Nascido em São Paulo, no dia 6 de janeiro de 1961, o Major Brigadeiro do Ar R1 Wander Almodovar Golfetto é um exemplo de profissional que dedicou sua vida à aviação e à engenharia aeroespacial. Sua trajetória, marcada por excelência e paixão pelo que faz, é uma inspiração para os futuros engenheiros que estudam no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Após ingressar na Força Aérea Brasileira (FAB) em 8 de março de 1976 e formar-se na Academia da Força Aérea (AFA) em 1982, no Curso de Formação de Oficiais Aviadores, Wander buscou aprimorar seus conhecimentos na área de Engenharia. Em 1990, já como Capitão Aviador, ingressou no ITA, onde se graduou em Engenharia Aeronáutica em 1994.
Sua busca por conhecimento não parou por aí. Obteve o título de Mestre e Doutor em Ciências pelo ITA, com foco em Sistemas Aeroespaciais e Mecatrônica – Dinâmica de Voo Orbital. Além disso, realizou diversos cursos acadêmicos e operacionais, incluindo o curso de Piloto de Provas no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e o MBA em Planejamento Estratégico pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Ao longo de sua carreira, atuou em diversas funções de destaque. Na FAB, trabalhou no Comando da Aeronáutica de 1976 a 2015, alcançando o último posto de Major-Brigadeiro do Ar em março de 2014. Em agosto de 2015, passou para a reserva da FAB.
Desde 2015, Wander integra a equipe da Embraer, onde atua como piloto de provas e gerente de operações de ensaios em voo. Sua experiência e conhecimento têm sido fundamentais para o desenvolvimento e certificação de aeronaves brasileiras.
Sua trajetória é marcada por diversas conquistas e contribuições para a aviação e a engenharia aeroespacial brasileira. Sua participação em projetos como o VLS (veículo lançador de satélite) e o VLM (veículo lançador de microssatélite), sua atuação como piloto de provas na Embraer e sua experiência como finalista na seleção de astronauta são exemplos de seu talento e dedicação.
Nesta entrevista exclusiva, ele compartilha sua experiência, seus insights e sua visão sobre o futuro do setor aeroespacial brasileiro. Uma oportunidade única de conhecer a história de um líder que inspira gerações de engenheiros e apaixonados por aviação. Acompanhe a seguir!
A Conexão entre Engenharia Aeroespacial e Ensaios de Voo
ITAEx – Como a sua experiência como piloto de provas e sua formação em Engenharia Aeronáutica e Mecânica pelo ITA contribuíram para o sucesso de seus testes e a certificação de aeronaves na Embraer?
MB Wander – Com a formação nessas duas áreas, foi possível aliar a minha experiência como piloto de provas com os conhecimentos obtidos na formação e pós-graduações em Engenharia Aeronáutica no ITA. Essas duas capacitações se complementam e ajudam na realização da atividade de testes em voo e para o desenvolvimento e certificação de nossas aeronaves. O ensaio em voo é área de conhecimento da Engenharia Aeronáutica e carrega muito dos conceitos e resultados da Mecânica de Voo. Basicamente, realizamos um conjunto de manobras que visam levantar parâmetros e dados que, após análise, se refletem num bom produto que cumpre um certo requisito de certificação e alimentam modelos matemáticos que são representados por um sistema de equações matemáticas. O entendimento dessas equações e suas características ajudam na tarefa de reconhecer as respostas da aeronave. Ou seja, conhecer a ciência por trás do voo ajuda no entendimento dos fenômenos. Todo curso de ensaios em voo tem uma grande ênfase em matérias acadêmicas como aerodinâmica, mecânica em voo, controle e sistemas em geral. Essas áreas são justamente temas da Engenharia Aeronáutica. Portanto, a formação nesse ramo da Engenharia contribuiu para o desempenho das tarefas relativas ao ensaio em voo, permitindo ir além da própria atividade. O conhecimento das duas áreas proveu uma visão complementar entre a teoria e a prática.
Primeiro voo do protótipo do Embraer E175E2
ITAEx – Como os estudos de otimização de trajetórias espaciais e dinâmica orbital que você fez no ITA influenciam seu trabalho como piloto de testes?
MB Wander – Inicialmente, posso afirmar que os estudos realizados no ITA e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os quais culminaram com a obtenção de um Doutoramento na referida área de controle ótimo e dinâmica orbital foram fundamentais para o trabalho que realizei no Programa Espacial Brasileiro. Foram mais de dez anos, seja à frente do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) ou nas áreas de atuação subordinadas ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e permitiram uma ampliação de conhecimentos que só um doutorado pode proporcionar.
A otimização de trajetórias tem fundamento no estudo de controle ótimo de sistemas dinâmicos. Fundamentalmente, pode ser aplicado em qualquer sistema dinâmico, seja um satélite, foguete ou mesmo aeronave. Dessa forma, o conhecimento que obtive no estudo de controle de sistemas foi extremamente importante para o entendimento das leis de controle que são desenvolvidas para aeronaves e proporcionou uma visão mais completa de como essa reage aos comandos que afetam a dinâmica do veículo.
Em dezembro de 2019, MB Wander (à direita) divide a cabine
com o comandante Louzada (à esquerda) – ex-chefe dos pilotos da Embraer,
Coronel da Reserva da FAB e ex-diretor do IAE
Carreira e Ensino
ITAEx – Como o ITA preparou o senhor para as exigências do trabalho no IAE e no DCTA?
MB Wander – A formação no ITA foi fundamental para as atividades que exerci ligada aos diversos projetos do IAE e do DCTA. O conhecimento técnico me permitiu não só participar do desenvolvimento e acompanhamento da evolução dos projetos, como colaborou para a tomada de decisões mais apropriadas frente aos diversos problemas surgidos. Esse conhecimento permitiu uma atuação mais próxima das soluções técnicas, e o entendimento da linguagem dos pesquisadores facilitou muito a interlocução com eles. Entendendo o pensamento científico, foi possível desenvolver um raciocínio crítico e analítico, importante para quem trabalha diretamente com essas áreas da atividade humana. Outro fator de destaque foi a ênfase que a doutrina educacional do ITA coloca no trabalho em grupo e na colaboração entre colegas, de forma a criar um ambiente de aprendizagem mútua. Assim também é o ambiente de pesquisa, onde a colaboração científica e técnica é fundamental para o sucesso de um projeto.
Em 2024, na reunião de 30 anos de formados da T94 | ITA
ITAEx – E o que aprendeu com sua experiência como professor no ITA que contribuiu para sua trajetória profissional, tanto no setor de defesa quanto na indústria aeronáutica?
MB Wander – A experiência como professor foi muito importante pois me proporcionou contato com pessoas dispostas a questionar, a duvidar e a criar formas diferentes de visualizar o mesmo assunto. Isso solidificou o meu conhecimento, ampliou minhas técnicas de comunicação e me permitiu viver momentos excepcionais nesse ambiente tão fecundo que é o meio acadêmico. Costumo dizer que na sala de aula quem mais aprende é o professor. Realmente, é uma atividade que sempre gostei muito e sou muito grato ao ITA, por ter me permitido participar, mesmo que brevemente, da formação de pessoas tão interessantes.
A Experiência no Processo de Seleção de Astronautas
ITAEx – O senhor foi um dos cinco finalistas da seleção da Agência Espacial Brasileira (AEB) para ser o primeiro astronauta brasileiro. O que aprendeu com essa experiência, especialmente em relação ao trabalho em equipe, à pesquisa científica e aos desafios que o Brasil enfrenta em termos de exploração espacial?
MB Wander – Costumo dizer que, na minha geração, a qual viu o homem pousar na lua pela primeira vez, muita gente queria ser astronauta. Durante a entrevista final, junto à comissão de seleção, que incluía astronautas americanos, eu disse isso, mas acrescentei que eu deveria ser a única pessoa ali que havia planejado isso.
Ocorreu que, aos 8 anos de idade, recebi de presente de meu pai a revista Fatos e Fotos – uma edição especial que possuo até hoje, onde tive contato com a biografia dos astronautas da Apolo 11. Armstrong era engenheiro aeronáutico e piloto de provas, Aldrin era piloto de provas e Doutor em Dinâmica orbital. Foi assim que planejei a minha vida e segui nesse caminho, estudando e me formando exatamente nessas áreas.
É claro que sabia o quanto, para um país como o nosso, seria difícil ter um programa espacial com a dimensão de ter um astronauta algum dia. Na minha mente, entretanto, o caminho valeria a pena, pois eu aprenderia coisas que amava, seria piloto, o que é uma vocação profunda em mim, e quem sabe, estaria pronto para qualquer chance que viesse. E não é que quase aconteceu? A escolha recaiu sobre outro candidato, o Pontes, como sabem, companheiro de jornada parecida na FAB e no ITA.
Esse fato, entretanto, não foi um grande problema para mim, pois eu havia tentado e o caminho percorrido tinha sido excepcional até então, era só prosseguir nele. Essa trajetória me trouxe até aqui, hoje, e me permitiu sempre estudar, aprender e trabalhar com assuntos que amo. Isso faz toda a diferença. Costumo dizer que sou um eterno voluntário e estarei sempre disposto para atuar no desenvolvimento da Ciência & Tecnologia do nosso País.
Não atingi o objetivo principal que era me tornar astronauta, porém, nos anos seguintes participei de importantes projetos, tendo me envolvido com o Programa Espacial Brasileiro por mais de dez anos.
Hoje, já estou a outros dez anos fazendo aquilo que me preparei tecnicamente e que me traz imenso prazer em trabalhar, voar aeronaves de testes, ajudando o Brasil a manter uma indústria aeronáutica importante, forte e disruptiva, como é a Embraer. E tudo foi possível graças àquele sonho de criança e à perseverança em prosseguir sempre para a frente, almejando novos desafios e não desistindo nunca. Aprendi muito nessa área, ensinei um pouco, e sou muito feliz no que faço.
O Papel Estratégico do DCTA e a Engenharia Aeroespacial no Brasil
ITAEx – Como chefe do Subdepartamento Técnico do DCTA, o senhor gerenciou importantes programas de foguetes, como o VLS e o VLM. Como a atuação do DCTA e o desenvolvimento de tecnologia aeroespacial têm contribuído para o fortalecimento da indústria aeroespacial brasileira? E, ainda, quais são os próximos passos que vê para o Brasil nesse setor?
MB Wander – O tempo que passei à frente do Subdepartamento Técnico do DCTA foi extremamente rico em experiências para nós que lá atuávamos, pois nos proporcionou contato e acompanhamento de todos os maiores e mais importantes projetos de Ciência & Tecnologia do Comando da Aeronáutica (COMAER) e que se revestiam de alta relevância no âmbito nacional. Atuávamos no gerenciamento de nível superior desses projetos, definindo caminhos, diretivas, requisitos, prazos e acompanhamento, tudo de acordo com as orientações da Direção-Geral e do COMAER. Mantínhamos uma interface muito importante com o Ministério da Ciência e Tecnologia e a AEB, à época, e com todos os órgãos de fomento à Ciência & Tecnologia. Foi um período muito profícuo, carregado de dinamismo e novas experiências.
O DCTA sempre teve, e vai continuar a ter, um papel fundamental para o desenvolvimento e o fortalecimento da indústria aeroespacial brasileira. Não apenas por ser um celeiro de mentes que se dedicam e colaboram nessa direção, mas também, ainda hoje, pelo pioneirismo em áreas que ainda estão se tornando importantes no mundo moderno. O conhecimento humano evolui constantemente, novas tecnologias rapidamente invadem nosso dia a dia, e não podemos perder o passo, se quisermos ser uma sociedade evoluída, um país relevante no cenário mundial e um povo feliz e instruído.
Na minha opinião, o desenvolvimento tecnológico não acontece por si só. Para ser realmente disruptivo, ele tem que se basear ou se apoiar na evolução científica e em novas ideias. A ênfase que o ITA coloca, desde os seus primórdios, num currículo acadêmico forte em ciências básicas, ou seja, no fundamento em Matemática e Ciências que são a base para o entendimento e a criação de novos conhecimentos, são essenciais para balizar novas conquistas científicas e tecnológicas.
O Brasil tem capacitação e recursos para se desenvolver em qualquer atividade humana, é só querer. No setor aeroespacial atingimos um patamar de alto nível, comparável às nações mais desenvolvidas do planeta. Temos uma indústria forte e competitiva que pode e deve se engajar nos grandes projetos nacionais. Temos que criar condições para lançamento de um satélite brasileiro, em território nacional, com um veículo e tecnologia próprios. Tudo isso está a mão. Eu posso afirmar, pois estive lá e participei, por muitos anos dessa atividade, e sei que temos essa capacidade. Os entraves são muitos, muitas vezes burocráticos, mas, superá-los, só depende de nós. Temos um programa espacial completo que precisa de consolidação e apoio. Temos que tratar com mais seriedade essa área complexa que é, na minha opinião, de extrema importância para soberania do nosso País.
A Aviação Brasileira no Cenário Global
ITAEx – Como piloto de provas na Embraer, testemunhou de perto o impacto das aeronaves brasileiras no mercado global. Quais são os principais desafios e oportunidades que o Brasil enfrenta para continuar a expandir sua presença na indústria aeronáutica e aeroespacial, especialmente com a crescente colaboração internacional?
MB Wander – O impacto das aeronaves brasileiras no mercado mundial é enorme e inquestionável; como é inegável a reputação da Embraer como uma das maiores, mais disruptiva e capacitada indústria aeroespacial do planeta. Os desafios são enormes e diários, mas, desde a sua criação, ela aprendeu a enfrentá-los e a vencer nesse ambiente extremamente difícil, regulamentado e competitivo. Tudo isso, graças ao investimento em capacidade de recursos humanos, recursos técnicos, infraestrutura, organização e, sobretudo, perseverança. Sua capacidade de inovar é uma de suas forças. A Embraer nunca se abateu frente aos desafios e adversidades, pelo contrário, sempre soube enfrentá-los com disposição, criatividade e muito trabalho, vencendo a todos.
Nosso cluster aeroespacial está em constante expansão, com novas empresas, iniciativas e capacitações surgindo a cada dia.
Existem muitas oportunidades para a indústria aeroespacial do Brasil. O importante é estar atento ao cenário mundial e agir com inteligência e disposição. Tenho muita confiança na nossa capacidade de vencer nesse ambiente.
Feiras internacionais de Farnbourough Airshow (2023) e Le Bougert (2024)
Atualidade
ITAEx – Qual sua ocupação hoje fora da FAB?
MB Wander – Estou há dez anos na Embraer, atuando como piloto de provas no desenvolvimento de suas aeronaves e sistemas, tendo participado do primeiro voo de duas novas aeronaves. Atualmente, sou o Gerente de Operações de Ensaios em Voo e Piloto de Provas Chefe da Embraer.
Tem sido uma oportunidade muita rica em novas experiências, na qual foi possível aliar a minha formação de piloto de provas com os conhecimentos obtidos na formação e nas pós-graduações em Engenharia Aeronáutica no ITA. Conhecimentos esses que se complementam e me ajudam no cumprimento da minha missão.
Sobre ITA e ITAEx
ITAEx – Como um ex-aluno pode contribuir na formação dos futuros engenheiros que estudam no ITA?
MB Wander – Acredito que a principal contribuição venha de seu exemplo em seguir e afirmar os valores obtidos nessa escola. O ITA sempre se preocupou, como instituição, em não só formar engenheiros capazes e de alto nível profissional e de conhecimento, mas também de forjar cidadãos e pessoas comprometidas com o bem da sociedade. Os valores cultuados na escola perduram pelo resto da vida e sempre ajudaram no caminhar profissional de cada formando.
Apoiar as iniciativas da ITAEx e do próprio ITA é dever de todos os ex-alunos naquilo que for possível a cada um de nós. Essa consciência de pertencimento a um grupo tão distinto como esse deve se transformar em ações que ajudem aos que vêm depois a trilhar o caminho que essa instituição nos proporcionou.
ITAEx – Qual a sua visão sobre o trabalho da nossa Associação no apoio aos alunos?
MB Wander – Venho acompanhando esse trabalho ao longo dos anos e a sua importância é inegável. A ITAEx não só proporciona apoio aos alunos e suas iniciativas, mas representa um fórum que proporciona o contato entre os ex-alunos, a instituição e seu bem mais precioso, os atuais alunos do ITA.
Parabenizo aos que se dedicaram ontem e hoje à essa nobre missão que é a de retornar com gratidão o que foi obtido dessa escola tão singular no universo brasileiro. Todos temos a obrigação de apoiar essa iniciativa.