Em uma conversa sobre o futuro do setor aeroespacial brasileiro, o presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil – AIAB, Júlio Shidara (T86) – Coronel-Engenheiro Veterano da Aeronáutica compartilha sua vasta experiência e visão estratégica. Com uma carreira marcada por contribuições significativas para a modernização da Força Aérea Brasileira – FAB, ele contribuiu na implantação do caça AM-X no 1º/16º Grupo de Aviação e, posteriormente, dedicou a maior parte de sua trajetória profissional à Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate – COPAC. Nesse período, o iteano participou de projetos de alta relevância, como o desenvolvimento do radar embarcado SCP-01, o projeto SIVAM – Sistema de Vigilância da Amazônia, o míssil ar-ar A-DARTER, entre outros.
Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica com especialização em Engenharia de Software, e com uma vasta bagagem em projetos aeroespaciais e de defesa, Júlio Shidara possui uma visão clara sobre o papel fundamental da inovação e da autonomia tecnológica para o Brasil tornar-se protagonista global no setor aeroespacial.
Na entrevista exclusiva, ele discute a necessidade de uma infraestrutura espacial própria, a importância dos investimentos contínuos e da colaboração entre academia, indústria e governo para consolidar o Brasil como um líder no cenário internacional.
O iteano também destaca como a formação e a dedicação dos profissionais do ITA, movidos pelo desafio e pela Disciplina Consciente, têm sido determinantes para o sucesso de projetos complexos e de alto impacto na FAB e no setor aeroespacial. Ele acredita que a conscientização da sociedade sobre a importância estratégica do Programa Espacial Brasileiro é essencial para garantir o crescimento e a sustentabilidade dessa indústria no País.
T86, encontro dos 25 anos de formatura
Entenda a visão de Shidara sobre o futuro do Brasil no setor aeroespacial e como os ex-alunos do ITA podem contribuir para a transformação desse cenário.
ENTREVISTA
ITAEx: O senhor é presidente da AIAB desde 2019 e tem uma vasta experiência na FAB. Como ex-aluno, como vê a contribuição do ITA para sua trajetória, especialmente nas áreas de engenharia e tecnologia?
Shidara: O ITA é uma escola de Engenharia de reconhecida excelência. Considero que um de seus maiores diferenciais seja forjar o senso de desafio nos engenheiros que forma. O engenheiro do ITA é movido pelo desafio (challenge driven) e tem a forte crença de que, com empenho, dedicação e resiliência, é possível superar obstáculos e enfrentar quaisquer desafios. A crença nesse paradigma foi essencial na minha preparação para exercer o cargo de presidente de uma entidade de classe da importância da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil – AIAB.
Posse na presidência da AIAB, em 2019
ITAEx: Em sua opinião, qual é o papel da indústria aeroespacial brasileira no cenário global e como vê o futuro da indústria, considerando os recentes avanços e desafios que o Brasil enfrenta, como a dependência de satélites estrangeiros?
Shidara: A indústria aeronáutica brasileira é um ícone global, respeitada no mundo todo, com a Embraer no centro de um ecossistema capaz de projetar, desenvolver, certificar e fabricar aeronaves inovadoras, seguras e competitivas em escala global. É um exemplo cabal de que, com investimentos consistentes em desenvolvimento tecnológico e inovação, tendo como pedra angular o diferenciado profissional brasileiro, altamente cobiçado em todo o mundo, somos capazes de reproduzir muito mais casos parecidos de sucesso. A indústria espacial brasileira possui o mesmo DNA. Com investimentos adequados, passaremos a ser protagonistas globais também no setor espacial. Nos EUA, 14 de um total de 16 sistemas de infraestruturas críticas para o país dependem do sinal de tempo do GPS – Global Positioning System para funcionarem adequadamente. No Brasil, a realidade não deve ser diferente. Um eventual problema que afete a disponibilidade do sinal de GPS em território brasileiro pode provocar apagão nacional, dentre outros graves efeitos. Precisamos, urgentemente, começar a mitigar essa vulnerabilidade. Estamos no caminho certo. Os recentes contratos de subvenção econômica da Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP para a indústria espacial, os maiores de sua história, para desenvolvimento de um satélite óptico de alta resolução para observação da Terra e de veículos lançadores de nanossatélites, representam um divisor de águas para o futuro do Programa Espacial Brasileiro – PEB e alteram alguns dos mais importantes paradigmas de governança, como evitar a pulverização de recursos e um maior e melhor aproveitamento da capacidade da indústria de realizar desenvolvimento tecnológico, colocando o Brasil na rota das melhores práticas de programas espaciais bem-sucedidos em todo o mundo. Estamos apenas no início da jornada para a conquista de autonomia tecnológica no segmento de observação da Terra. Gradativamente, outros segmentos, como navegação, clima e telecomunicação também terão que ser contemplados.
ITAEx: O Brasil deve considerar o Programa Espacial Brasileiro como uma prioridade nacional? Quais são os passos mais urgentes para garantir que ele ganhe a visibilidade e o apoio necessário para prosperar no futuro?
Shidara: O PEB precisa ser um programa do Estado Brasileiro, com comprometimento e previsibilidade de investimentos no longo prazo e em patamares compatíveis com os desafios que precisamos enfrentar. No site da NASA, encontramos a seguinte frase do presidente Abraham Lincoln: “With public sentiment, nothing can fail; without it nothing can succeed”. Precisamos, urgentemente, realizar campanhas nacionais de conscientização da sociedade acerca da importância de possuirmos uma infraestrutura espacial própria para atender às necessidades nacionais. Sem isso, continuará prevalecendo o paradigma daquele grupo de pessoas que ainda acreditam que o Brasil não deve investir em seu programa espacial enquanto existirem necessidades típicas de países em desenvolvimento em áreas como educação, saneamento e saúde. A Índia, país em desenvolvimento como o Brasil, superou esse falso paradigma em 1999, quando os EUA negaram acesso ao GPS durante a Guerra de Kargil envolvendo Índia e Paquistão, evento considerado como sendo a gênese do sistema indiano de navegação. O mesmo ocorreu também com a China alguns anos antes, em 1996, num conflito no estreito de Taiwan. Desde então, investimentos contínuos e vultosos transformaram os programas espaciais da Índia e da China nas potências globais que são hoje. O Brasil foi, ao longo de décadas, aumentando lenta e gradualmente a sua dependência por satélites estrangeiros e ainda não se deu conta da grave vulnerabilidade que tal fato representa para a soberania nacional. Considero que a falta de consciência da sociedade e, por consequência, de tomadores de decisão da importância estratégica de infraestrutura espacial própria para os interesses nacionais seja a causa raiz para o subfinanciamento do Programa Espacial Brasileiro nas últimas décadas.
ITAEx: A AIAB tem defendido a inovação tecnológica como um pilar essencial para a competitividade global. Acredita que o Brasil pode acelerar o investimento em inovação, tanto no setor aeronáutico quanto no espacial, para alcançar um protagonismo global?
Shidara: Só com contínua inovação a indústria aeronáutica será capaz de manter a competitividade de seus produtos no mercado global, caracterizado por acirrada concorrência e condições desiguais para inovar, na medida em que as principais empresas concorrentes no exterior recebem de seus respectivos governos contínuos e massivos fomentos públicos à inovação. Os produtos da indústria aeroespacial estão entre aqueles de maior valor agregado de toda a indústria. Um quilo de satélite, por exemplo, possui o mesmo valor que alguns milhares de toneladas de um produto típico de mineração. Os recursos investidos em inovação tecnológica na indústria aeroespacial retornam para a sociedade rapidamente, majorados por um fator multiplicador, na forma de geração de empregos altamente qualificados e bem remunerados, aumento de arrecadação de tributos e crescimento de exportações. Na esteira da Lei Complementar 177/21, em que recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT foram protegidos de futuros contingenciamentos, com arrecadações crescentes que já chegam ao patamar de R$ 18 bilhões anuais, apenas a falta de uma visão estratégica de longo prazo poderá impedir a continuidade de investimentos na estratégica indústria aeroespacial.
ITAEx: O Brasil possui grandes recursos humanos, especialmente no setor aeroespacial, caracterizados por criatividade e flexibilidade. Como o senhor avalia o papel dos profissionais formados em instituições como o ITA na inovação e no desenvolvimento da indústria nacional?
Shidara: Creio que o Brasil tem o privilégio de poder contar com o diferencial do profissional brasileiro, que, além da criatividade e da engenhosidade, possui a grande virtude da flexibilidade, o “jeitinho brasileiro” empregado para o bem, lapidado em escolas de formação de excelência como o ITA. Não existe tecnologia desenvolvida no exterior, muitas delas objeto de cerceamento, que profissionais brasileiros também não sejam capazes de desenvolver e de forma mais rápida, mais barata e melhor. Nunca esquecerei das palavras do chefe da delegação da indústria aeronáutica japonesa que visitou a Embraer em 2024: “Os japoneses têm muito a aprender com a indústria aeronáutica brasileira”. No setor espacial, estamos apenas começando a jornada para fazer o Programa Espacial Brasileiro recuperar o atraso. No cenário atual de oportunidades, profissionais challenge driven formados em instituições como o ITA têm a oportunidade ímpar de fazerem a diferença, dedicando seus talentos e competências ao Programa Espacial Brasileiro, em benefício de toda a sociedade.
ITAEx: Em sua opinião, qual é a importância do apoio dos ex-alunos para o fortalecimento do ITA e do setor aeroespacial brasileiro, especialmente no contexto atual, em que a colaboração entre academia e indústria é cada vez mais necessária?
Shidara: O conceito da tríplice hélice da inovação é muito simples de compreender. Contudo, muito complexo de implementar para que produza os melhores resultados possíveis. Não apenas a colaboração entre Academia e Indústria é essencial, como também entre os Institutos públicos de Ciência e Tecnologia (ICTs) e a Indústria. Muito antes de tornar-se popular, esse conceito foi aplicado com êxito no projeto do avião Bandeirante, já em meados da década de 1960. A abordagem à época era de que o desenvolvimento tecnológico do avião fosse realizado exclusivamente pelo Centro Técnico Aeroespacial (ICT pública) e, uma vez desenvolvida, a tecnologia seria transferida para a indústria (Embraer). Essa mesma abordagem aplicada no setor espacial produziria resultados muito aquém do possível, uma vez que, diferentemente da indústria aeronáutica da época, a indústria espacial de hoje possui maturidade tal que a habilita a participar e contribuir efetivamente no desenvolvimento tecnológico de projetos espaciais de interesse nacional. Feita essa contextualização, tenho a forte convicção de que os ex-alunos do ITA, por conhecerem os fatores de êxito do setor aeronáutico no Brasil, bem como as particularidades e especificidades que caracterizam tanto o setor aeronáutico quanto o espacial, desempenham um papel fundamental para aperfeiçoamento do instituto e para o crescimento e o fortalecimento da indústria aeroespacial no Brasil. Os ex-alunos do ITA, respeitados e competentes formadores de opinião, atuam nos mais diferentes escalões do poder público e da iniciativa privada e, conhecedores da “receita de sucesso do setor aeronáutico”, podem atuar para replicar esse modelo no setor especial.
ITAEx: A Disciplina Consciente – DC no ITA tem gerado ótimos frutos no campo da engenharia e da inovação. Como essa abordagem influenciou sua carreira, especialmente relacionado aos projetos de alta complexidade como os que envolvem a modernização da FAB e os programas espaciais?
Shidara: A Disciplina Consciente é um diferencial para a vida do engenheiro formado no ITA, e não apenas em sua vida profissional. Fazer o certo porque é o certo, ainda que ninguém esteja fazendo ou observando. Com a DC, construímos e conquistamos confiança, credibilidade e respeito, valores fundamentais para prosperar em qualquer área da vida. A DC praticada durante toda a minha carreira como oficial da Aeronáutica proporcionou-me a possibilidade de construir uma trajetória profissional respeitada por pares e superiores até os dias atuais. Da mesma forma, a prática da DC no cargo de presidente da AIAB já começa a mostrar seus frutos.
ITAEx: Quais são as principais iniciativas da AIAB para fortalecer a base industrial aeroespacial, e como os alunos do ITA podem contribuir para essas iniciativas no futuro?
Shidara: Todas as iniciativas da AIAB visando ao fortalecimento da indústria aeroespacial brasileira fundamentam-se na profunda convicção da capacidade do profissional brasileiro, oriundo de instituições de excelência como o ITA, de realizar desenvolvimento tecnológico e promover inovação diferenciada na certeza de que investimentos destinados à inovação tecnológica, especialmente em segmentos de elevada agregação de valor como o aeroespacial, retornam para a sociedade acrescidos de um fator multiplicador e catapultando o desenvolvimento econômico e social do País, como comprova a trajetória de êxito da indústria aeronáutica brasileira.
Os alunos do ITA podem contribuir difundindo essas convicções para afastar, em definitivo, a “síndrome do vira-lata” que ainda pode acometer parte de nossa sociedade.
ITAEx: Sobre a necessidade de uma política industrial adequada para o setor aeroespacial, quais são, na sua opinião, os principais obstáculos que o Brasil enfrenta nesse sentido e como as políticas públicas podem ser ajustadas para melhor apoiar o crescimento dessa indústria?
Shidara: Para que seja efetiva para a indústria aeroespacial brasileira, qualquer política industrial necessita levar em consideração suas especificidades e contemplar, ao menos, os seguintes aspectos:
– investimentos públicos para inovação com continuidade e previsibilidade como, aliás, ocorre há muito tempo, e em patamares muito superiores aos praticados no Brasil, nos países de empresas aeroespaciais concorrentes no exterior. Sem inovação contínua, fica comprometida a capacidade de produtos da indústria nacional concorrerem no acirrado mercado global;
– instrumentos de financiamento às exportações, que também ocorre de forma agressiva nos países de empresas concorrentes. A indústria aeroespacial é eminentemente exportadora. Sem financiamento adequado, ainda que o produto brasileiro seja diferenciado, ocorre inevitável perda de mercado para a concorrência;
– demanda (pública) organizada. É muito relevante que o primeiro cliente da indústria aeroespacial seja o seu próprio país. Sem que a FAB tivesse incorporado o KC-390 em sua frota, o processo de internacionalização da aeronave seria muito mais árduo. No setor espacial, é determinante para o futuro da indústria espacial brasileira que o país adquira da indústria nacional uma constelação de SatVHR, satélite de observação da Terra de alta resolução, atualmente em desenvolvimento com recursos do FNDCT. Isso pode ser viabilizado destinando à indústria brasileira parte dos recursos que já são utilizados anualmente para a aquisição de imagens de empresas estrangeiras. Defendemos que o Brasil reutilize modelos de políticas públicas que tiveram êxito no passado, como o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas – PROINFRA para o setor de energia eólica, que garantiu o financiamento e organizou a demanda, fazendo com que, em cerca de duas décadas, o Brasil desse um salto na capacidade de geração de energia eólica onshore, ocupando hoje o sexto lugar no ranking global.
ITAEx: Durante sua trajetória profissional, o senhor trabalhou em projetos importantes, como a modernização da Força Aérea Brasileira e a implantação de sistemas de alta tecnologia. Qual o papel da colaboração internacional nesses projetos e como o Brasil pode se beneficiar mais de parcerias globais na área aeronáutica e espacial?
Shidara: Um dos principais benefícios de cooperações internacionais é permitir compartilhamento de custos de desenvolvimento, que, normalmente, são vultosos. Não menos importante é a possibilidade de absorção de conhecimento para aumento de nossa autonomia tecnológica. Exemplos de sucesso são parte da história da indústria aeroespacial brasileira. O programa da aeronave de combate AM-X, em parceria com a Itália, representou um divisor de águas para a indústria aeronáutica brasileira. Semelhantemente, o programa do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS) com a China foi, e está sendo, muito relevante para o desenvolvimento da indústria espacial brasileira.
Muito mais parcerias poderiam ser estabelecidas, especialmente no setor espacial, pois satélites são globais pela sua própria natureza. Contudo, a realidade é que divergências geopolíticas e cerceamentos tecnológicos, dentre outros fatores, representam obstáculos ao avanço de parcerias internacionais.
ITAEx: Como vê o papel da ITAEx e a contribuição de ex-alunos em apoio ao ITA e aos atuais alunos de graduação?
Shidara: Para além de sua missão primária de financiar projetos de alunos e professores, a ITAEx, ao congregar profissionais que são/foram expoentes nos setores em que atuam/atuaram, representa uma preciosa fonte de orientação para o ITA, por proporcionar uma perspectiva privilegiada acerca das reais demandas do mercado. Para os alunos, por outro lado, representa uma referência ímpar e uma fonte confiável (e gratuita) de aconselhamento para que possam traçar o planejamento de sua trajetória profissional.