, que foi o primeiro da turma a ocupar um cargo político, como secretário-geral do Ministério das Comunicações. O foco, para todos, era promover o avanço acadêmico e profissional, seja no ITA ou fora dele.

Após a formatura, Ripper se viu em uma situação única. A revolução militar no Brasil forçou um adiamento de seus planos, incluindo uma oferta de estágio no renomado Bell Telephone Lab, que acabou se estendendo por cinco anos. Quando finalmente retornou ao Brasil, foi para a Unicamp, uma universidade mais nova, onde ele acreditava que poderia implementar mudanças com menos resistência. No entanto, o contexto político continuava desafiador, embora a presença do então reitor da Unicamp, Zeferino Vaz, garantisse uma certa segurança.

Essa experiência de luta e adaptação o marcou profundamente. Para Ripper, a união e a disciplina consciente são fundamentais em qualquer momento de crise, e essa lição não é apenas teórica. Ele viveu e contribuiu ativamente para o fortalecimento do ITA em um período delicado, e acredita que essas qualidades são essenciais para os alunos de hoje.

Em relação ao futuro do ITA, ele acredita que o apoio financeiro dos ex-alunos seja importante, mas que o apoio político é muito relevante também. E explica que, apesar dos avanços trazidos pela Lei dos Endowments (Lei nº 13.800/2019), ainda existem desafios na legislação brasileira que podem dificultar a realização de grandes doações, como incentivos fiscais limitados e exigências burocráticas, diferentemente de outros países como os Estados Unidos. Para ele, os ex-alunos devem se concentrar também em influenciar as políticas que moldam a educação superior no Brasil.

O distanciamento de Ripper das questões cotidianas do ITA, agora que está com 86 anos, é compreensível. No entanto, ele continua disposto a contribuir pontualmente, reforçando sua crença de que a união da turma, como foi visto durante o movimento do Hexavirato, em entrevistas anteriores com seus colegas, é a chave para qualquer transformação significativa.

A ITAEx, como continuidade do Hexavirato e agregando as demais turmas do ITA, tem um papel importante de manter esse legado de apoio à educação e ao progresso contínuo do ITA.

Categorias de postagens

Siga a ITAEX nas mídias sociais

× Fale no WhatsApp!